Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

RECORDAR É VIVER

Em Setembro de 1964 apresentei-me no RAL 1 e, enquanto não se formava o Batalhão, fui colocado numa Bateria que era comandada pelo tenente Garcia Leandro (hoje general, depois de uma bem sucedida carreira político-militar).

Alguns camaradas avisaram-me logo que ele era um militar puro e duro, dos que não toleravam a menor infracção aos regulamentos. Mas não era bem assim, como vamos ver mais abaixo.

Como sabem os que viveram naquela época, aos cabos-milicianos não era permitido trajar à civil. Porém, em conversa de caserna, alguns de nós achavam que se tivessemos uma adesão significativa ao incumprimento dessa norma, seria complicado para a hierarquia aplicar-nos uma punição severa, dadas as circunstâncias.

Nesta altura, não me recordo se apenas os cabos-milicianos da minha Companhia – a 738 – aderiram a este comportamento, ou se adesão foi generalizada a todo o Batalhão.

O certo é que passámos, a desfardar-nos no nosso alojamento (que ficava à direita de quem entrava no quartel, depois de se descer um lanço de escadas exterior), saindo (e entrando) depois calmamente pela porta de armas.

Normalmente, o soldado de sentinela punha-se na posição de sentido quando saiamos. Excepto se saissemos ou entrassemos no Taunus 17M, novo, do Conceição: aí tinhamos direito a "ombro arma" situação em que um de nós fazia, com ar magnânimo, um gesto a mandar descansar.

Aqui, faço um parentesis para explicar que o Conceição era arquitecto, abastado, mais velho do que nós 3 ou 4 anos, meio anarquista no comportamento, razão mais do que suficiente para ter chumbado no COM, em Mafra, e ter engrossado o contingente dos cabos-milicianos. Não foi connosco para Angola, porque trocou com o Rodrigues, que já lá tinha feito uma comissão.

A nossa "insubordinação" não passou despercebida e, algum tempo depois, parecendo ter dificuldade em lidar com a situação, o comandante do RAL 1 - tenente-coronel (ou coronel?) Bettencourt Rodrigues – mandou publicar em Ordem de Serviço uma recomendação, lembrando que para os cabos-milicianos era obrigatório o uso de farda, dentro ou fora do quartel, excepto nos casos previstos no RDM, adiantando que o desrespeito pela norma seria severamente punido. Fizemos olhos cegos e orelhas moucas, aos avisos, que não tiveram consequências.

E, aqui, volto ao tenente Garcia Leandro. Algumas semanas depois da formação do Batalhão a escala de serviço determinou que eu entrasse de sargento de dia à Companhia a um domingo. O render da parada tinha lugar depois do almoço (às 13 ou 14 horas, não estou certo).

Quando cheguei à porta de armas pouco antes da hora, trajando à civil e já com pouco tempo para me fardar, o oficial de dia que ia ser rendido encontrava-se a passar revista a militares que iam sair do quartel. Para não dar nas vistas decidi esperar um pouco, procurando entrar discretamente. Todavia, face à demora na revista, entrei mesmo , tão "camuflado" quanto possível, e sem problemas.

O problema surgiu quando constatei a falta do meu único par de botas, que tinha levado para engraxar em casa, e que não estava no saco.

No meu alojamento não havia ninguém que me pudesse emprestar umas botas 42. No alojamento dos praças consegui o empréstimo de um par nº 43 (do mal o menos), mas a pedirem graxa, operação para a qual já não tinha tempo.

Quando cheguei à parada verifiquei que ia entrar de oficial de dia o "terrível" tenente Leandro, que já olhava para o relógio. Com as botas naquele estado, fiquei sem pinga de sangue, achando que era desta que vinha uma "passa" a caminho.

Dirigi-me a ele de imediato e expliquei-lhe que me tinha esquecido das botas em casa, e que já não tinha tido tempo para engraxar as que "tinha" de reserva, sem me atrasar para o render da parada. Deitou-me um olhar gelado e mandou-me para a formatura.

Terminado o render da parada, mandou-me apresentar no gabinete do oficial de dia. E, ao contrário do que eu receava, atendendo à sua fama, limitou-se a fazer-me um sermão, menos severo do que seria de esperar, fazendo-me entender que o facto de eu ir embarcar para África dentro de semanas, me livrava de um "louvor" a vermelho na caderneta. Funcionou o factor humano. Afinal, o tenente Garcia Leandro, com fama de implacável, também era um homem sensível e sem o coração de pedra que a voz do povo militar lhe atribuia.

E eu nunca mais me esqueci dele.

Carlos Ribeiro da Fonseca
Cart 738

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

«Clique na imagem, para aumentar»
À direita, de baixo para cima: Carlinhos, Jorge, "Trinta", Vicente e Armando;
A Esquerda, de baixo para cima: "Poço do Bispo", "Moscavide"(já falecido), "Cabo do Lixo", ???, Hermínio (?)

Primeira comemoração do regresso
Restaurante Bonjardim, Lisboa, 9 de Março de 1968

AS NOSSAS CONFRATERNIZAÇÕES

No editorial do “Jornal do Bart” de 2007 surgiu uma referência ao que se julgava terem sido os primeiros convívios de elementos do Bart 741. Nela se dizia que, em fins dos anos sessenta, um pequeno grupo de camaradas, quase todos, senão mesmo todos, da Cart 739, começara a reunir-se, pelo menos uma vez por ano, num restaurante dos arredores do Porto. 

A referência não correspondia à realidade, porquanto, por iniciativa de camaradas residentes em Lisboa, havia sido organizado um jantar comemorativo do 1º. Aniversário da chegada do Batalhão, sendo este, inequivocamente, o mais antigo evento registado. Quem alertou para a circunstância foi o Jorge Rafael (Cart739), que remeteu para o organizador uma fotografia desse jantar, a qual me permito reproduzir, aqui no “blog”, mas noutro “post”. 

Sob reserva de estar enganado – e se assim é, solicito que me corrijam – estes convívios não tiveram grande regularidade até à altura em que um outro grupo de camaradas deu início a uma série de confraternizações, na Ponte d’Asseca, nos arredores de Santarém. 

Desde então, em vários locais do País, privilegiando, todavia a zona centro, organizaram-se, anualmente, reuniões de confraternização do nosso Batalhão. 

O ano em curso, 2009, não será excepção. O 23º. almoço-convívio, comemorando o 42º. Aniversário do nosso regresso, realizar-se-á nas Caldas da Rainha, mais propriamente no Salão Milénio, anexo ao Caldas Internacional Hotel, no próximo dia 7 de Março.  Dentro em breve começarão a ser expedidas as cartas-convite com mais pormenores, bem como o habitual “Jornal do Bart”.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

RAL 1 - Quarto Grupo de Combate



AO JEITO DE APRESENTAÇÃO

Num já longínquo dia de Setembro de 1964, apresentei-me no Regimento de Artilharia Ligeira 1, na Encarnação, em Lisboa. Fora mobilizado para servir no Ultramar e aquela era a Unidade onde se constituiria o Batalhão de Artilharia 741, do qual passei a fazer parte.

Alguns conhecidos apresentaram-se também. Afinal, todos tínhamos sido Cadetes na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e era natural que, por lá, nos tivéssemos já cruzado. Ou, então, nalguma das várias Unidades por onde passáramos, dando instrução.

O inusitado da situação era, antes, a circunstância dos oficiais superiores pertencerem, todos eles, à Arma da Artilharia – daí a mobilização pelo RAL 1 – Arma a que éramos totalmente alheios, já que, todos nós, éramos infantes.

Na Messe, algum tempo mais tarde, fomos convidados a escolher os nossos comandantes de Companhia, isto é, os nossos Capitães. A sugestão partiu do 2º. Comandante do Batalhão, o então Major José Francisco Soares (o Comandante, Tenente-Coronel Cabrita Gil, encontrava-se no Ultramar). Não conhecendo ninguém, escolhi, se bem me lembro por nenhuma razão especial, a CART 739, comandada pelo Capitão Fernando Mira. Igual decisão tiveram os meus camaradas António Augusto, Guilherme Barreira e Eduardo Palaio.

Foram-nos, depois, indicados os Sargentos e os futuros Furriéis com quem iríamos trabalhar e, mais tarde, foi-nos confiado um numeroso grupo de jovens, oriundos dos mais variados pontos do País, para que os treinássemos e os preparássemos para a vida que iriam viver nos próximos dois anos. Eram os nossos Soldados.