Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

domingo, 31 de maio de 2009

Dr. ANTÓNIO TERRINHA - Uma Pequena Nota, ainda...

UM PARTEIRO CHAMADO ANTÓNIO

A Companhia era disciplinada e experiente. Gente valente. O médico, o “Toino”, como carinhosamente o tratavam, era um dos pólos do ambiente sadio que reinava entre o pessoal e, entre este e a sanzala, grande parte gente deslocada das zonas afectadas pela acção terrorista. “Machambas” cultivadas, orientadas pelos soldados, e um bairro social de duas dezenas de casas estava pronto a ser entregue aos novos donos.

A popularidade e o respeito pelo “Toino”, a sua competência e jovialidade, travesso e contestatário, “D. Juan” assumido, levar-me-iam a baptizá-lo de “Tonecas”. Não fardava lá muito bem, preferindo as sandálias, calças camufladas, “quico” às três pancadas e uma inseparável garrafa de “cuca” na mão, nas horas de maior calor!

Não saía para o mato: “Capitão, conte comigo, para tudo, dentro do arame farpado. Fora, não; além de tudo, morro de medo! Fique descansado que o “Pastilhas”, furriel Veiga, e os cabos enfermeiros foram por mim preparados para actuarem no caso de feridos”.

Irreverente, espírito aberto, confessou-me que era “do contra”, participara das manifestações estudantis e estivera detido em Oeiras, na Polícia Móvel. Na unidade mobilizadora, mais tarde o tristemente célebre RALIS, conhecera o pessoal da Companhia. Contrariado e embora não concordasse com a guerra, achou que o seu lugar era junto “desta malta”! Não desertou, como o fizeram vários “heróis” de hoje: “Antes de ser do contra, sou médico. Fechei o consultório e abandonei os meus trabalhos de investigação em Benfica. Agrada-me a camaradagem e o espírito de solidariedade. O meu lugar, agora, é aqui. Julgo que tenho feito um trabalho positivo no tratamento e na acção psico-social junto dos nativos. Sou médico em África”.

Era ver, diariamente, a bicha de africanos no Posto de Socorros. Até a Helena, a “Pacaça”, a “amiga” dos militares, se apresentava semanalmente à inspecção: “A Helena é do Estado e não pode pregar doença”, dizia ela.

Acabado o rancho, noite escura e chuvosa, a rádio dava ruídos à mistura com notas de música. Televisão não havia. Conversávamos, enquanto outros jogavam e discutiam. A figura do “Cifra” assumira à porta, como tantas vezes acontecia. Nunca eram boas novas. Uma mensagem, vinda da Companhia do Lucunga, com o médico ausente, o furriel enfermeiro pedia instruções do que fazer a uma mulher em trabalho de parto há três dias, já com sinais de coma e de que, “só agora, a “Mulher-Grande” dera conhecimento”.

Passei o papel ao “Tonecas”. Leu-o, mudou de côr, levantou-se e, compenetrado, disse: “Capitão, preciso de escolta. Há duas vidas em perigo”. O sentido do dever e ajuda ao próximo venciam o medo físico.

Pouco depois roncavam os “Unimogs” e o Silva Pereira, comandante do Grupo de Combate de escolta, pedia-me licença para arrancar. No jeep sanitário o Terrinha (era este o seu nome) e o cabo enfermeiro Vicente com a mochila dos primeiros socorros faziam-se à “picada”. Uma viagem de 100 km., a mata densa, negra, encharcada e perigosa…Pela manhã do dia seguinte, regressavam, enlameados, mais barbudos, mas todos sorridentes. Salvaram-se duas vidas e o bebé iria chamar-se António, em homenagem ao parteiro!

Cel. R. Morna do Nascimento

«A foto foi tirada no Lucunga, após a deslocação aqui relatada. Para ampliar, clique na imagem»

Publicado por VETERANO, com a devida autorização do autor do texto


sábado, 30 de maio de 2009

In Memoriam --- 02 - Dr. António Terrinha

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O Dr. António Terrinha com a equipa de futebol do 4º. Grupo de Combate
1ª fila: o "Braga" e o "Maçarico"
2ª. Fila: o Dr. Terrinha, o "Palhaço", o Leite, o Dias e o "Mano"

Em meados de Março de 1965 aterrei, no Aeródromo de Manobra do Toto no fim de uma acidentada viagem – que incluiu dois regressos às pistas de Luanda e uma alteração de rota – Maquela do Zombo antes do Toto. Doença grave retivera-me na Metrópole. O Batalhão embarcara, entretanto e era agora a altura do reencontro ao fim de mais de dois meses passados no hospital. Um jeep esperava para me levar ao quartel, a antiga pousada da localidade, quartel que encontrei sem oficiais operacionais, pois o Capitão Mira, o Palaio e o Augusto andavam em operações e o Barreira encontrava-se no Hospital Militar de Luanda por ter sido ferido em combate. Quem comandava a pequena guarnição restante era, nem mais nem menos, o Dr. António Terrinha, que compensava a sua inabilidade militar com as elevadas qualidades de Homem e de Médico que possuía
Com o à-vontade que o caracterizava, exigiu, logo ali, que deixasse o “sr. doutor” e o tratasse por “tu”, tal como se tivéssemos sido condiscípulos na instrução primária. Era um caso raro de empatia, gerando imediata amizade. Um pouco mais velho do que nós, já casado e pai de família, com uma experiência de vida que, pelo menos eu, ainda não tinha nem imaginava vir a ter tão cedo. Eram circunstâncias que pesavam no respeito e na enorme consideração que todos tínhamos por ele.
De alguns episódios me recordo. Religiosamente, salvo erro às quartas-feiras, ele próprio colocava no nosso prato o comprimido do anti-palúdico (camoprima?), o que, todavia, não impedia que tivéssemos, por vezes, violentos ataques de paludismo; da preocupação com que viveu um episódio de doença do “Palhaço”; da cura da bebedeira do “Bombeiro”; da insistência no treino dos enfermeiros e na adequação do saco de socorros – material do tempo da II Guerra - às características daquela que, então vivíamos; e da preocupação de ensinar, tudo quanto podia, ao Furriel Enfermeiro Veiga, o “Pastilhas”.
Uns meses mais tarde, encontrava-me eu colocado no Mussende e tive de deslocar-me à Companhia, no Calulo. Já nas proximidades desta localidade, ao atravessar uma pequena povoação, dei com um jeep lá parado. Tinham ali levado o Terrinha para consultas. Fez-me uma recepção calorosíssima e convidou-me para almoçar em casa dele – a sua Esposa juntara-se-lhe, já que o Calulo, onde se encontrava então, era zona perfeitamente pacificada. Não resisto a contar que a senhora ficou um pouco atrapalhada sem saber o que me oferecer para almoço, e, com certo constrangimento, acabou por confessar que só tinha, naquele momento, possibilidade de cozer bacalhau. Eu, que já não via bacalhau há não sei quanto tempo, achei, evidentemente, a proposta agradabilíssima. Disse-me ela depois, nunca ter visto ninguém comer, com tanto agrado, um simples prato de bacalhau cozido com batatas.
Quando a CArt se deslocou para o Leste, o Dr. Terrinha, não nos acompanhou. Reencontrámo-lo, mais tarde, na hora do regresso. Chegados à Metrópole, demorei a voltar a vê-lo. Foi só cerca de 1978, se a memória me não atraiçoa, quando, propositadamente, me desloquei a Lisboa para uma consulta sobre dois dos meus filhos. Dedicava-se, então, à investigação na área da hepatite e chegou mesmo a fazer um programa de televisão, de cujo nome me não recordo. Vi-o, algumas poucas vezes mais, em algumas confraternizações do BArt, e a sua presença era sempre motivo de alegria e de muita satisfação. Faleceu, vítima de doença prolongada, salvo erro em 1993, deixando, em todos nós, uma saudade imensa.
VETERANO

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Batalhão - Álbum de Fotos - C.Art 738

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Cap Art Rubi José Alfredo Mourão Marques
Alf Mil Med Pedro Manuel Monteiro Salazar Leite

Alf Mil Inf José Fernando Figueiredo Pereira
Alf Mil Inf Francisco Cabral da Silva Morgado

Alf Mil Inf Victor Manuel Melancia Casimiro
Alf Mil Inf Sebastião José Terra Fagundes

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Apelo

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Uma Pagnard no Toto 1965

A fotografia que acompanha este pequeno texto foi tirada no Toto, em vésperas de uma operação que envolveu alguns meios que, habitualmente, não eram vistos por aqueles lados. A curiosidade foi geral e não houve ninguém que não quisesse ver, por fora e por dentro, como eram aquelas "máquinas".
Tenho - e ainda bem - um bom álbum de fotografias. Todavia, entendo que este blogue deve ser do BArt 741 e não, apenas, da CArt 739. E a verdade é que, das outras Companhias pouco, ou mesmo nada, possuo. Este "post" é, pois, mais um apelo a todos os Camaradas que me lêem, no sentido de que me remetam textos ou fotos de maneira a diversificar, tanto quanto possível, o que se for publicando.
Fico a aguardar a colaboração, que, antecipadamente, agradeço.

VETERANO