Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Destacamento do Cubal - 4º. Pelotão da C.Art 739

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Entre vários convidados, a Esposa, D. Ester, os filhos e o Chefe Amaro

No início de 1967 o meu Pelotão (4º. Pelotão da CArt 739) foi destacado para o Cubal. Esta localidade era considerada o “Entroncamento” de Angola. Grandes oficinas serviam o Caminho de Ferro de Benguela, o que significava uma numerosa população de ferroviários e um número igual de comerciantes, prestadores de serviços diversos, PSP, bancos, etc.. Havia, tanto quanto me lembro, alguma (sã) rivalidade entre as duas comunidades, rivalidade que se revelava, entre outras coisas, na existência de dois clubes – o Clube dos Ferroviários e o Clube da Vila. Pelo Carnaval, ambos organizaram bailes e festas, às quais, fui assistindo, alternadamente, com a maior satisfação.

De várias pessoas me recordo, mas – perdoem-me os outros, se alguma vez me lerem – gostaria de, aqui, referir duas: o Chefe Amaro, da P.S.P. e o Padre Zé.

O Chefe Amaro tinha uma preocupação constante que era a segurança da “sua” localidade. Logo ao primeiro contacto solicitou-me que estudássemos um plano de defesa que integraria os efectivos militares, a Polícia e, até, a segurança privada das instituições bancárias lá existentes.

Dizia o Chefe Amaro, aliás com muita justeza, que era nossa obrigação, nas circunstâncias, assegurarmos, sobretudo, o descanso das pessoas. De dia, dizia ele, com maior ou menor dificuldade todos se defenderão, mas, à noite, têm que confiar em quem lhes vela o sono. Instituímos um programa de patrulhamento nocturno diário, e procedemos a ensaios de defesa dos locais considerados vitais.

O Padre Zé era a melhor pessoa do mundo. Assim pensavam os cubalenses e eu acabei por concordar com eles. Era uma pessoa amabilíssima, grande conversador, alegre e bem disposto, tanto quanto me recordo. Colocou, espontaneamente, à minha disposição, o seu carro particular para que o usasse nas alturas em que o meu jeep (o único que o Pelotão tinha) saía em patrulha. Volta e meia levava a amabilidade ao ponto de me oferecer um cálice de um excelente vinho de missa, doce como o mel, que recebia em garrafões, vindo da Metrópole.

Gostaria de deixar, aqui registadas, algumas lembranças do pouco tempo que passei no Cubal: o combate a um incêndio que se desenvolveu numa casa do quarteirão ferroviário, onde os meus soldados se comportaram de forma admirável, por todos louvada, a feira periódica, onde, pela primeira vez, vi nativos bosquímanos, com o seu curioso idioma e cujas mulheres vestiam, apenas, uma pequena “saia” feita de capim, a festa de anos do filho do Chefe Amaro – a que pertence a foto que acompanha este texto – e, por fim, um jantar de aniversário de um comerciante local, interrompido pela chegada da tropa do Regimento de Infantaria de Nova Lisboa que nos substituiu.

O Chefe Amaro faleceu, poucos anos mais tarde, num acidente em Luanda, aquando de um circuito automóvel. O Padre Zé faleceu em 2005 em Barroselas, freguesia de que foi pároco depois de ter regressado em 1975.

Vieram-me à memória estas lembranças ao receber uma circular-convite para o 22º. Encontro que os Cubalenses vão realizar, no Parque do Luso, no próximo dia 5 de Julho. Infelizmente, por razões várias, não poderei estar presente.

domingo, 14 de junho de 2009

O Batalhão - Álbum de Fotos - C.Art 740

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Cap Art João Manuel de Faria Martins Amaro

Alf Mil Inf Jorge da Silva Gaspar
Alf Mil Inf Francisco António Rodrigues

Alf Mil Inf Luis Augusto Queirós Magalhães de Carvalho
Alf Mil Inf António Maria Amaro

terça-feira, 2 de junho de 2009

Dr. António Terrinha - Dois Episódios

Episódio nº 1

No decorrer de um jogo de futebol que, como acontecia quase todas as tardes, teve lugar em Lucunga, num dos últimos dias de Julho de 1965, fui rasteirado e caí violentamente sobre o meu braço direito.

Queixando-me de fortes dores, desloquei-me ao posto médico, onde o Dr. Salazar Leite, me examinou o pulso, onde a dor era maior, tendo concluído que não havia fractura, mas apenas uma contusão, que seria debelada rapidamente.

Todavia, a dor persistia e eu não conseguia fazer qualquer esforço com a mão direita. O Dr. Leite insistia que não havia fractura, e parecia que estávamos num impasse. A situação estava a complicar-se, porque – eu sabia como “funcionavam” as coisas nestas circunstâncias – não tardariam as insinuações de que estaria a “baldar-me” a ir para o mato.

Entretanto, no princípio de Agosto – creio que no domingo, 8 – deslocou-se a Lucunga uma delegação da CART 739, para uma jornada de confraternização. Como era hábito, houve futebol, de manhã, seguido de farto almoço (cozido à portuguesa, nas messes).

Ora, da comitiva fazia parte o Dr. António Terrinha, que a pedido do Dr. Leite, viu o meu pulso. E, à segunda apalpadela, declarou que eu tinha uma fractura, e que, na sua opinião, deveria seguir para o Hospital Militar de Luanda para tratamento.

Assim se fez, e a radiografia feita no Hospital confirmou o diagnóstico de fractura, tendo acabado por ficar em Luanda quase cinco semanas em tratamento.

Por vezes, ainda me questiono sobre o que teria acontecido se não fosse a providencial visita do pessoal da 739.


Episódio nº 2

Tenho ainda outra estória em que fui interveniente, e na qual o Dr. Terrinha teve, de novo, um papel relevante.

Em Agosto de 1966, já colocado na Gabela, fui a uma consulta de Oftalmologia, a Luanda.

Da Gabela para Luanda consegui boleia, evitando assim ter de fazer a desconfortável viagem no machimbombo da carreira, que levava o dia inteiro para fazer o percurso.

Porém, apesar de todas as diligências nos poisos habituais, não consegui encontrar quem fosse para os lados da Gabela ou, ao menos, quem me desse boleia até à Quibala. Daí para a Gabela já era mais fácil.

Desanimado perante o cenário de um dia inteiro de incómoda viagem, entrei na Cervejaria Amazonas para ao menos me reconfortar com um lauto jantar. Aí sentado a uma mesa encontrava -se o Dr. António Terrinha, com a esposa e filhos (que, se a memória não me atraiçoa , eram dois). A seu convite tomei lugar à mesa e falei-lhe na minha “desdita”.

Não me recordo, naturalmente, dos termos exactos. Mas, mais palavra, menos palavra, o que ele me respondeu, foi:

  • Ó Fonseca, eu vou amanhã para o Calulo onde, como sabe, está um pelotão da 738. Logo, você vai comigo e, para todos os efeitos, está apresentado na sua unidade. O Casimiro (era o alferes comandante do pelotão) manda um rádio para a Gabela a dar conta da sua apresentação. E depois, como todas as semanas há viaturas a a circular uma ou duas vezes entre a Gabela e o Calulo, você em menos de dois dias está na Gabela.

Aquilo não me pareceu muito regular (ainda por cima o comandante de companhia era o Cap. Carvalho, que não morria de amores por mim), mas eu não queria mesmo ir no machimbombo, e não foi muito difícil deixar-me convencer. E lá fui no dia seguinte para o Calulo, que não conhecia.

E tudo bateu certo. As coisa passaram-se exactamente como o Dr. Terrinha previra. E ainda não foi desta que senti o peso do RDM.

Ao contar estes dois episódios presto também a minha homenagem a um homem bom e generoso. Um ser humano com qualidades que o distinguiam entre os seus pares.

Carlos Fonseca

CArt 738