Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As Promoções ou...o Carisma do Capitão Rubi Marques

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O adeus aos que partem!

Lisboa - Cais da Rocha do Conde de Óbidos
Janeiro de 1965


AS PROMOÇÔES

Ainda antes de amanhecer já vivíamos uma azáfama nervosa no quartel de Porto Brandão. Estávamos a 9 de Janeiro de 1965, um sábado em que o Sol brilhava, e dentro de poucas horas embarcaríamos no navio “Vera Cruz”, rumo a Angola.

Do Porto Brandão até ao cais da Rocha Conde de Óbidos, onde estava ancorado aquele navio, a viagem fez-se a bordo de um ferry-boat especialmente fretado para o efeito.

E se evoco hoje a data do embarque é, sobretudo, para relembrar uma breve cerimónia que teve lugar durante a curta viagem entre as duas margens do Tejo.

De acordo com a legislação então vigente, na data do embarque para as comissões de serviço no Ultramar, os aspirantes a oficiais milicianos, os cabos milicianos e alguns soldados eram promovidos a alferes, furriéis e cabos, respectivamente. A maior parte dos militares abrangidos por estas promoções limitou-se a colocar os galões ou as divisas do novo posto nas respectivas platinas nessa manhã (é certo que alguns já as haviam exibido na véspera à noite, durante a despedida de Lisboa). A excepção verificou-se com os militares da Companhia de Artilharia (CART) 738.

O capitão Rubi Marques, comandante da referida Companhia, determinara que o "cerimonial" das promoções teria lugar a bordo do ferry-boat, obedecendo a um ritual próprio.

(Permito-me abrir aqui um parêntese para tentar dar pistas para as motivações daquela determinação.

Dos quatro comandantes que a CART 738 teve não foi com o capitão Rubi Marques que tive uma relação de proximidade pessoal. Aliás, creio que ninguém na Companhia a teve; cada um sabia o seu lugar na hierarquia e lá se mantinha. Todavia, e sem prejuízo dos méritos dos comandantes que lhe sucederam, com os quais tive, à excepção do último, um excelente relacionamento, foi ele o comandante por quem tive o maior respeito e admiração, não só pela forma como ele soube organizar a Companhia, mas também pelo modo como impôs e fez cumprir regras comportamentais a todos, sem excepção. Por outro lado, ao temperar o cumprimento dessas regras com um acentuado sentido humanista, conseguiu obter uma sã convivência entre os 163 militares da unidade, sem a ocorrência de atritos relevantes.

Uma das peculiaridades do capitão Rubi Marques era a sua propensão para o cumprimento de certas formalidades - que em Lucunga incluíam um dia-a-dia com algumas normas raramente observadas noutras unidades.)

LUCUNGA

Posto este interregno, recomeço a narrativa.

Iniciou-se então a "cerimónia" das promoções com uma formatura geral da Companhia no amplo espaço do ferry-boat habitualmente reservado ao transporte de automóveis.

Perante os (sor)risos trocistas dos restantes militares do Batalhão, o capitão Rubi Marques colocou nas platinas da farda dos, até então, aspirantes a oficial os galões correspondentes ao posto de alferes; por sua vez, os novos alferes colocaram, aos cabos milicianos dos respectivos pelotões, as divisas de furriel; a estes coube a imposição das divisas aos novos primeiros-cabos.

Não nego que, na altura, sentimos algum desconforto. Não pelo "cerimonial" em si, mas sobretudo pelas piadas de que sabíamos ir ser alvo (e fomos) a seguir.

Mais tarde percebi que estes rituais, eram também uma forma de nos unir e de nos fazer sentir diferentes. E a troça e o gozo já há muito que tinham passado para trás das costas.

Quando, em Janeiro de 1966, o capitão Rubi Marques deixou o comando da Companhia, por ter sido promovido ao posto de major, coube-me comandar a secção que o escoltou até ao Aeródromo do Tôto. E aí, em plena pista, também não escapei ao ritual: mandei formar e soltar o grito que constituía a divisa da Companhia, em sua honra.

Acho que no último abraço lhe vi um brilhozinho especial nos olhos.

Carlos Fonseca

CART 738"

Capitães Mira e Rubi Marques
Os comandantes das Cart 739 e Cart 738 deixaram as companhias no mesmo dia.
Aqui, à data do embarque, no aeródromo de manobra do Tôto

domingo, 18 de outubro de 2009

Soldado Artur Dias dos Santos! PRESENTE!

Artur Dias dos Santos, o "Palhaço"

43º. Aniversário da sua morte em combate
no Leste de Angola

"Em verdade, só morremos verdadeiramente quando já ninguém nos recorda"


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Monumento fúnebre no Cemitério de Arcozelo
Homenagem aos naturais daquela localidade que morreram pela Pátria
na Guerra do Ultramar


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Leste...Algo de Novo! - Parte 1

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Coluna de viaturas do 4º. Pelotão, em deslocação para o Leste
(é a única fotografia que possuo desta deslocação)

Estrada Mussende-Nova Lisboa

Um "alto", para descanso e reabastecimento das viaturas
2º. Sargento Santa, em 1º. plano


Leste de Angola - Lucusse

Armazém de cereais, onde se instalaram o Comando da CArt 739 e os ., 2º. e 3º. Pelotões

Tenda do Comando do 4º. Pelotão

O restante pessoal alojou-se em tendas semelhantes

sábado, 10 de outubro de 2009

Uma Partida de Futebol Que Se Não Realizou...

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Gabela - Campo de Aricanga - Equipa da CArt 738

Em baixo, da esquerda para a direita: ?, 1ºCabo Resende, 1ºCabo Brandão Pacheco, ?, FurMil Vaz;
Em cima: FurMil Fonseca, Peixoto, Rebelo, AlfMil Pereira, TenCel Soares, Ten Simões da Silva, 1ºCabo Oliveira, 1ºCabo ?, Custódio

CART 739 – UMA MÁ NOTÍCIA

Os fins de semana de Maio e Junho de 1966, foram ocupados na Gabela com a realização de um torneio de futebol, com jogos disputados entre as Companhias do Batalhão. Os jogos efectuavam-se um por fim de semana - no campo da Aricanga, propriedade da ARA-Associação Recreativa do Amboim.

Aos espectadores era solicitada uma contribuição monetária, revertendo as receitas obtidas para a Casa do Soldado que, por iniciativa do Movimento Nacional Feminino, estava a ser construída no quartel, com recurso à mão de obra do pessoal da CART 738 (excepto em trabalhos que exigiam maior especialização).

Além do objectivo principal, estes encontros serviam também para uma sã confraternização dos militares que, embora pertencendo ao mesmo Batalhão, apenas tinham contactos esporádicos, atendendo às distâncias das localidades onde se encontravam instaladas as respectivas unidades.

Para um dos domingos de Junho, estava programado o encontro entre a equipa da CART 739, aquartelada no Calulo, e a da CCS, que vinha de Novo Redondo.

Lá para o meio da manhã, com a chegada das delegações visitantes, instalou-se a animação no quartel, com grupos em entusiasmadas conversas, que continuaram durante o almoço, até que, a meio da refeição, surgiu a mensagem que, de súbito, transformou o alegre convívio num triste e pesado silêncio. A delegação da CART 739 deveria regressar de imediato ao Calulo porque a Companhia tinha recebido ordem de transferência para o Leste de Angola.

Quarenta e três anos depois, ao escrever este relato, ainda sinto um arrepio na pele, como se estivesse, de novo, a viver a situação. Parecia-nos a todos – independentemente da Companhia a que pertencíamos - que estávamos a viver um pesadelo.

O almoço acabou rapidamente e os militares da CART 739, partiram de regresso à sua unidade, num ambiente de grande consternação, partilhado pelos que ficavam, sem chegarem a disputar a partida de futebol.

A fim de não defraudar os espectadores que se deslocaram ao campo, jogou em sua substituição uma equipa mais ou menos improvisada (e desmotivada) da CART 738.

Este foi um dos episódios da minha comissão de serviço em Angola que me marcou mais negativamente. E, até hoje, não consigo compreender a razão da escolha daquela Companhia, que já tinha mais de um ano de comissão no Norte, onde, de resto, tinha sido a única unidade do Batalhão a sofrer um morto em combate.

Infelizmente tal como no Norte de Angola, também no Leste aquela unidade voltaria a ser flagelada pela morte de um dos seus melhores: o Artur Santos (Palhaço), a quem o criador deste blogue já aqui homenageou num texto comovedor.

Homenagem a que me associo hoje, com um sentimento de saudade e de respeito.

Carlos Fonseca

Cart 738