Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A Caminho do Norte - Diário de Viagem - Parte 1

Primeiro Dia: Luanda - Quibala-Norte

A nossa partida de Luanda para o Norte teve lugar na manhã de 23 de Janeiro de 1965.

Sabíamos que o nosso destino - no caso da Cart 738, era Lucunga - seria, previsivelmente, menos perigoso que Zala, Nambuangongo, ou qualquer local dos Dembos, mas tinhamos a cabeça cheia de relatos feitos em Luanda por camaradas mais antigos, que nos falavam de emboscadas, minas nas estradas/“picadas”, armadilhas, etc., que diziam ser frequentes naquela zona.

Partimos - tendo como meio de transporte uma coluna de camiões de reabastecimento - com um misto de ansiedade e apreensão pelo que nos esperava. A primeira paragem teve lugar na localidade do Caxito, já a norte de Luanda, onde muitos habitantes aproveitaram para nos vender cocos, bananas e outros frutos, e que serviu para descontrair um pouco.

Já perto da hora do almoço, passávamos num local em que a estrada se “afundava” entre duas encostas densamente arborizadas, quando foi dada ordem de paragem, para fazermos um primeiro contacto com a mata angolana. Cada secção recebeu ordem de entrar em determinada zona da mata e avançar em patrulha.

Não estava prevista esta acção e o receio daquele primeiro contacto com o que julgávamos ser algo parecido com a realidade que nos esperava, assustou. O medo era tal que não consegui que a progressão se fizesse de acordo com os manuais, e o mesmo se passou com a maioria das secções. Enquanto comandante de secção devia ir no terceiro lugar da fila, mas a verdade é que não consegui que alguém avançasse à minha frente. Quando eu parava, paravam todos. Pareciam pintos à espera que a mãe galinha indicasse o caminho.

Naturalmente, a ideia da entrada na mata não passava de um exercício que não oferecia qualquer perigo, mas quem é que acreditava nisso? O cenário era um pouco assustador. Mas era só cenário.

Em muitas zonas o caminho era ladeado por árvores que desconhecíamos e que nos informaram chamar-se mangueiras, cujo fruto era a manga. Numa das paragens experimentámos colher e comer esses frutos. No que me toca, achei que a manga, com o seu paladar tão especial, devia ter feito parte do pomar do Paraíso.

Ao fim da tarde chegámos a Quibala-Norte, onde iriamos pernoitar.

Quibala-Norte: o aquartelamento

O quartel, constituído por edificações prefabricadas, de madeira, situava-se num local isolado.

Dormi, tal como aconteceria na primeira semana, em Lucunga, num desconfortável "burro" de campanha. Tratava-se de uma armação com pés em cruz, dobráveis, sendo a "cama" constituída por uma lona que se fixava à armação. Nalgumas zonas do Brasil é chamada "cama de vento". Em Portugal era muito usada nalguns dormitórios da C.P e chamavam-lhe "cama-volante".

(Continua)

Carlos Fonseca

CArt 738

5 comentários:

Anónimo disse...

eu fiz esse tregeto em 12 de maio de 1965 fomos la para sao salvador do congo eu acho que levamos uns 4 ou 5 dias com mauseres na mao as fn foram nos entregues pelos nossos camaradas que fomos rendender e todas velhas muito uzadas para mim era uma falta de respeito pois a guerrilha começou em março de 61 de 61 a 65 vao 4 anos e armas modernas nao chegaram nunca e fui

Sérgio O. Sá disse...

É gente das picadas! Passar em Quibala uma noite não foi nada. Eu estive lá 14 meses. Assim já dá para saber o que aquilo era. E era tão bom que quando algum camarada de outras Unidades apanhava uma "porrada" era para lá que ia. Um autêntico presídio. O que nos valia era Ambriz, 140 Km a sudoeste, e Toto, a cerca de 80 Km a nordeste. Mas quando tinhamos de lá ir era uma chatice. O perigo era real...
Saudações de paz em lembranças de guerra.

VETERANO disse...

Acredito no que diz, Camarada Sérgio Sá. Durante o ano que a minha CArt 739 estacionou no Tôto, fui várias vezes a Quibala, comandando a escolta à coluna de reabastecimentos. A lembrança que tenho é a de um local ermo e inóspito, onde mal alinhados JC's acolhiam a tropa. Não me demorava muito por lá, apenas o tempo necessário ao reabastecimento das viaturas e a uma ou outra breve conversa, enquanto se bebia uma "Cuca".
Grato pelo seu comentário. Volte a este blogue sempre que queira.

Sérgio O. Sá disse...

Olá Camarada Veterano.
Possivelmente ainda nos cruzamos por aquelas andanças. Eu cheguei (C.Caç.1463) a QUIBALA em 7 de Dezembro de 1965. Ao 6º dia, 13 de Dezembro, uma hora e tal debaixo de fogo na zona de CHIA, +- 30 km a sul, de que resultou um morto e sete feridos que tiveram de ser evacuados para Luanda. Um "bom" começo. Depois foi calcorrear centenas de km de trilhos e corta-matos por tudo quanto era mata: Sanga, Luaia, Lemo. Felizmente que na meia dúzia de recontros que ainda viemos a ter, nada de grave aconteu.
Ao TOTO desloquei-me várias vezes. À passagem na zona da "mata dos oitenta", a apreensão redobrava. E a velocidade também. Uma vez, sobre o rio LUFUA, afluente do M'Bridge, entre TOTO e QUIMARIA, onde a picada, logo a seguir à ponte, curvava quase 90º, a viatura em que eu seguia, para vencer essa curva passou com o rodado traseiro do lado direito por fora da ponte. O unimog não foi ao rio porque o curvar para a direita aliviou o peso do mesmo lado e a roda tendeu a levantar, como acontece quando se curva. Mais um dos muitos episódios que as circunstâncias de então proporcionavam. Este não trouxe azar, mas hove-os menos felizes.
Um abraço.
Sérgio O. Sá

VETERANO disse...

Caro Camarada Sérgio Sá:

As suas descrições, embora sucintas, são plenas de emoção e "atiraram-me", em pensamento, imediatamente para àquelas matas e picadas. Recordei um episódio que conto publicar muito proximamente.

Grato pela suas visitas e pela atenção que dá a este modesto blogue.

VETERANO