Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

domingo, 31 de outubro de 2010

REGIMENTO DE INFANTARIA 8 - Braga - (Interregno - o Bart 741 continua em Novembro)

A PRAXE

Interrompo, uma vez mais, a sequência de postais relacionados com o BArt 741 pelas razões que, abaixo, aduzo. Regresso ao R.I. 8, ao início da minha vida como oficial (embora miliciano) do Exército Português.

Terminei o meu Curso de Oficiais Milicianos em meados de Dezembro de 1963. Nos últimos dias deste mês ou num dos primeiros de 1964, não me recordo ao certo, apresentei-me no Regimento de Infantaria 8, de Braga, a segunda das três Unidades que escolhera.Julgo que cheguei a Braga num Domingo, até à meia-noite do qual me deveria apresentar no Regimento.

Almocei num dos restaurantes da Arcada, onde me encontrei com um camarada que já se apresentara e que me pôs ao corrente do que lhe acontecera. Contou-me como fora obrigado a recolocar nos ombros as estrelas de cadete – no lugar do galão de Aspirante, que já levava – pois, segundo lhe dissera o Oficial de Dia, a sua promoção só era efectiva no dia seguinte - como fora “forçado” a efectuar a sua apresentação segundo o ritual das normas militares – em sentido e com as “Vossas Senhorias” da ordem, não podendo fumar sem solicitar licença e obtendo, com dificuldade, autorização para sair para comer alguma coisa, pois na messe – onde a cena se passou – não lhe ofereceram rigorosamente nada! Assim prevenido, retirei o galão – também já o havia posto – e, pelo fim da tarde apresentei-me no Quartel. Passou-se comigo exactamente o mesmo, com a diferença de que, sabendo da “coisa” procedi ao ritual com rigor – suscitando risos disfarçados dos presentes. Foi-me indicado o alojamento e, logo que possível, a ele recolhi.

No dia seguinte, logo pela manhã, todos os cadetes recém-chegados se juntaram à porta do gabinete do Major Magalhães – Director de Instrução – sendo, posteriormente, encaminhados para uma apresentação colectiva ao 1º. e 2º. Comandantes. Fomos informados de um programa de instrução em diversas matérias militares que iríamos frequentar naquela semana, antes de recebermos os recrutas do 1º. Turno de 1964. Autorizados a colocar o galão, iniciámos imediatamente o referido programa de instrução.

Todavia, a situação de frieza e de autoritarismo no relacionamento não abrandou: na messe, permanecíamos afastados dos restantes oficiais, só falávamos com alguém quando directamente interrogados, víamo-nos obrigados a pedir licença para tudo e mais alguma coisa – entrar, sair, fumar, etc.. Éramos tratados por “nosso Aspirante”, nunca pelo nome, e ninguém nos ligava rigorosamente nada.

A tal ponto, a situação era rígida e formal que já “conspirávamos” contra o sistema, maldizendo a hora em que tínhamos escolhido aquele Regimento.

Durou três dias, este estado de coisas. Três dias verdadeiramente horríveis, até que, antes do almoço do quarto dia, foi-nos ordenada a atenção para as palavras de um oficial superior – não me recordo já quem foi, se o nosso Comandante, Coronel Mota Freitas se o Major Magalhães - informando-nos de ter-se tratado da praxe em uso naquele quartel, de que éramos bem-vindos e de que, daí para diante, nos sentíssemos integrados no grupo, sub conditione de ficar, por nossa conta, o almoço daquele dia, obviamente, de “rancho melhorado”.

Permaneci em Braga até, sensivelmente, meio do ano, lá dando duas recrutas, até ser colocado no Regimento de Infantaria 2, em Abrantes, onde dei uma especialidade de Atiradores de Infantaria – por sinal a um grupo de soldados oriundos da recruta do RI 8. Aqueles pouco mais de 6 meses foram dos mais agradáveis da minha vida, sendo com profunda saudade que recordo esse tempo!

VETERANO

PS – Vieram-me à memória estas recordações após uma conversa com uma das minhas netas, recém-entrada numa das nossas Universidades, e submetida a todo um conjunto de actos de praxe, profundamente idiotas, pouco digno de quem os impõe e revelador de baixíssimo grau de educação e, sobretudo, de inteligência e de imaginação, qualidades bem necessárias a futuros doutores, mas que, para nossa e deles infelicidade, parecem possuir em reduzido grau.

Compare, quem quiser, as idiotices actualmente impostas aos jovens caloiros com a forma hábil e fina – quase diria, aristocrática - como fomos praxados em 1964.

VETERANO

Regimento de Infantaria 8 - Braga
Primeira recruta de 1964. Pelotão de Instrução. Ao lado do autor do bogue, os Cabos-Milicianos Sotto Mayor e Boanova

Regimento de Infantaria 8 - Braga
Primeira recruta de 1964. O autor do blogue verifica as armas, após a respectiva limpeza

Regimento de Infantaria 8 - Braga
Segunda recruta de 1964. Pelotão de Instrução. Não me recordo do nome do 2º. Sargento (à minha esquerda, na primeira destas duas fotos) nem do do 1º. Cabo que está ao seu lado. O outro 1º. Cabo era o Domingos. Nunca mais vi estes três militares que colaboraram comigo nesta recruta, salvo aquele Sargento que encontrei, bastantes anos mais tarde e por mero acaso, numa rua do Porto. Prestava, então, serviço no antigo QG da Região Militar, actualmente o Comando do Pessoal do Exército.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Soldado Artur Dias dos Santos! PRESENTE!


Artur Dias dos Santos, o "Palhaço"
44º. Aniversário da sua morte em combate no Leste de Angola
"Em verdade, só morremos verdadeiramente quando já ninguém nos recorda"

No Quartel do Lucusse a CArt 739 deixou esta "memória": um obelisco, relativo à Companhia, rodeado de outros quatro, mais pequenos e ligados entre si por uma corrente, cada um referente a um Pelotão.

Na base do obelisco central cravou-se uma pequena lápide metálica em memória do "Palhaço".

Na foto, os seus camaradas mais próximos: "SoldAtInf "Mano" e SoldApMet Dias, o "Palhaço Grande", que, com ele, completavam a esquadra de metralhadora pesada. À esquerda, o Furriel Mil Inf Carlos Alberto Ventura, Comandante da Secção.

"In Memoriam"
Uma velha canção militar alemã "Ich hatt' einen Kameraden" (Eu tinha um camarada)

domingo, 10 de outubro de 2010

A Leste Algo de Novo...Parte 3

No meio da "chana", já pela manhã, começa a levantar-se o acampamento onde se passara a noite. Note-se a colocação das viaturas, em circulo e voltadas para fora, de modo a acenderem-se os faróis, em caso de ataque noturno

As características da guerra no Leste de Angola eram, pelo menos no meu tempo, substancialmente diferentes daquelas que se verificavam no Norte onde, durante cerca de um ano, a CArt 739 havia actuado e adquirido experiência.

Para começar e no que à população respeitava, enquanto que, no Norte, a população indígena se refugiara nas matas – acabando, com o tempo, por se apresentar e concentrar-se nas cercanias dos aquartelamentos – e a de origem europeia abandonara as suas fazendas, no Leste não se verificava esse fenómeno.

O inimigo, por norma, não actuava contra os civis, embora esse receio subsistisse. Recordo-me de alguns patrulhamentos na área do Luso onde contactámos diversas povoações que encontrámos organizadas em auto-defesa, mas não tivemos notícia de incidentes. Apenas um caso, de alguma repercussão mediática, que foi o ataque a Teixeira de Sousa, pelo Natal de 1966, estava a CArt 739 já a iniciar a sua deslocação para Benguela, onde aguardaria o regresso à Metrópole.

Aqui, o autor do blogue dobra o seu colchão pneumático, preparando-se para partir. Reconhece-se, sentado no Unimog junto à "Breda" o SoldApMet Dias, o "Palhaço Grande"

A nossa deslocação para o Leste e aí colocados como tropa à disposição do comando da Zona (tropa de intervenção) deveu-se, segundo se constou na altura (escrevo de memória e não fiz pesquisa) à deslocação de uma unidade da guerrilha do MPLA na tentativa de evitar a hegemonia da UNITA, a única força em operações até à altura.

A população nativa convivia com as deslocações da tropa, não manifestava hostilidade, o que não era significativo sobretudo relativamente a eventual apoio que pudesse prestar ao inimigo. A actuação da tropa tinha, muitas vezes por base, informações fornecidas pela PIDE que exercia grande actividade na Zona.

Um Jeep no meio da "chana". Note-se a planura do terreno e a sua enorme extensão

Outra característica diferente era o terreno. Alternando com áreas de floresta de pequeno porte, viam-se grandes extensões de savana (chanas), muitas vezes impraticáveis devido ao encharcamento, onde manadas de elefantes se banhavam tranquilamente.

Dadas as enormes extensões das áreas de intervenção, enquanto que, no Norte, predominavam as operações apeadas, aqui eram frequentes as deslocações motorizadas que demoravam por vezes alguns dias até se atingir a zona de actuação propriamente dita, a partir da qual se irradiava em pequenas operações de “policiamento” nem sempre pacíficas.

Num aspecto estávamos melhores do que no Norte, já que recebêramos equipamento motorizado novo – Mercedes que substituíram as velhinhas GMC, Unimogs a gasolina e Jeeps novos em folha - para além de metralhadoras MG42. Desistiu-se da estrutura do Grupo de Combate adoptada no Norte e optimizara-se, tanto quanto possível a estrutura tradicional dos pelotões.

Uma Mercedes atascada.
Irá ser rebocada, por meio do guincho dos Unimogs, para local menos húmido
VETERANO