Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Viagem a Carmona - Parte 2

Junto ao rádio de uma viatura de escolta. Em pé: SoldMecArmLig "Braga", SoldAt Freitas e FurMilInf João Mouga. Semi-deitado SoldAt Horta.
Repare-se nos óculos de condução (FurMil Mouga) e no lenço de pescoço

Verificada a inexistência de estragos voltámos à estrada e, a breve trecho, atingíamos o Vale do Loje, sede do BArt741 (e do Subsector B1). A paragem era obrigatória, a fim de me apresentar ao Comando e comunicar a razão da nossa deslocação.

Ora, como referi no postal anterior, isto passou-se na chamada Época do Cacimbo (ou Estação Seca) que se caracteriza pela quase completa ausência de chuvas, calor relativamente suportável – por vezes, à noite, fazia mesmo frio, obrigando a vestir a camisola de gola alta, de lã, que fazia parte do fardamento – grandes extensões de terra, negra da cinza resultante das queimadas do capim, e, sobretudo, muito pó!

De facto, uma coluna de viaturas, mesmo mantendo, entre elas, alguma distância, não evitava que, rapidamente, toda ela, homens e material, ficasse coberta de uma poeira avermelhada característica. Em melhores condições estava, evidentemente, quem viajava na primeira das viaturas, mas, nas restantes, era uma desgraça completa.

O pessoal defendia-se o melhor possível, usando óculos de condução, tapando parcialmente a cara com o lenço de pescoço – os Grupos de Combate haviam adoptado o uso de um lenço de pescoço, cuja cor identificava o Grupo. A do meu 4º GC era azul – indispensável sobretudo nestas deslocações.

Chegados ao Vale do Loge, tendo mandado apear e formar frente às viaturas, preparava-me para me dirigir ao edifício do comando para me apresentar, quando surgiu o nosso Comandante, TenCel Cabrita Gil. Apresentado o GC, interrogou-me sobre o destino da coluna. Expliquei-lhe que me dirigia a Carmona para recolher os carpinteiros que lá se encontravam deslocados e trazer o material para a nova sanzala. Respondeu-me que tal estava fora de questão, por duas razões: em primeiro lugar era demasiada gente para tal missão e, em segundo lugar, não permitiria que soldados seus aparecessem em Carmona no estado de sujidade em que se encontravam. “Olhe para isto! Veja bem! Aquele, ali, de bigode (era o Horta, excelente soldado, oriundo do Fundão, que usava uns fartíssimos e retorcidos bigodes, naquele momento completamente cobertos de poeira), parece que saiu mesmo de um aqueduto! Pelo menos metade, regressa ao Tôto”.

Com muita pena minha, tive que obedecer, apenas conseguindo, sub-repticiamente, fazer regressar uns quantos menos do que o Comandante pretendia. Pesaroso, o grupo designado lá voltou para o Tôto onde, tanto quanto me recordo, aguardou o regresso dos seus camaradas entregue ao trabalho de recolha da água e da lenha. Os outros, obviamente mais contentes, lá seguiram para Carmona.

VETERANO

domingo, 21 de novembro de 2010

Viagem a Carmona - Parte 1

A capelinha do Tôto
(Ao fundo, do lado esquerdo da foto, podem ver-se algumas casas da nova sanzala)

Um dia recebi ordem de me deslocar a Carmona (Uige).

Terá sido em meados de 1965 – talvez Junho ou Julho, ou até um pouco mais tarde – e, portanto, em plena Estação Seca. Queimados, há muito, os capins a terra começava a cobrir-se de novos rebentos aguardando a época de chuvas que se avizinhava.

Não me recordo quem comandava, por essa altura, a minha CArt 739, se ainda o Cap. Fernando Mira, se já o Cap. Morna do Nascimento. Fosse quem fosse, ordenou-me que me deslocasse com o meu Grupo de Combate àquela cidade, tendo em vista fazer regressar ao Tôto uns quantos soldados, carpinteiros na vida civil, que para lá tinham ido construir portas e janelas para as casas da nova sanzala. Com eles viria todo o material já pronto.

Constituiu-se a coluna com uma ou duas viaturas a mais – destinadas, precisamente, ao transporte dos “soldados-carpinteiros” e respectivo material. Aproveitando a circunstância para proporcionar ao meu pessoal um dia ou dois de férias – merecidíssimas, aliás, em virtude da intensa actividade exercida nos últimos meses - juntei todos quantos podiam deslocar-se e, no dia aprazado, lá arrancámos para Carmona.

Os trolhas

O meu condutor era, habitualmente, o Alonso Varudo, “o Compadre”, que sofria de aborrecidíssimas dores de estômago, pelo que a condução era, para ele, um verdadeiro tormento. Nunca se lamentava, porém, suportando com verdadeiro estoicismo a circunstância(1). Sempre que possível, e embora isso fosse expressamente proibido, eu próprio o substituía na condução do jeep(2), o que, daquela vez, acabou também por acontecer.

Para além do mais, a estrada era relativamente segura e assaz movimentada – pelo menos até ao Vale do Loge – por virtude de diversas deslocações de e para o Tôto onde se encontravam o Destacamento de Intendência, o Pelotão de Apoio Directo e o aeródromo com movimento de aviões pelo menos duas vezes por semana. Talvez por isso e que me lembre, nunca aquele troço de estrada foi atacado no ano inteiro que por lá permanecemos.

Já próximo do Vale do Loge a estrada fazia uma curva muito acentuada e, por isso mesmo, bastante perigosa. O “Compadre” bem me preveniu, mas, convencido da “excelência” da minha condução – aliás muito incipiente, pois nem carta possuía ainda – a verdade é que entrei na curva com algum excesso de velocidade – não muito, porque a estrada não dava para isso, mas, de qualquer maneira, com algum – e, por mais que tentasse, não consegui dominar o jeep, indo parar ao grande espaço que ladeava a estrada, cujo terreno, felizmente plano e sem árvores, impediu consequências mais desagradáveis do que uns quantos solavancos e um enorme susto(3).

Casas em diversas fases de construção
VETERANO

(1) O "Compadre" mantêm-se um excelente amigo e não podendo, por razões de saúde, comparecer às nossas confraternizações, nunca se esquece de me contactar telefonicamente por essa altura, para uma longa conversa, onde a saudade dos amigos transparece em todas as suas palavras.
(2) Deste modo fui praticando o suficiente para ainda, mas já próximo do fim da comissão, obter a carta de condução militar.
(3) Mais tarde, já no Mussende, protagonizei um novo acidente, desta vez com algumas consequências materiais, mas, felizmente, sem quaisquer mazelas pessoais.
Veterano