Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma Viagem ao Calulo

Penso tratar-se da única fotografia tirada no Calulo, mas não tenho a certeza se, de facto, se trata do Calulo. Nela pode ver-se o "Mano" e o "Compadre" sentados à mesa e, atrás, um camarada, que não era do 4º. Pelotão, trajando à civil (e por isso penso que se trata efectivamente, da viagem aqui descrita). Será que alguém me poderá confirmar?

Quando o BART 741, findo o seu primeiro ano de comissão, trocou a Zona de Intervenção Norte pelo Centro de Angola (ver, AQUI uma excelente, embora breve, descrição dessa viagem), a minha Companhia, a CArt 739 aquartelou no Calulo e, quase sem parar, o Pelotão que eu comandava seguiu para o Mussende aonde chegou quase ao fim do dia. Fomos, como geralmente sucedia, recebidos com o entusiasmo próprio de quem vê, finalmente, quase cumprida a sua comissão e imagina já as alegrias do regresso próximo. Para nós, que chegávamos, era mais uma etapa mas, desta vez, sem grandes riscos.

O que para aqui agora interessa é referir que não cheguei a conhecer o Calulo.

O tempo foi passando com a lentidão aparente característica das pequenas localidades. Participava de um ou outro patrulhamento, correspondia ao convite de alguns dos fazendeiros dos arredores e ia caçando alguma coisa. Entretanto, o Comandante da Companhia, CapInf Ramiro M.Nascimento foi substituido pelo CapArt Tito Bouças (já General, comandou a Região Militar do Norte, em cujo QG cheguei a visitá-lo) que quis um dia, surpreender o Pelotão com uma visita não anunciada. Tanto quanto sei, pois encontrava-me ausente, terá manifestado o seu desencanto relativamente à localidade e, sem grande demora, regressou ao Calulo.

Por esse motivo, só conheci o novo Comandante algum tempo mais tarde. O Cap Tito Bouças era apenas um pouco mais velho do que nós e, tanto quanto me recordo, ainda solteiro, factos que, sem qualquer dúvida, terão contribuído para despertar a curiosidade feminina local, principalmente, de tudo quanto era menina casadoira. Verdade ou mentira, o certo é que, um belo dia, recebi uma mensagem no meu posto de rádio do Mussende, convidando-me para a festa de aniversário do Cap Tito, festa essa organizada pela sociedade civil do Calulo, mais propriamente, a ala feminina e casadoira já referida.

Vivia connosco um pequenito mulato, a quem alcunháramos de "Atraso de Vida". Padecia de ambliopia, mas era bastante querido por todo o grupo, grupo que se não privava de lhe ensinar toda a sorte de palavrões e de ditos menos próprios. Um dos vários que o rapaz tinha aprendido era a resposta à inevitavel pergunta "quem é o teu pai?". Imagine-se a hilaridade daquela tropa, quando ele, com a maior das inocências respondia: «é o c******». Enfim, brincadeiras. Nihil novum sub sole.

O "Atraso de Vida" foi encaixado no jeep e lá partimos para o Calulo, no dia aprazado. Pelo caminho, encontrei o Dr. Terrinha, tendo sido protagonista de mais um episódio com certa graça que deixarei para mais tarde. Já no Calulo, fui informado de que o Cap Tito deveria encontrar-se no local escolhido para a festa, ainda em fase de preparação. Para lá partimos e entrámos num pequeno salão, onde se dispunham sobre uma comprida mesa, as mais variadas iguarias, destacando-se, aos fracos olhos do miudo, o incontavel número de rebuçados e de pequenos doces espalhados sobre a toalha. O"Atraso de Vida" não viu mais nada, correu para a mesa e desatou a atestar os bolsos com tudo quanto podia apanhar, obviamente depois de ter enchido a boca com aquelas maravilhas que, jamais, havia visto.

As jóvens presentes acharam imensa graça, rodearam o "Atraso de Vida" e, enquanto o ajudavam a meter a doçaria para os bolsos fizeram-lhe as perguntas sacramentais: "Então, meu menino, como te chamas?" "Atraso de Vida", mal pôde responder o garoto, entretido a comer. "E, olha, quem é o teu pai?".
A resposta, inocente e dita com toda a naturalidade, foi a que se esperava, o que não diminuiu o interesse pelo pequenito que continuou muito acarinhado.

O "Atraso de Vida"
(O "Atraso de Vida" ficou na Casa do Gaiato de Benguela. Gostava bastante de saber o que terá sido feito dele)

Infelizmente para ele - e para nós também - naquele preciso momento fui chamado à presença do Cap Tito Bouças - que, só nessa altura conheci - o qual me ordenou o imediato regresso ao Mussende, a fim de, sem mais demoras, partir para Nova Lisboa, a caminho do Leste angolano. Por aquela mesma altura, acontecia o episódio AQUI narrado.

VETERANO

In Memoriam --- 12 - José Fernando da Silva Pereira Vaz

Não me recordo do Vaz, dos tempos da comissão. Como, aliás, de muitos outros camaradas, relativamente a quem, apenas após o regresso, as sucessivas confraternizações permitiram um relacionamento mais próximo. A triste notícia do seu falecimento é-nos dada aqui, no SPM 8146, por quem o conheceu bem. 

Regresso e Agradecimento

Não passei muito bem, nos últimos tempos. Terminada que foi a organização da última confraternização do BART 741, causas várias, umas de saúde, outras de carácter pessoal e familiar conjugaram-se de tal modo que me afastaram da escrita que vinha mantendo neste blogue. Cansaço e desânimo, sobretudo. Nada relacionado com este "hobby", mas foi nele onde tudo se reflectiu.

Julgo que a crise está ultrapassada e quero agradecer publicamente ao Carlos Fonseca o enorme contributo para tal. O Carlos Fonseca honra-me, sobremaneira, seguindo este blogue e estranhou a ausência. Levou a amabilidade ao ponto de me contactar telefonicamente para se informar da minha saúde. Seguiu-se uma conversa que, embora longa, nos pareceu curta, e que teve o mérito de reavivar o entusiasmo moribundo. Necessitei ainda de alguns dias para terminar uns assuntos com prazo marcado. Eis-me, de regresso!
VETERANO