Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Norte - Nomadização na AIL - Encontro Acidental

Local do encontro acidental
Ficou no ar, aquando do último postal, a descrição de uma operação de nomadização que o 4º. GC da CArt 739 realizou na AIL. Recordo-a com mais nitidez do que outras situações semelhantes, onde, por vezes, as lembranças se misturam.  
A AIL tornara-se, com o tempo, em uma zona de passagem assaz frequentada. Havia, pelo menos quatro anos, que por aqueles lados ninguém era incomodado pela nossa tropa e, creio bem, as acções da FAP não seriam assim tão frequentes que perturbassem o trânsito de pessoas. No terreno medrava o capim que, na época própria era objecto das características queimadas, deixando aqueles pequenos montes negros de cinza, e onde os trilhos se destacavam com enorme nitidez. De quando em quando, entre dois montes, uma zona de floresta cerrada e verdejante indicava a presença de água (1)
Chegada ao ponto de irradiação. Resolve-se um pequeno problema com o bipé de uma FN de cano reforçado
Na imagem, da esq. para a dir.: 2º. SargArt Santa, SoldAtInf Teixeira "O Arouca", FurMilInf Ramos, SoldAtInf Freitas, o autor do blogue, SoldAtInf Pinheiro, 1º.Cabo.ApMort David, SoldAtInf Felisberto(do 3º.GC) e SoldCondAut Fernandes "O Sarilhos"(2).
Não me recordo há quanto tempo vínhamos caminhando quando me decidi tirar a fotografia que abre o presente postal. Como se pode ver, subíamos uma encosta, não muito acentuada e, no preciso momento em que os soldados da frente atingiam o cume dão de caras com um indígena armado - um "turra", como era habitual alcunhá-los - que vinha, pelo trilho, em sentido contrário, acompanhado de um pequeno rapaz. A reacção à surpresa, em ambas as partes foi mais ou menos como segue: o "turra" fugiu imediatamente, encosta abaixo, na direcção da floresta, o rapaz ficou estático, absolutamente aterrorizado, os dois ou três soldados da frente desataram a correr atrás do "turra" - sem êxito, diga-se, desde já - e a tropa seguinte preocupou-se imediatamente com a possibilidade de vir mais gente e avançou a passo apressado, posicionando-se um pouco adiante. Ninguém disparou! Tentei tirar alguma informação do rapazito, mas ele estava incapaz de responder fosse ao que fosse. Todo ele tremia e se urinava! De tal modo estava assustado que me causou sincera pena. Chamei, entretanto, os soldados que perseguiram o "turra" e arrancámos a passo apressado na direcção de onde ele proviera. O miudo, preso, salvo erro, por um cinto, seguiu a reboque de um soldado. 
Transmite-se ao grupo a Ordem de Operações
Da esq. para a dir.: SoldAtInf "Mano", 1º.CaboInf ?, 1º.CabApMort David, SolInf Mendes "O Queijo", o autor do blogue, 2º.SargArt Santa, SoldAtInf Teixeira "O Arouca", SoldAtInf Freitas, SoldAtInf MMSantos, SoldEnf Manuel, 1º.CaboMecArmLig "Braga", SoldApMetPes Dias e 1º.CabInf Sequeira

Orientação
Não muito tempo depois e após uma deslocação silenciosa, começámos a ouvir vozes, tudo levando a crer estarmos a aproximarmo-nos de um acampamento/aldeamento qualquer. Subitamente, o espaço abriu-se à nossa frente e deparámos com um conjunto de cubatas e, muita gente entregue aos seus afazeres. Quem ia à frente - já não me recordo quem -  parou e pediu instruções. Dei ordem para avançar e entrámos, correndo, por lá dentro, em altos brados, abrindo-se o grupo em leque de maneira a ocupar o maior espaço possível, como, aliás, treináramos algumas vezes. A surpresa foi completa - temêramos que o fugitivo do encontro tivesse tentado alertar o aldeamento, mas não o fez. Quem estava mais afastado do local da nossa entrada reagiu fugindo e escondendo-se no meio do capim. Os mais próximos, nem se mexeram. Juntámos os que pudemos, prendêmo-los com algumas cordas que encontrámos, fizemos uma rápida revista às cubatas e regressámos rapidamente por onde viéramos, com um grupo razoável, embora não muito numeroso e algumas armas. Decidi abortar a nomadização e regressar ao quartel, visto estarmos referenciados. Não foi disparado um único tiro!
Um "alto" para a refeição. Da esq para dir: SoldAtInf Teixeira "O Arouca", o autor do blogue, 1ºCabMecArmLig "Braga", 1º.CabInf ?, SoldAtInf Freitas e SoldAtInf MMSantos
Um pequeno episódio sucedeu comigo. Enquanto parte da tropa perseguia os fugitivos e arranjava forma de prender quem apanhava, e outros revistavam as cubatas, iniciei o interrogatório de quem me parecia ser a personagem mais importante. Pouco ou nada adiantou o interrogatório. Todavia, desviando dele a atenção para decidir sobre qualquer coisa, o individuo em causa tentou apanhar uma espingarda que tinha perto de si, encostada a uma árvore e na qual não havíamos reparado, no meio de toda aquela confusão. Felizmente para mim, não conseguiu os seus intentos, pois o soldado encarregado da minha protecção apercebeu-se da tentativa e agrediu-o, aliás de maneira pouco violenta. Uma pequena coronhada ou um safanão, não me recordo já, foi quanto bastou para findar a veleidade. Em toda a operação, para além deste, não se registou mais qualquer outro caso de violência.
O "pequeno turra" fotografado no Vale do Loge
Tanto quanto me recordo, chegado ao quartel e feito o meu relatório, saiu para a zona um outro GC da CArt. Não tenho qualquer lembrança dos resultados dessa outra operação. Os presos foram encerrados numa espécie de prisão que existia junto à porta de armas, algumas mulheres que tinham vindo foram deixadas na Sanzala Velha e assumimos o sustento do miudo. Aliás, nunca se adaptou e, algum tempo depois, deixámo-lo também ir viver para a sanzala. Vinha todos os dias ao quartel, tal como muitos outros miudos, buscar as sobras do rancho, não manifestando, porém, qualquer empatia para com o pessoal do meu GC.
VETERANO       
Um "alto", em plena floresta, junto ao rio, para abastecimento de água
(1) A água era mais uma das muitas preocupações de quem comandava. Um dia ou dois de fome era coisa fácil de aguentar - havia sempre o recurso à fruta ou à mandioca - mas, a sede, essa era impossível. Um dia inteiro a andar, sob o sol ardente, obrigava a enorme consumo de água. E, uma vez mais, só a experiência me ensinou como proceder: seguindo pelos trilhos na direcção definida, de vez em quando abordava um dos vales onde a floresta vicejava, quase com a certeza de, lá bem no fundo, encontrar água. Não me recordo desta percepção ter, alguma vez, falhado embora, numa determinada ocasião, tivessemos passado uma horrorosa noite de sede, cuja história contarei qualquer dia (as recordações são como as cerejas...).     
V.
(2) Acrescentado o nome do SoldAntInf Felisberto Caetano Paulo(3º.GC), por indicação do camarada Luís Gonzaga, em 30.11.11.
Enchendo o cantil
PS - Desta vez julgo ter exagerado um pouco com várias fotografias onde eu me encontro. Por vezes sucedia emprestar a câmara fotográfica ao meu FurInf João Mouga a fim de eu próprio poder ficar retratado. Aliás, era melhor fotógrafo do que eu.
V.  

domingo, 11 de setembro de 2011

Norte - Nomadização Na Área De Intervenção Livre

Paisagem do Norte de Angola

Como qualquer outra actividade, a técnica das acções de contra-guerrilha aprende-se, sobretudo, com a prática. Por muita teoria – e mesmo alguma prática -  que pudéssemos trazer das unidades militares metropolitanas, a realidade, obviamente muito diferente, é que acaba, finalmente, por nos ir ensinando.

De início, há uma horrível sensação de medo que a tudo se sobrepõe. A pouco e pouco, porém, vamo-nos descontraindo, o que, se por um lado é bom e necessário, por outro, pode contribuir para um exagero de auto-confiança, origem de algumas atitudes descuidadas que, em não poucos casos, tiveram desfecho desagradável.

Com o tempo, vamos aprendendo pequenos truques, vamos moldando atitudes, apurando os sentidos e criando hábitos. Há uma constante melhoria da interacção com a Natureza – em termos militares: com o terreno – que vai permitindo cumprir a missão, com o menor risco possível.

Um dos grandes problemas iniciais com que me deparei foi o da progressão no terreno. Na qualidade de “maçarico”, levando como lição aprendida a orientação por bússola, tirava um azimute e ali íamos nós a direito, por montes e vales. Se o IN tivesse que fazer tanto esforço, como nós fazíamos para nomadizar, com certeza desistiria da guerrilha ao fim de um mês. Todavia, adaptado como estava ao seu terreno – nascera nele – tinha desenvolvido, ao longo de muitas gerações, algumas técnicas muito simples.

Lembrei-me, a determinada altura, de uma banda desenhada que tinha lido há já bastante tempo. Era sobre a vida de Baden-Powell o fundador do movimento escutista. Já não me recordo a que propósito explicara ele que “em África, o caminho mais curto entre dois pontos, contrariamente ao que se pensa não é uma linha recta, mas sim uma linha curva”. Tão estranha foi a declaração que a fixei, mas, agora que lá, por África, me encontrava, acabei por dar razão a Baden-Powell.

Na Zona de acção da minha Companhia e, julgo eu, que em todo o Norte de Angola  e quiçá ainda, na África de clima tropical, o terreno caracteriza-se por uma sucessão de pequenas colinas que se assemelham entre si, na altitude. Com frequência, todavia, surgem vales, por vezes profundos, onde há quase sempre um curso de água. Por vezes também, elevam-se montes rochosos, com vertentes quase a pique, de difícil acesso e que se destacam nitidamente da monotonia das colinas. Logo a seguir, porém, regressa a sucessão destas, até ao próximo monte ou ao próximo vale.

A experiência acumulado por gerações de indígenas ensinou-os a atingirem determinado destino, não em linha recta como, à primeira vista parece mais fácil, mas contornando as sucessivas colinas por linha de cota (curva de nível), geralmente a meia altura, encontrando-se sempre uma ligação entre as colinas sem ter que descer ou subir demasiado, que é, afinal, o que custa fisicamente, sobretudo quando se vai carregado. Não importa as voltas que se dão. 
Por vezes parece que andamos para trás, mas rapidamente se encontra uma ligação e logo outra a seguir, que nos levam na direcção pretendida. Julgo que foi a observação deste facto que esteve na origem da afirmação de Baden-Powell.

Progressão de um Grupo de Combate por trilho a meia encosta


Em tempo de guerra, porém, as coisas não são assim tão simples. O recurso ao trilho indígena arrastava consigo o perigo da mina anti-pessoal. Tirara a Curso de Minas e Armadilhas e ficara relativamente bem familiarizado com a eficácia daquela terrível e traiçoeira arma. A opção inicial do "corta-mato" tinha muito a ver com o receio de que, utilizando os trilhos, acabasse, alguém do meu grupo, por detonar alguma.

Como já referi noutro local, a CArt recebera uma AIL que deixara de o ser, alargando, para esses lados, a sua nomadização. O meu raciocínio, bom ou mau, foi o de entender que, se durante alguns anos - de 61 a 65 - nenhuma tropa apeada tinha passado por aqueles sítios, não seria natural a minagem dos itinerários, os quais, aliás, eram frequentemente utilizados pelo IN. Ciente disto, passei a usar os trilhos, normalmente bem vincados, frescos e bem batidos. Estava certo, pois em toda a comissão não tive uma única mina anti-pessoal (e também anti-carro), pensando eu  que se conjugaram diversas circunstâncias favoráveis – como as acima referidas – com alguma (muita) sorte. Ainda hoje, quando penso nisto, sinto um arrepio de apreensão.

A técnica era simples: as viaturas deixavam-nos no ponto previamente definido, analisava a fotografia aérea e definia a direcção pretendida. Iniciava-se a corta-mato, até encontrar um trilho. Com o capim alto, era mais difícil, mas, após as queimadas, os trilhos, de cor mais clara, distinguiam-se perfeitamente da cinza escura e, nessa circunstâncias, tudo era mais fácil. Encontrado o trilho, seguia-se, por ele, para os locais pretendidos.
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Era para referir, com este postal, uma das mais interessantes operações que realizei no Norte e que terá acontecido aí pelo fim da época das chuvas. Percorrido o álbum de fotografias, retirei a que encima este postal. Durante muitos anos estive convencido de que aquela foto havia sido obtida na operação que pretendia narrar. Observando-a com mais atenção, concluí, com pena, que assim não era. Por fim, o introito alongou-se demasiadamente, inviabilizando, pelo menos por agora, a narração. Mas a foto aqui fica porquanto, de algum modo, exemplifica - juntamento com a outra  -  o que atrás escrevi.

VETERANO