Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

domingo, 11 de setembro de 2011

Norte - Nomadização Na Área De Intervenção Livre

Paisagem do Norte de Angola

Como qualquer outra actividade, a técnica das acções de contra-guerrilha aprende-se, sobretudo, com a prática. Por muita teoria – e mesmo alguma prática -  que pudéssemos trazer das unidades militares metropolitanas, a realidade, obviamente muito diferente, é que acaba, finalmente, por nos ir ensinando.

De início, há uma horrível sensação de medo que a tudo se sobrepõe. A pouco e pouco, porém, vamo-nos descontraindo, o que, se por um lado é bom e necessário, por outro, pode contribuir para um exagero de auto-confiança, origem de algumas atitudes descuidadas que, em não poucos casos, tiveram desfecho desagradável.

Com o tempo, vamos aprendendo pequenos truques, vamos moldando atitudes, apurando os sentidos e criando hábitos. Há uma constante melhoria da interacção com a Natureza – em termos militares: com o terreno – que vai permitindo cumprir a missão, com o menor risco possível.

Um dos grandes problemas iniciais com que me deparei foi o da progressão no terreno. Na qualidade de “maçarico”, levando como lição aprendida a orientação por bússola, tirava um azimute e ali íamos nós a direito, por montes e vales. Se o IN tivesse que fazer tanto esforço, como nós fazíamos para nomadizar, com certeza desistiria da guerrilha ao fim de um mês. Todavia, adaptado como estava ao seu terreno – nascera nele – tinha desenvolvido, ao longo de muitas gerações, algumas técnicas muito simples.

Lembrei-me, a determinada altura, de uma banda desenhada que tinha lido há já bastante tempo. Era sobre a vida de Baden-Powell o fundador do movimento escutista. Já não me recordo a que propósito explicara ele que “em África, o caminho mais curto entre dois pontos, contrariamente ao que se pensa não é uma linha recta, mas sim uma linha curva”. Tão estranha foi a declaração que a fixei, mas, agora que lá, por África, me encontrava, acabei por dar razão a Baden-Powell.

Na Zona de acção da minha Companhia e, julgo eu, que em todo o Norte de Angola  e quiçá ainda, na África de clima tropical, o terreno caracteriza-se por uma sucessão de pequenas colinas que se assemelham entre si, na altitude. Com frequência, todavia, surgem vales, por vezes profundos, onde há quase sempre um curso de água. Por vezes também, elevam-se montes rochosos, com vertentes quase a pique, de difícil acesso e que se destacam nitidamente da monotonia das colinas. Logo a seguir, porém, regressa a sucessão destas, até ao próximo monte ou ao próximo vale.

A experiência acumulado por gerações de indígenas ensinou-os a atingirem determinado destino, não em linha recta como, à primeira vista parece mais fácil, mas contornando as sucessivas colinas por linha de cota (curva de nível), geralmente a meia altura, encontrando-se sempre uma ligação entre as colinas sem ter que descer ou subir demasiado, que é, afinal, o que custa fisicamente, sobretudo quando se vai carregado. Não importa as voltas que se dão. 
Por vezes parece que andamos para trás, mas rapidamente se encontra uma ligação e logo outra a seguir, que nos levam na direcção pretendida. Julgo que foi a observação deste facto que esteve na origem da afirmação de Baden-Powell.

Progressão de um Grupo de Combate por trilho a meia encosta


Em tempo de guerra, porém, as coisas não são assim tão simples. O recurso ao trilho indígena arrastava consigo o perigo da mina anti-pessoal. Tirara a Curso de Minas e Armadilhas e ficara relativamente bem familiarizado com a eficácia daquela terrível e traiçoeira arma. A opção inicial do "corta-mato" tinha muito a ver com o receio de que, utilizando os trilhos, acabasse, alguém do meu grupo, por detonar alguma.

Como já referi noutro local, a CArt recebera uma AIL que deixara de o ser, alargando, para esses lados, a sua nomadização. O meu raciocínio, bom ou mau, foi o de entender que, se durante alguns anos - de 61 a 65 - nenhuma tropa apeada tinha passado por aqueles sítios, não seria natural a minagem dos itinerários, os quais, aliás, eram frequentemente utilizados pelo IN. Ciente disto, passei a usar os trilhos, normalmente bem vincados, frescos e bem batidos. Estava certo, pois em toda a comissão não tive uma única mina anti-pessoal (e também anti-carro), pensando eu  que se conjugaram diversas circunstâncias favoráveis – como as acima referidas – com alguma (muita) sorte. Ainda hoje, quando penso nisto, sinto um arrepio de apreensão.

A técnica era simples: as viaturas deixavam-nos no ponto previamente definido, analisava a fotografia aérea e definia a direcção pretendida. Iniciava-se a corta-mato, até encontrar um trilho. Com o capim alto, era mais difícil, mas, após as queimadas, os trilhos, de cor mais clara, distinguiam-se perfeitamente da cinza escura e, nessa circunstâncias, tudo era mais fácil. Encontrado o trilho, seguia-se, por ele, para os locais pretendidos.
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Era para referir, com este postal, uma das mais interessantes operações que realizei no Norte e que terá acontecido aí pelo fim da época das chuvas. Percorrido o álbum de fotografias, retirei a que encima este postal. Durante muitos anos estive convencido de que aquela foto havia sido obtida na operação que pretendia narrar. Observando-a com mais atenção, concluí, com pena, que assim não era. Por fim, o introito alongou-se demasiadamente, inviabilizando, pelo menos por agora, a narração. Mas a foto aqui fica porquanto, de algum modo, exemplifica - juntamento com a outra  -  o que atrás escrevi.

VETERANO

2 comentários:

C. Fonseca disse...

Quando chegámos a Lucunga e começámos a ir para o mato, também eu cheguei à conclusão que, quase tudo o que tinha aprendido (e praticado) em Tavira e que depois tinha ensinado enquanto monitor de instrução, quer em Setúbal, quer na Carregueira, pouco tinha a ver com a realidade africana. Salvaram-se a resistência física, bem como a capacidade de sofrer, que tanto treinámos cá.

E, claro, no treino faltava um inimigo real e o medo que o desconhecido causava, sobretudo nos primeiros tempos.

Na primeira noite que dormimos em operações, creio que pouca gente dormiu alguma coisa de jeito (a começar por mim). E, quando nas noites seguintes o silêncio era quebrado por um velho ramo de árvore que se partia, ou pelo restolhar de qualquer animal, a tensão e a adrenalina invadiam-nos o corpo e espírito.

Sim, tínhamos medo, porque não éramos loucos, nem inconscientes.

E, sim, no que me toca, continuei a ter medo enquanto estivemos no Norte. Tive sorte porque consegui controlá-lo sempre, conseguindo manter uma aparente serenidade, que procurava transmitir aos "meus" homens.

A esta distância parece que as coisas acabaram por não correr nada mal.

VETERANO disse...

Como sempre, um excelente comentário.

Gratíssimo, Caro Carlos Fonseca

VETERANO