Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

sábado, 19 de novembro de 2011

Bellum Dulce Inexpertis*

* A guerra só é doce para os que não combatem!  

Tôto - Porta de Armas
Uma das rotinas mais frequentes durante o tempo de comissão no Tôto era a escolta de protecção à coluna de abastecimentos que, regularmente, como aqui já referi, trazia de Luanda tudo quanto era necessário à tropa do Sector. No perímetro do Quartel do Tôto existia um Destacamento de Intendência (à época, inicialmente comandado pelo Alferes Lucena - irmão de outro Lucena, também Alferes que, vim a encontrar no Luso e que, mais tarde, foi figura mediática do programa do Raul Solnado, A Visita da Cornélia - e posteriormente, pelo Alferes Fronteira - amigo actualmente residente no Canadá e a quem devo resposta a alguns mails(1) que me dirigiu) e um Pelotão de Apoio Directo, inicialmente sob o comando do Alferes Braga, meu concidadão do Porto e, posteriormente, pelo Tenente Pesca).

As escoltas às colunas de reabastecimento tinham uma escala própria, independente da escala da actividade operacional e da actividade de serviço ao quartel. Em teoria, a "coisa" funcionava assim: partindo do principio de que estaria sempre fora, em operações, um dos Grupos de Combate(GC) - o que, nem sempre acontecia por ser frequente a saída de dois, em conjunto - os restantes GC que permaneciam alternavam o serviço de dia e de piquete. O GC de serviço ao quartel, na jornada diurna, mantinha uma Secção à porta de armas, distribuindo-se, o restante pessoal, por diversas actividades. Mal caía a noite, seguiam várias Esquadras (1 Cabo e 2 (ou 3 ?) Soldados) para as altas torres de vigia. O GC de piquete, assegurava, para além de outras tarefas, a água e a lenha, estando, porém, alerta para o que desse e viesse. Quando regressavam, os GC do mato entravam de serviço, nesta escala e os outros saiam para operações na área atribuída.
Quartel do Tôto
Vista do exterior: Torres de vigia, e, ao longo da cerca de arame farpado, uma sucessão de postes com lâmpadas eléctricas (a fazendo do Cid tinha um gerador e fornecia electricidade ao quartel )
Se, porém, no período acontecia chegar uma coluna de reabastecimento - julgo que vinha uma de quinze em quinze dias - 2 dos GC naquele momento em permanência no quartel eram destinados à escolta, escolhendo-se, tanto quanto possível, os que não tivessem feito a escolta anterior. A movimentada rotação operacional deveria alterar, com grande frequência, esta rotina, mas procurou-se sempre distribuir estas situações mais dificeis e perigosas com a maior justiça possível.

De qualquer modo, havia sempre a possibilidade de se fazer uma escolta, pelo menos uma vez por mês.

Como escrevi acima e em virtude da elevada periculosidade da operação, justificava-se o empenhamento de dois GC. Não tanto pela área de actuação em si, mas, sobretudo, pelo facto de se tratar de uma operação demasiado denunciada. Toda a gente tinha conhecimento da chegada da coluna - escoltada por GC de Quibala - e, obviamente, sabia-se que a mesma regressaria, ou no dia seguinte ou dois dias depois, já me não recordo bem.
Unimog de Escolta
Da Esq para a Dir: 1º.CabAt (?), SoldAt Varandas, FurMilInf Carlos Ventura, 1ºCabApMort David, SoldAt "o Mano", o autor do blogue e o SoldCondAut (?)
Geralmente o meu GC fazia a escolta em conjunto com o 2º. GC, do Alferes Palaio que era mais antigo do que eu e, portanto, a comandava. Sucedia, porém, que àquele meu camarada estava atribuída a Psico-Social que, ali no Tôto, havia abraçado um grande empreendimento - a construção da nova sanzala - o que o empenhava seriamente e lhe ocupava quase todo o seu tempo. Pelo meu lado, responsável que era pelo material de guerra, uma vez organizado e arrecadado o equipamento não usado, devidamente conferido, e construído um paiol que não existia, a minha tarefa tornou-se rotineira, quase limitada ao remuniciamento dos GC e à burocracia da justificação dos gastos. Várias vezes aconteceu ficar o Alferes Palaio às voltas com o seus afazeres psico-sociais, seguindo eu no comando dos dois GC.
A nova Sanzala
A deslocação não era dificil nem, podemos dizê-lo, arriscada em demasia. O risco advinha das circunstâncias da própria operação, resultante de factores intrinsecos: uma coluna muito "comprida", com as viaturas militares intercaladas nas civis, ausência de meios-rádio capazes de estabelecer contacto entre as diversas viaturas (tinhamos, apenas, um ANGRC9, que era montado numa das viaturas e servia para o contacto com os quarteis, e um ou dois THC (habitualmente usados para contactar com os meios aéreos). Uns tempos mais tarde recebemos uns pequenos rádios, mais parecidos com intercomunicadores, a pilhas, mas que tinham um alcance muito curto, incompatível com as distâncias a que as viaturas seguiam.
Regresso a Quibala da coluna de reabastecimentos
Comandar, nestas condições, era algo dificil, pelo que a nossa esperança era o bom treino da tropa e que ela fosse capaz de responder a um ataque localizado, por exemplo, à cauda da coluna, pois até à chegada de socorro eficaz, passaria, ainda, algum tempo. Depois, organizava-se, como melhor entendíamos dever ser, aquela extensa fila de viaturas, intercalando, aqui e acolá, os Unimogs (antes eram Jipões), deslocando-se o da "breda" para o meio da coluna, para, tanto quanto possível, cobrir o início e o fim dela, abriam-se os cunhetes das granadas de morteiro e, lá íamos nós, com fé em Deus e na sorte. A verdade é que, num ano de comissão, não fui (não fomos, melhor dizendo) atacados uma única vez, o que se atribuia, não tanto à protecção divina, mas mais ao excelente trabalho que se fazia no Tôto, com a dignificação e a promoção social da população.
A Breda
Aqui, como apontador, o SoldApMetPes Manuel Marques Santos que foi, durante a comissão, o encarregado da minha protecção pessoal(vulgo guarda-costas)
Havia, porém, ao longo do percurso, uns quantos quilometros antes de chegar a Quibala, uma zona fortemente arborizada e onde a estrada descia para, um pedaço adiante, voltar a subir. Era o sítío ideal para uma emboscada, que podia ser referido como o exemplo de uma boa escolha de terreno, num qualquer manual da luta de guerrilha. Claro que, antes de avançar naquele local, paravam-se as viaturas, promovia-se a aproximação das atrasadas e fazíamos aquelas centenas de metros com outra precaução (2).

Quibala era um aquartelamento JC e a impressão que sempre me ficou era a da soturnidade. Isolado nos meio de alguns montes, mais ou menos cobertos de capim e com a floresta tropical sobretudo nos vales. Chegados lá e após o abastecimento, tratávamos de regressar de modo a não apanhar a noite pelo caminho, sobretudo no lugar atrás referido.
Quibala Norte
(foto de: Carlos Fonseca, da CArt 738)
Sucedeu uma vez, por nos termos descuidado um pouco mais com a hora do regresso, que chegámos ao tal ponto mais perigoso precisamente à hora do rápido lusco-fusco ( nos trópicos, como se sabe, a noite cai bruscamento, não havendo, praticamente, crepúsculo) A viatura da frente parou para permitir a junção das restantes. Seguíamos já de farois acesos e, qual não é a nossa surpresa, quando, do lado direito da estrada, nos apercebemos de um grupo razoável de pessoas que se dirigiam, precisamente, para a estrada. Na realidade, não víamos as pessoas, mas, detectámos as luzes das lanternas que empunhavam. O grupo apercebeu-se da chegada das viaturas, parou, mas, curiosamente, ninguém apagou as luzes das lanternas Pelo nosso lado, decidimos avançar lentamente, com as viaturas distanciadas, embora não demasiado e, mantendo os faróis acesos. Dei instruções para ninguém disparar, mandei apontar a "breda" para o local das luzes e preparar o morteiro de 60". Percorremos aqueles metros em tensão máxima, sempre de olhos fixos no grupo, o qual, pelo seu lado, estaria a passar por momentos semelhantes (tinha, como disse, parado e mantinha-se na expectativa). Percorridas as centenas de metros da zona florestada, sem que nada acontecesse, regressámos à marcha normal e deixámos, quem quer que fosse, seguir ao seu destino. Uma espécie de tréguas locais.

Ainda hoje me interrogo se fiz bem ou se fiz mal! Seria minha obrigação tomar a iniciativa do combate, por razões de dever militar. Por outro lado, porém, tal atitude provocaria, quase certamente, mortes que, julgo eu, poderiam ser evitadas. A verdade é que o grupo IN terá pensado de forma semelhante e, depois de passarmos, terá prosseguido para o seu destino, não derivando, quer para atacar o quartel de Quibala, quer o do Tôto (3). Presumo que pretenderia alcançar o Congo - razão porque caminhava no sentido do Norte - Mesmo em combate, há necessidade de alguma preparação psicológica para proceder de determinada forma. Se tivessemos saído para uma operação de patrulhamento, teria, estou crente, agido de outra maneira. Mas como a missão era a simples escolta da coluna de abastecimentos e a preparação tinha sido nesse sentido, embora com dúvidas, estou convencido de ter agido correctamente.

(1) Caro Emanuel: Aqui vai, com um grande abraço, o meu pedido de desculpas.
(2) Nunca utilizei, porém, o processo de apear o pessoal e progredir, de ambos os lados da estrada, paralelamente às viaturas. Por qualquer razão entendia não haver vantagem nisso.
(3) Durante bastante tempo não me largou a ideia de que, por minha culpa, aquele grupo poderia ter atacado qualquer das nossas unidades aquarteladas na ZIN. Sem confessar o "pecado", lia os PERINTREP (se a memória me não atraiçoa, era assim que se chamavam uns documentos periódicos que a CArt recebia com um resumo da actividade, quer das nossas  Forças, quer do IN) a ver se constava qualquer acção que se pudesse relacionar com aquele grupo. Tal, porém, nunca sucedeu. Ficaria, em caso contrário, com remorsos para toda a vida.

VETERANO

2 comentários:

Alturense disse...

Caro Silva Pereira,

Este excelente texto relata uma realidade que "mutatis mutandis" era comum no dia-a-dia de quase todos nós.

Das nossas rotineiras actividades (que às vezes de rotineiras nada tinham), até ao deficiente equipamento de transmissões, que tanta falta nos fazia; à tensão que se sentia quando em presença de cenários que nos pareciam desfavoráveis e, portanto, propícios a um ataque do inimigo; à incerteza de qual será a melhor e mais prudente decisão a tomar em circunstâncias imprevistas, como a que descreve quando, no regresso da Quibala e ao cair da noite, se apercebe da presença de elementos estranhos, muito provavelmente ligados aos terroristas (fossem combatentes, carregadores, etc.); está lá tudo, ou pelo menos quase tudo, incluindo a responsabilidade pela segurança dos homens, cujo peso era, para os seus 22 ou 23 anos, uma carga muito pesada.

Quando leio textos como este, lamento que, nos últimos tempos, seja tão rara a sua produção neste blogue, embora compreenda os seus motivos. Ao menos vou-o lendo por outros “locais”.

Um abraço do

Carlos Fonseca

VETERANO disse...

Caríssimo Carlos Fonseca:

Mais uma vez o meu muito obrigado pelo seu comentário e pelas generosas palavras de estímulo.

Peço-lhe que me desculpe de, somente hoje, ter colocado em linha o seu comentário. Sucedeu que estive ausente, em casa de um filho e, embora tivesse levado o portátil, esqueci o cabo de ligação à corrente, pelo que fiquei impossibilitado de publicar o que quer que fosse.

Já regressado, tenho já alinhavados dois ou três postais, para muito breve.

Uma vez mais, muito grato pela sua constante presença.

Um abraço do
Silva Pereira