Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mussende Revisitado - Histórias de Caça - O Primeiro Tiro

Uma das equipas de caça
SoldCondAut Alonso Varudo, "o Compadre", SoldApMet Dias, "o Palhaço Grande", o autor do blogue, SoldAtInf  Santos, "o Porto", um dos nossos cozinheiros, de cujo nome não me recordo. Agachado, FurMilInf João Mouga

Uma das formas de se obter carne para a alimentação da tropa era caçando. Localmente, os recursos eram parcos, tornando a alimentação demasiadamente repetitiva. Em muitos casos, limitavam-se ao suino e a aves de capoeira compradas à população local, mas quem quisesse mudar de "dieta" tinha, obrigatoriamente, de caçar.
A caça, embora formalmente proibida, era tolerada. Quanto mais não fosse, porque as autoridades não tinham possibilidade de intervir. Aliás, quando existiam, elas próprias caçavam. De qualquer modo, em nada a fauna era prejudicada, já que era extraordinariamente abundante. Por todos os locais por onde andei, sempre vi herbívoros selvagens em quantidade tal que os abates efectuados pela tropa em nada afectavam a sobrevivência das manadas, que se reproduziam a ritmo superior ao do abate. A tropa de quadrícula tinha enormes áreas de actuação e a fauna existente, para além dos predadores naturais, era apenas caçada pela dúzia de soldados que cuidavam da alimentação da Unidade. Não era necessário, muitas vezes, sair para muito longe do aquartelamento para trazer duas ou três boas peças de caça, capazes de alimentarem todo o pessoal.
O acampamento
SoldCondAut José Martins, "o Zé de Braga", o civil aqui referido e SoldApMet Manuel Santos, "o Bombeiro"
No Mussende foi-me indicado, por um civil de cujo nome não me lembro já mas que julgo tratar-se do referido AQUI, um excelente local de caça, para o qual se ia, saindo da localidade, pela estrada do Calulo. Era uma soberba paisagem tipicamente africana, à qual não faltava, sequer, uma enorme lagoa, onde, habitualmente, todos os animais iam beber.
Quando, pela primeira vez, lá nos deslocámos, seguiram dois jeeps, um para lá ficar e um outro para regressar, trazendo o civil de volta ao Mussende. Simpaticamente, o civil trouxera consigo alguns petiscos para um lanche ajantarado, pois saíramos próximo do fim do dia com a intenção de iniciarmos a caçada na manhã seguinte. Coincidiu, a nossa chegada, com o pôr do Sol. Como se sabe, as noites, nos trópicos, caiem muito rapidamente, pelo que, enquanto se preparavam as tendas para dormir e o civil dispunha, sobre o capot do jeep o que tinha trazido para petiscar, caiu a noite. Acenderam-se os farois, para dar um pouco de luz ao local. Eis senão quando se repara que, encadeados pela luz, a cerca de 100 metros, dois magnificos veados estavam como que petrificados. Peguei na mauser, apontei a um deles - estava de lado e fiz-lhe pontaria ao pescoço - e disparei. Rapidamente quiz fazer o segundo tiro, mas enquanto manobrava a culatra deu para ver pelo menos um dos veados correndo para longe, parando de quando em vez e fixando as luzes que os encadearam. Disparei a segunda vez, falhei, com a precipitação, e o animal correu até desaparecer no escuro.
Uma refeição
O autor do blogue, o cozinheiro já referido e o SoldCondAut José Martins "o Zé de Braga"
Fiquei um pouco aborrecido com o falhanço - nem a sorte do principiante tivera - mas, por descargo de consciência, resolvemos ir até ao local onde os veados se encontravam quando os avistámos. Foi com alguma surpresa, mas com enorme satisfação que, constatámos que o veado a que primeiro atirara tinha caído, redondo, no local onde se encontrava. O tiro acertara exactamente no ponto para onde apontara, a meio do pescoço. Acabada a leve refeição que o civil trouxera, regressou ao quartel o jeep de apoio levando já, para a alimentação dos dias seguintes, aquele magnifíco animal.
Recolhemos às tendas, para dormir, pois queríamos iniciar a nossa tarefa, logo pelo amanhecer.
Outro aspecto da refeição
Para além do autor do blogue e do cozinheiro, vê-se o 1º.CabAtInf Sequeira
VETERANO

2 comentários:

manuel aldeias disse...

Nessa época não existiam preocupações com a caça excessiva e o exterminio dos animais selvajens. Nessa altura o homem o pouco que caçava era para a sua alimentação.
Eu tambem estive em Angola, um pouco mais tarde entre 1972 e 1974.
Manuel Aldeias

Sérgio O. Sá disse...

Sem dúvida que o abate de uma pacaça ou de uma palanca, por exemplo, normalmente resultava em valioso suplemento alimentar, não só pelo produto em si, mas pela quebra de rotina que isso às vezes significava,com um prato diferente do que era habitual.
Guardo três histórias relacionadas com a caça, na zona de Quibala (Norte). Uma delas mexe comigo, por me ter sido negada uma bifana cozinhada à "maneira", numa altura em que a minha saúde andava por baixo.
Outra, que por sugestão de um oficial de elevada patente poderia ter resultado em êxito fácil, não passou de frustrado e risível fracaço, a deixar aquele comandante irritado...
A terceira, poderia ter sido uma grande tragédia, mas ficou-se pela desastrosa atrapalhação que obrigou à evacuação de dois feridos graves para Luanda. Sobre esta, aqui deixo algumas notas.
Descia, de Quibala até à ponte de Freitas Morna, uma coluna com vista a escoltar um comboio MVL lá estacionado à espera de seguir para cima. A certa altura uma manada de pacaças se repastava, bem ao alcance das nossas armas. Há que aproveitar e o homem da Mauser recebe ordens para atirar. Foi o que fez e acertou. Um dos bóvidas cai por terra. A malta salta das viaturas, e dois ou três soldados adiantam-se, ao encontro do bicho, que lhes preparou uma receção inesperada. O primeiro a chegar junto dele foi recebido com uma certeira investida que o deixou de coxas rasgadas a estrebuchar sobre as suas robustas defesas. O segundo, coreu em auxilio do colega para, também à bala, tentar neutralizar o bufalino, não o conseguindo de imediato. Ao ver que a situação não se resolvia, um terceiro homem não perde tempo e atira, tentando pôr termo àquela aflitiva confusão. Nas a confusão e o azar aumentaram, pois em vez de mirar na presa, acerta no colega que tantava acudir ao "corneado", ferindo-o também nos membros inferiores. Tudo se passou em segundos, e só com o responsável pela coluna a pôr ordem naquilo é que a barafunda se resolveu.
Os feridos receberam ali os primeiros socorros e, garrotados, acabaram por seguir até Ambriz, de onde partiram por via aérea para Luanda. Das consequencias, a outro nível, deste epísódio abstenho-me obviamente de aqui falar.
Coisas da guerra que, mesmo fora do confronto com o IN, estava sempre sujeito ao perigo.