Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Soldado Artur Dias dos Santos! Presente!

 Artur Dias dos Santos, o "Palhaço"
47º. Aniversário da sua morte em combate, no Leste de Angola

Em verdade, só morremos verdadeiramente quando já ninguém nos recorda!

Ainda no Tôto: O "Palhaço" como guarda-redes da equipa de futebol do 4º.G.C.

"In Memoriam"
Uma velha canção militar alemã "Ich hatt einen Kameraden" (Eu tinha um camarada)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Norte - Nomadização na AIL - Água e Sede


Troço de floresta, junto a um curso de água
Como já tenho referido noutras oportunidades, cheguei ao Tôto em Março de 1965, cerca de dois meses após a chegada da minha CArt 739. Uma das consequências deste atraso foi o facto de não ter feito sobreposição com a tropa que lá rendemos.
Era chamado de "sobreposição" o curto espaço de tempo que demorava a rendição de uma unidade militar por outra, durante o qual, se entregava à recém-chegada diverso material - armamento pesado, viaturas, equipamento sanitário, e de alojamento, etc. - e, em teoria, se procuraria transmitir a experiência adquirida de modo a evitar a repetição de alguns erros, nomeadamente, aqueles mais funestos. Efectuavam-se algumas operações ao nível de dois Pelotões, um "velho" e outro "maçarico".  
Rio Kuango - Enchendo cantis
Da Esq para Dir: SoldAt Varandas, 1º.CabMecArmLig "o Braga", SoldAt Freitas(enchendo o cantil), SoldAt Mendes "o Queijo", FurMilInf Mouga, 1º.CabApMet "?", SoldAt Horta, SoldAt Teixeira "o Arouca", SoldApMet Manuel M Santos "o Bombeiro", o autor do blogue e SoldAt Leite.  
Chegado, como disse, mais tarde, não passei por esta fase e, tanto quanto eu sei, o meu próprio Pelotão, em virtude da minha ausência, não acompanhou, também, essa actividade, sendo, antes, encarregado de tarefas menos operacionais, digamos assim, tais como a recolha da água e da lenha. Com a minha chegada, e integrando quase imediatamente a escala de operações, tive que aprender, por minha conta, não podendo, sequer, contar com grande experiência pela parte dos meus comandados.
Noutros postais venho já referindo essa progressiva aquisição de conhecimentos. Um, dos mais importantes, era, inequivocamente, a obtenção da percepção de existência de água corrente capaz de ser bebida, num terreno completamente desconhecido como era a AIL(1) que acabáramos de receber. Com o tempo, acabei por constatar que nos vales florestados existia quase sempre um curso de água, mais ou menos abundante, embora, às vezes, pudesse não passar de um charco que nos obrigava ao ritual das pastilhas e da espera. Deste modo, sempre que nomadizávamos, saíamos, volta e meia, do trilho que percorríamos e descíamos ao vale mais próximo em busca do precioso líquido. Raras vez me enganei.
Rio Kuango - Descanso junto ao curso de água
2º.SargArt Fernando Santa e o autor do blogue. Não identifico o militar que está de costas.
Mas, uma vez enganei-me mesmo e, chegados ao fundo do vale nada encontrámos. Voltámos ao trilho, começando já a sentir as dificuldades da sêde, e dirigímo-nos para um outro vale. E, como se aproximava a noite, ordenei à Secção que seguia à frente que apressasse o passo de maneira a chegarmos, com luz diurna bastante, àquele destino. Atingimos o cimo da colina já próximo do lusco-fusco. O pessoal estava sedento, valendo, aos mais aflitos, o enfermeiro Manuel que era o único com um bom cantil de água(2), Uma das Secções nem sequer parou, limitando-se a recolher os cantis de toda a gente e a seguir, encosta abaixo, a toda a brida, enquanto as restantes montavam o "quadrado"(3) que adoptara como forma de bivacar em pontos altos.
Foi com grande ansiedade que aguardámos o regresso dos camaradas da água. Aquele tempo de espera pareceu-nos uma eternidade! A páginas tantas, já noite feita, ouvimos o barulho característico dos passos que só podiam ser da Secção a regressar, logo renascendo toda a vivacidade daquela tropa até então entorpecida pelo cansaço e pela sêde.
Rio Kuango - FurMilInf João Mouga
Foi, porém, muito grande a desilusão! Comunicou-me o comandante da Secção que não existia água naquele vale! Num mesmo dia, enganára-me duas vezes relativamente ao mesmo assunto!
Perante a resposta, tivemos que nos submeter a uma noite de sêde verdadeiramente horrivel - um dos que se descontrolou foi, precisamente, o comandante da Secção que tinha partido em busca da água - contando, apenas com o cantil do Manuel que, quase à força, pouco mais permitia do que molhar os lábios.
Ainda antes da aurora acordei toda a gente - poucos tinham sido os que dormiram, com a boca seca e a língua meio-inchada - de modo a arrancar mal houvesse alguma visibilidade. Qualquer coisa me dizia que deveria haver água naquele local e ordenei a descida pelo caminho aberto pela Secção que se deslocara no dia anterior. Qual não foi a nossa surpresa quanto, bem lá no funfo, deparámos com um pequeno curso de água que corria, quase diria alegre e cristalino, depois de se ter despenhado de uma pequena cascata. 
Depois de saciada a sede e enchidos os cantis, não me furtei a dizer ao comandante da Secção tudo o que pensava da sua atitude de renúncia na procura da tão necessária água. Tudo levava a crer ter desistido ainda a meio da descida. Pela primeira vez - e julgo que pela última - dei uma descompostura a um graduado na frente do pessoal, mas não pude resistir. Não estou arrependido e hoje, fá-lo-ia de novo.   
VETERANO

(1) Área de Intervenção Livre.
(2) Constava que o Manuel aguentava muito bem a sede por ter sido pastor na vida civil. Desde que regressámos, nunca mais soube dele.
(3) Uma Secção e Comando, em cada "canto" de um quadrado imaginário.

NOTAS: As fotos que ilustram este postal não estão relacionadas com a situação descrita. Por sinal, estão datadas: dias 17 e 18 de Agosto de 1965.

VALE A PENA LER O COMENTÁRIO REMETIDO PELO CAMARADA SÉRGIO O. SÁ. (aditado às 23H35 de 15.01.2012)

sábado, 22 de maio de 2010

E, Para Tudo, Há Sempre Uma Primeira Vez...

No dia imediatamente a seguir à minha chegada (tardia) ao Tôto foi recebido um rádio proveniente dos Grupos de Combate que andavam em operações na AIL recentemente atribuída à CArt 739. Os Grupos encontravam-se sob o comando do próprio Cap Art Fernando Mira o qual ordenava que lhe fosse levado, para além de outro, diverso material para a construção de jangadas.

Estava-se em plena Estação das Chuvas. Por aquelas paragens e por essa altura do ano, sucedia um fenómeno a que não estávamos habituados: o dia apresentava-se com o céu limpo e a temperatura, logo pela manhã, atingia valores muito elevados. De repente, sensivelmente à mesma hora, em cada dia, começava a ventar, o céu, em poucos minutos cobria-se de nuvens negras e desencadeava-se uma furiosíssima tempestade. A chuva era torrencial, as faíscas caíam por todo o lado e os cursos de água aumentavam assustadoramente de volume. Talvez nem uma hora depois, tudo voltava a serenar, desapareciam as nuvens do céu, o sol brilhava de novo e o calor explodia. A humidade era elevadíssima e era um martírio caminhar no meio daquele capim, cujo tamanho escondia perfeitamente uma pessoa em pé. No dia seguinte, repetia-se o fenómeno.

Os rios e riachos, por pequenos que fossem, normalmente transbordavam e se, porventura, nos descuidássemos, corria-se o risco de nos desorientarmos. O terreno depois da tempestade já não era o mesmo de antes dela. Havia água por todo o lado e a progressão ficava muito dificultada.

No cumprimento da ordem recebida mandei preparar as viaturas e carregá-las com o material pedido. O meu pessoal foi equipar-se e, após recebermos as rações de combate que se previa serem necessárias, seguimos para o local referido no rádio.

Não ia muito confiante e julgo que o meu pessoal também não. Era a primeira vez que operava naquelas condições, desconhecia qual a actividade do inimigo na zona e receava, sobretudo, que, em caso de necessidade, não fosse capaz de comandar convenientemente. Por muito treino que tenhamos, é a acção que nos ensina os procedimentos, através dos erros que vamos cometendo. Só que, aqui, os erros podiam pagar-se com a vida…

Fase inicial dos trabalhos!
Reconhece-se o Furriel Ventura, com a sua jóia mais preciosa: o rádio!!!

Os condutores já conheciam o caminho, pois eram os mesmo que tinham levado os Grupos em operações ao ponto de largada. Era menos uma preocupação até porque não existiam quaisquer cartas militares, utilizando-se, apenas fotografias aéreas demasiado imprecisas e vagas. Só a sucessão dos patrulhamentos nos foi permitindo, a pouco e pouco, ir conhecendo a área de acção. Ao fim de uns meses já não queria saber das fotografias aéreas para nada!

A determinada altura do percurso era necessário atravessar um riacho com um “pontão” que não passava de dois ou três pequenos troncos de árvores pousados numa e noutra margem. As chuvas, todavia, haviam levado tudo e, embora o riacho não fosse fundo naquele ponto, corria-se o risco de se não conseguir passar. Os condutores, mais experientes do que eu, sugeriram-me que se ganhasse velocidade na descida antes do rio, de maneira a que as viaturas passassem para o outro lado e depois se veria.

Concordei. Convém, todavia, dizer que a coluna era composta por jipões do tempo da segunda guerra, mais prontos para a sucata do que para o que deles se exigia, e que só andavam em virtude do “desenrascanço” característico da tropa. Ora sucedeu que, com mais ou menos sorte, o primeiro e o segundo lá passaram para o outro lado, mas o terceiro, com o salto sofrido na tentativa de atravessar o curso de água, avariou ali mesmo e já não saiu do riacho.

O mecânico, que acompanhava sempre as colunas motorizadas, começou imediatamente a trabalhar, enquanto o Sol ia descendo para o ocaso. As noites caiem depressa nos trópicos e, em pouco tempo era noite cerrada e, para o especialista continuar a tarefa foi necessário acender as luzes de uma das viaturas, de modo a iluminar o jipão avariado. Era uma situação extremamente vulnerável e, consciente disso mesmo, ordenei o reforço das sentinelas ao longo da picada, de um e do outro lado do riacho.

Horas depois, sem resolver o problema do jipão, decidi deixar o caso para o dia seguinte, tratámos de mastigar qualquer coisa e deitámo-nos para dormir.

Metade do trabalho, praticamente já feito!

Às tantas da noite um restolho fora do normal chamou a atenção de uma sentinela que, temerosa e pouco experiente (se alguém me disser que nunca teve medo…eu não acredito!), não esteve com meias medidas e disparou uma rajada de FN para o local, Toda a gente acordou e se precipitou para a água do riacho como de uma trincheira se tratasse.

Não houve mais ruído e, amanhecendo entretanto, como nada de especial detectássemos, concluímos ter sido um qualquer animal em busca de água que se assustou com a nossa presença.

Decidido a continuar a qualquer preço, mandei afastar o jipão do caminho, à força de braço e de guincho, e fiz passar, pelo lado, o jipão do guincho, com o qual mandei guindar as viaturas. Mais nenhuma avariou, Quanto àquele, não me recordo se o problema foi resolvido ou se foi a reboque.

Entrando em contacto com as forças em operações, incorporámo-nos nelas, mas, em breve, todos regressaram devido às condições do terreno e à ausência de forças inimigas.

A cereja no cimo do bolo foi o “puxão de orelhas” dado pelo Cap Art Fernando Mira que não aceitou o facto de eu ter “intervalado” a progressão da coluna. No dizer dele, um militar só pára depois de ter cumprido a missão. Nunca antes!

Aprendi a lição e, jurei a mim mesmo, tornar-me no melhor subalterno da CArt. Obviamente, não consegui, mas, pelo menos, tentei!

A segunda missão de que participei foi a reconstrução deste mesmo pontão. Mal chegados ao quartel, foi isso mesmo que me tocou em sorte! As fotos que acompanham este postal são, exactamente, dessa altura.

Pausa para a "latinha de conserva"!
Em primeiro plano, o Agostinho.

O "pontão" quase pronto!
A equipa de sentinela também quis aparecer na fotografia!
Reconhecem-se: o "Mano", o "Queijo", o Cerqueira, o Furriel Ventura, o Leite e o Horta!
Não identifico ou não me recordo do nome dos restantes.

VETERANO

sábado, 22 de agosto de 2009

In Memoriam --- 03 - Segundo Sargento Fernando Canhão Santa

«Clique nas fotos, para ampliar»

Algures no Norte de Angola - 1965
4º. G.C. da C.Art 739 - Secção Santa
1º.Cabo Manuel Pereira,o"Bigodes", Leite, "Maçarico", Al Mil Inf Silva Pereira, Almeida, Teixeira,o "Arouca" e 2º.Sarg Art Fernando Santa


O Santa foi um dos Sargentos que foi encaminhado para o meu 4º. Pelotão, também chamado Pelotão de Acompanhamento, na altura da mobilização do B.Art 741. Militar de profissão, um pouco mais velho do que nós, já com família constituída, via-se, agora, na contingência de se adaptar a uma nova formação militar, por força das características da Guerra do Ultramar.
Os pelotões de acompanhamento das companhias tinham por missão, entre outras, a instrução de armamento pesado (metralhadora pesada, morteiro de 60 e de 80 e lança-granadas foguete, vulgarmente conhecido por “bazooka”) sem prejuízo, evidentemente, do normal treino de infantaria.
O Santa era, como disse, militar de carreira, na altura Segundo Sargento e pertencia à Arma de Artilharia. Aproveitando os seus conhecimentos, atribuí-lhe o comando da Secção de Morteiros, comando esse que ele desempenhou de modo empenhado e altamente eficaz.
Já em Angola, continuou a fazer parte do, agora, designado 4º. Grupo de Combate e, apesar das dificuldades que deveria ter – como disse atrás era uns anos mais velho e, também, um pouco mais gordo – nunca se furtou ao cumprimento do seu dever e foi sempre exemplo a ser seguido. Os seus soldados estimavam-no particularmente e ele retribuía a estima de uma maneira quase paternal.
Dos vários episódios de que me lembro recordarei este, paradigmático da consideração que os soldados lhe votavam. Normalmente, quando um G.C. patrulhava determinada área (na época utilizava-se o termo “nomadizar”) a operação durava, normalmente, vários dias. Quando, à noite, nos preparávamos para dormir, aproveitando o cimo de um pequeno monte com bom campo de tiro, as três Secções e o Comando colocavam-se nos vértices de um dispositivo em quadrado. Os vértices ficavam relativamente afastados uns dos outros, tornando-se necessárias quatro sentinelas, uma por Secção. Todos faziam a sua hora, tirada à sorte. E quando digo todos, eu próprio e também os Sargentos, estávamos incluídos. A determinada altura, apercebi-me de que os soldados do Santa o não acordavam para o seu turno, mas, obviamente, fiz vista grossa. Era já qualquer coisa mais do que a (in)disciplina militar. Falava ali mais alto, a consideração e a estima que todos aqueles homens tinham por ele.
Quando regressámos, o Santa permaneceu ainda um mês em Angola, para o espólio do Batalhão. Apenas o vi uma única vez mais, mas a história desse encontro merece ser contada. Aconteceu no RAP 2 (Regimento de Artilharia Pesada 2) na Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia. O Martins, amigo comum e antigo Furriel da Companhia, contactou-me, um dia, informando-me de que o Santa se encontrava mobilizado por aquele Regimento. Como trabalhava na “baixa” do Porto, chegadas as seis horas da tarde, atravessei a Ponte de D. Luis e dirigi-me ao Quartel. À Porta de Armas disse ao que vinha e uma praça acompanhou-me até às instalações da Companhia, cujos soldados, naquele momento, se encontravam em formatura. À sua frente arengava o Santa, já Primeiro-Sargento. Alertado para a minha presença, interrompeu imediatamente o discurso, quase correu ao meu encontro e abraçou-me emocionadíssimo, repetindo, perante o pasmo daquela centena de homens: Oh meu rico alferes! Oh meu rico alferes! Entregou o comando a um subalterno, e conduziu-me à messe onde cavaqueámos até às tantas.
O Santa faleceu em 2001. Soube-o, apenas, aquando da preparação da confraternização de 2003 por um telefonema da emocionada viúva, solicitando o fim do envio da habitual carta-convite.

Mussende - 1966
Os Sargentos do 4º. G.C. da C.Art 739 e uma visita

Fur Mil Inf João Mouga, Fur Mil Inf Carlos Ventura, Fur Mil Inf Trindade (do 3º. G.C.) e o 2º. Sarg Art Fernando Santa