Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Soldado Artur Dias dos Santos! Presente!

 Artur Dias dos Santos, o "Palhaço"
47º. Aniversário da sua morte em combate, no Leste de Angola

Em verdade, só morremos verdadeiramente quando já ninguém nos recorda!

Ainda no Tôto: O "Palhaço" como guarda-redes da equipa de futebol do 4º.G.C.

"In Memoriam"
Uma velha canção militar alemã "Ich hatt einen Kameraden" (Eu tinha um camarada)

sábado, 19 de novembro de 2011

Bellum Dulce Inexpertis*

* A guerra só é doce para os que não combatem!  

Tôto - Porta de Armas
Uma das rotinas mais frequentes durante o tempo de comissão no Tôto era a escolta de protecção à coluna de abastecimentos que, regularmente, como aqui já referi, trazia de Luanda tudo quanto era necessário à tropa do Sector. No perímetro do Quartel do Tôto existia um Destacamento de Intendência (à época, inicialmente comandado pelo Alferes Lucena - irmão de outro Lucena, também Alferes que, vim a encontrar no Luso e que, mais tarde, foi figura mediática do programa do Raul Solnado, A Visita da Cornélia - e posteriormente, pelo Alferes Fronteira - amigo actualmente residente no Canadá e a quem devo resposta a alguns mails(1) que me dirigiu) e um Pelotão de Apoio Directo, inicialmente sob o comando do Alferes Braga, meu concidadão do Porto e, posteriormente, pelo Tenente Pesca).

As escoltas às colunas de reabastecimento tinham uma escala própria, independente da escala da actividade operacional e da actividade de serviço ao quartel. Em teoria, a "coisa" funcionava assim: partindo do principio de que estaria sempre fora, em operações, um dos Grupos de Combate(GC) - o que, nem sempre acontecia por ser frequente a saída de dois, em conjunto - os restantes GC que permaneciam alternavam o serviço de dia e de piquete. O GC de serviço ao quartel, na jornada diurna, mantinha uma Secção à porta de armas, distribuindo-se, o restante pessoal, por diversas actividades. Mal caía a noite, seguiam várias Esquadras (1 Cabo e 2 (ou 3 ?) Soldados) para as altas torres de vigia. O GC de piquete, assegurava, para além de outras tarefas, a água e a lenha, estando, porém, alerta para o que desse e viesse. Quando regressavam, os GC do mato entravam de serviço, nesta escala e os outros saiam para operações na área atribuída.
Quartel do Tôto
Vista do exterior: Torres de vigia, e, ao longo da cerca de arame farpado, uma sucessão de postes com lâmpadas eléctricas (a fazendo do Cid tinha um gerador e fornecia electricidade ao quartel )
Se, porém, no período acontecia chegar uma coluna de reabastecimento - julgo que vinha uma de quinze em quinze dias - 2 dos GC naquele momento em permanência no quartel eram destinados à escolta, escolhendo-se, tanto quanto possível, os que não tivessem feito a escolta anterior. A movimentada rotação operacional deveria alterar, com grande frequência, esta rotina, mas procurou-se sempre distribuir estas situações mais dificeis e perigosas com a maior justiça possível.

De qualquer modo, havia sempre a possibilidade de se fazer uma escolta, pelo menos uma vez por mês.

Como escrevi acima e em virtude da elevada periculosidade da operação, justificava-se o empenhamento de dois GC. Não tanto pela área de actuação em si, mas, sobretudo, pelo facto de se tratar de uma operação demasiado denunciada. Toda a gente tinha conhecimento da chegada da coluna - escoltada por GC de Quibala - e, obviamente, sabia-se que a mesma regressaria, ou no dia seguinte ou dois dias depois, já me não recordo bem.
Unimog de Escolta
Da Esq para a Dir: 1º.CabAt (?), SoldAt Varandas, FurMilInf Carlos Ventura, 1ºCabApMort David, SoldAt "o Mano", o autor do blogue e o SoldCondAut (?)
Geralmente o meu GC fazia a escolta em conjunto com o 2º. GC, do Alferes Palaio que era mais antigo do que eu e, portanto, a comandava. Sucedia, porém, que àquele meu camarada estava atribuída a Psico-Social que, ali no Tôto, havia abraçado um grande empreendimento - a construção da nova sanzala - o que o empenhava seriamente e lhe ocupava quase todo o seu tempo. Pelo meu lado, responsável que era pelo material de guerra, uma vez organizado e arrecadado o equipamento não usado, devidamente conferido, e construído um paiol que não existia, a minha tarefa tornou-se rotineira, quase limitada ao remuniciamento dos GC e à burocracia da justificação dos gastos. Várias vezes aconteceu ficar o Alferes Palaio às voltas com o seus afazeres psico-sociais, seguindo eu no comando dos dois GC.
A nova Sanzala
A deslocação não era dificil nem, podemos dizê-lo, arriscada em demasia. O risco advinha das circunstâncias da própria operação, resultante de factores intrinsecos: uma coluna muito "comprida", com as viaturas militares intercaladas nas civis, ausência de meios-rádio capazes de estabelecer contacto entre as diversas viaturas (tinhamos, apenas, um ANGRC9, que era montado numa das viaturas e servia para o contacto com os quarteis, e um ou dois THC (habitualmente usados para contactar com os meios aéreos). Uns tempos mais tarde recebemos uns pequenos rádios, mais parecidos com intercomunicadores, a pilhas, mas que tinham um alcance muito curto, incompatível com as distâncias a que as viaturas seguiam.
Regresso a Quibala da coluna de reabastecimentos
Comandar, nestas condições, era algo dificil, pelo que a nossa esperança era o bom treino da tropa e que ela fosse capaz de responder a um ataque localizado, por exemplo, à cauda da coluna, pois até à chegada de socorro eficaz, passaria, ainda, algum tempo. Depois, organizava-se, como melhor entendíamos dever ser, aquela extensa fila de viaturas, intercalando, aqui e acolá, os Unimogs (antes eram Jipões), deslocando-se o da "breda" para o meio da coluna, para, tanto quanto possível, cobrir o início e o fim dela, abriam-se os cunhetes das granadas de morteiro e, lá íamos nós, com fé em Deus e na sorte. A verdade é que, num ano de comissão, não fui (não fomos, melhor dizendo) atacados uma única vez, o que se atribuia, não tanto à protecção divina, mas mais ao excelente trabalho que se fazia no Tôto, com a dignificação e a promoção social da população.
A Breda
Aqui, como apontador, o SoldApMetPes Manuel Marques Santos que foi, durante a comissão, o encarregado da minha protecção pessoal(vulgo guarda-costas)
Havia, porém, ao longo do percurso, uns quantos quilometros antes de chegar a Quibala, uma zona fortemente arborizada e onde a estrada descia para, um pedaço adiante, voltar a subir. Era o sítío ideal para uma emboscada, que podia ser referido como o exemplo de uma boa escolha de terreno, num qualquer manual da luta de guerrilha. Claro que, antes de avançar naquele local, paravam-se as viaturas, promovia-se a aproximação das atrasadas e fazíamos aquelas centenas de metros com outra precaução (2).

Quibala era um aquartelamento JC e a impressão que sempre me ficou era a da soturnidade. Isolado nos meio de alguns montes, mais ou menos cobertos de capim e com a floresta tropical sobretudo nos vales. Chegados lá e após o abastecimento, tratávamos de regressar de modo a não apanhar a noite pelo caminho, sobretudo no lugar atrás referido.
Quibala Norte
(foto de: Carlos Fonseca, da CArt 738)
Sucedeu uma vez, por nos termos descuidado um pouco mais com a hora do regresso, que chegámos ao tal ponto mais perigoso precisamente à hora do rápido lusco-fusco ( nos trópicos, como se sabe, a noite cai bruscamento, não havendo, praticamente, crepúsculo) A viatura da frente parou para permitir a junção das restantes. Seguíamos já de farois acesos e, qual não é a nossa surpresa, quando, do lado direito da estrada, nos apercebemos de um grupo razoável de pessoas que se dirigiam, precisamente, para a estrada. Na realidade, não víamos as pessoas, mas, detectámos as luzes das lanternas que empunhavam. O grupo apercebeu-se da chegada das viaturas, parou, mas, curiosamente, ninguém apagou as luzes das lanternas Pelo nosso lado, decidimos avançar lentamente, com as viaturas distanciadas, embora não demasiado e, mantendo os faróis acesos. Dei instruções para ninguém disparar, mandei apontar a "breda" para o local das luzes e preparar o morteiro de 60". Percorremos aqueles metros em tensão máxima, sempre de olhos fixos no grupo, o qual, pelo seu lado, estaria a passar por momentos semelhantes (tinha, como disse, parado e mantinha-se na expectativa). Percorridas as centenas de metros da zona florestada, sem que nada acontecesse, regressámos à marcha normal e deixámos, quem quer que fosse, seguir ao seu destino. Uma espécie de tréguas locais.

Ainda hoje me interrogo se fiz bem ou se fiz mal! Seria minha obrigação tomar a iniciativa do combate, por razões de dever militar. Por outro lado, porém, tal atitude provocaria, quase certamente, mortes que, julgo eu, poderiam ser evitadas. A verdade é que o grupo IN terá pensado de forma semelhante e, depois de passarmos, terá prosseguido para o seu destino, não derivando, quer para atacar o quartel de Quibala, quer o do Tôto (3). Presumo que pretenderia alcançar o Congo - razão porque caminhava no sentido do Norte - Mesmo em combate, há necessidade de alguma preparação psicológica para proceder de determinada forma. Se tivessemos saído para uma operação de patrulhamento, teria, estou crente, agido de outra maneira. Mas como a missão era a simples escolta da coluna de abastecimentos e a preparação tinha sido nesse sentido, embora com dúvidas, estou convencido de ter agido correctamente.

(1) Caro Emanuel: Aqui vai, com um grande abraço, o meu pedido de desculpas.
(2) Nunca utilizei, porém, o processo de apear o pessoal e progredir, de ambos os lados da estrada, paralelamente às viaturas. Por qualquer razão entendia não haver vantagem nisso.
(3) Durante bastante tempo não me largou a ideia de que, por minha culpa, aquele grupo poderia ter atacado qualquer das nossas unidades aquarteladas na ZIN. Sem confessar o "pecado", lia os PERINTREP (se a memória me não atraiçoa, era assim que se chamavam uns documentos periódicos que a CArt recebia com um resumo da actividade, quer das nossas  Forças, quer do IN) a ver se constava qualquer acção que se pudesse relacionar com aquele grupo. Tal, porém, nunca sucedeu. Ficaria, em caso contrário, com remorsos para toda a vida.

VETERANO

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Soldado Artur Dias dos Santos! PRESENTE!


Artur Dias dos Santos, o "Palhaço"
44º. Aniversário da sua morte em combate no Leste de Angola
"Em verdade, só morremos verdadeiramente quando já ninguém nos recorda"

No Quartel do Lucusse a CArt 739 deixou esta "memória": um obelisco, relativo à Companhia, rodeado de outros quatro, mais pequenos e ligados entre si por uma corrente, cada um referente a um Pelotão.

Na base do obelisco central cravou-se uma pequena lápide metálica em memória do "Palhaço".

Na foto, os seus camaradas mais próximos: "SoldAtInf "Mano" e SoldApMet Dias, o "Palhaço Grande", que, com ele, completavam a esquadra de metralhadora pesada. À esquerda, o Furriel Mil Inf Carlos Alberto Ventura, Comandante da Secção.

"In Memoriam"
Uma velha canção militar alemã "Ich hatt' einen Kameraden" (Eu tinha um camarada)

sábado, 22 de maio de 2010

E, Para Tudo, Há Sempre Uma Primeira Vez...

No dia imediatamente a seguir à minha chegada (tardia) ao Tôto foi recebido um rádio proveniente dos Grupos de Combate que andavam em operações na AIL recentemente atribuída à CArt 739. Os Grupos encontravam-se sob o comando do próprio Cap Art Fernando Mira o qual ordenava que lhe fosse levado, para além de outro, diverso material para a construção de jangadas.

Estava-se em plena Estação das Chuvas. Por aquelas paragens e por essa altura do ano, sucedia um fenómeno a que não estávamos habituados: o dia apresentava-se com o céu limpo e a temperatura, logo pela manhã, atingia valores muito elevados. De repente, sensivelmente à mesma hora, em cada dia, começava a ventar, o céu, em poucos minutos cobria-se de nuvens negras e desencadeava-se uma furiosíssima tempestade. A chuva era torrencial, as faíscas caíam por todo o lado e os cursos de água aumentavam assustadoramente de volume. Talvez nem uma hora depois, tudo voltava a serenar, desapareciam as nuvens do céu, o sol brilhava de novo e o calor explodia. A humidade era elevadíssima e era um martírio caminhar no meio daquele capim, cujo tamanho escondia perfeitamente uma pessoa em pé. No dia seguinte, repetia-se o fenómeno.

Os rios e riachos, por pequenos que fossem, normalmente transbordavam e se, porventura, nos descuidássemos, corria-se o risco de nos desorientarmos. O terreno depois da tempestade já não era o mesmo de antes dela. Havia água por todo o lado e a progressão ficava muito dificultada.

No cumprimento da ordem recebida mandei preparar as viaturas e carregá-las com o material pedido. O meu pessoal foi equipar-se e, após recebermos as rações de combate que se previa serem necessárias, seguimos para o local referido no rádio.

Não ia muito confiante e julgo que o meu pessoal também não. Era a primeira vez que operava naquelas condições, desconhecia qual a actividade do inimigo na zona e receava, sobretudo, que, em caso de necessidade, não fosse capaz de comandar convenientemente. Por muito treino que tenhamos, é a acção que nos ensina os procedimentos, através dos erros que vamos cometendo. Só que, aqui, os erros podiam pagar-se com a vida…

Fase inicial dos trabalhos!
Reconhece-se o Furriel Ventura, com a sua jóia mais preciosa: o rádio!!!

Os condutores já conheciam o caminho, pois eram os mesmo que tinham levado os Grupos em operações ao ponto de largada. Era menos uma preocupação até porque não existiam quaisquer cartas militares, utilizando-se, apenas fotografias aéreas demasiado imprecisas e vagas. Só a sucessão dos patrulhamentos nos foi permitindo, a pouco e pouco, ir conhecendo a área de acção. Ao fim de uns meses já não queria saber das fotografias aéreas para nada!

A determinada altura do percurso era necessário atravessar um riacho com um “pontão” que não passava de dois ou três pequenos troncos de árvores pousados numa e noutra margem. As chuvas, todavia, haviam levado tudo e, embora o riacho não fosse fundo naquele ponto, corria-se o risco de se não conseguir passar. Os condutores, mais experientes do que eu, sugeriram-me que se ganhasse velocidade na descida antes do rio, de maneira a que as viaturas passassem para o outro lado e depois se veria.

Concordei. Convém, todavia, dizer que a coluna era composta por jipões do tempo da segunda guerra, mais prontos para a sucata do que para o que deles se exigia, e que só andavam em virtude do “desenrascanço” característico da tropa. Ora sucedeu que, com mais ou menos sorte, o primeiro e o segundo lá passaram para o outro lado, mas o terceiro, com o salto sofrido na tentativa de atravessar o curso de água, avariou ali mesmo e já não saiu do riacho.

O mecânico, que acompanhava sempre as colunas motorizadas, começou imediatamente a trabalhar, enquanto o Sol ia descendo para o ocaso. As noites caiem depressa nos trópicos e, em pouco tempo era noite cerrada e, para o especialista continuar a tarefa foi necessário acender as luzes de uma das viaturas, de modo a iluminar o jipão avariado. Era uma situação extremamente vulnerável e, consciente disso mesmo, ordenei o reforço das sentinelas ao longo da picada, de um e do outro lado do riacho.

Horas depois, sem resolver o problema do jipão, decidi deixar o caso para o dia seguinte, tratámos de mastigar qualquer coisa e deitámo-nos para dormir.

Metade do trabalho, praticamente já feito!

Às tantas da noite um restolho fora do normal chamou a atenção de uma sentinela que, temerosa e pouco experiente (se alguém me disser que nunca teve medo…eu não acredito!), não esteve com meias medidas e disparou uma rajada de FN para o local, Toda a gente acordou e se precipitou para a água do riacho como de uma trincheira se tratasse.

Não houve mais ruído e, amanhecendo entretanto, como nada de especial detectássemos, concluímos ter sido um qualquer animal em busca de água que se assustou com a nossa presença.

Decidido a continuar a qualquer preço, mandei afastar o jipão do caminho, à força de braço e de guincho, e fiz passar, pelo lado, o jipão do guincho, com o qual mandei guindar as viaturas. Mais nenhuma avariou, Quanto àquele, não me recordo se o problema foi resolvido ou se foi a reboque.

Entrando em contacto com as forças em operações, incorporámo-nos nelas, mas, em breve, todos regressaram devido às condições do terreno e à ausência de forças inimigas.

A cereja no cimo do bolo foi o “puxão de orelhas” dado pelo Cap Art Fernando Mira que não aceitou o facto de eu ter “intervalado” a progressão da coluna. No dizer dele, um militar só pára depois de ter cumprido a missão. Nunca antes!

Aprendi a lição e, jurei a mim mesmo, tornar-me no melhor subalterno da CArt. Obviamente, não consegui, mas, pelo menos, tentei!

A segunda missão de que participei foi a reconstrução deste mesmo pontão. Mal chegados ao quartel, foi isso mesmo que me tocou em sorte! As fotos que acompanham este postal são, exactamente, dessa altura.

Pausa para a "latinha de conserva"!
Em primeiro plano, o Agostinho.

O "pontão" quase pronto!
A equipa de sentinela também quis aparecer na fotografia!
Reconhecem-se: o "Mano", o "Queijo", o Cerqueira, o Furriel Ventura, o Leite e o Horta!
Não identifico ou não me recordo do nome dos restantes.

VETERANO

domingo, 22 de março de 2009

In Memoriam --- 01- O Palhaço


Chamava-se Artur Dias dos Santos, mas era conhecido por “Palhaço Pequeno” (abreviadamente, o “Palhaço”) se bem me lembro, em virtude de uma frase de que me não recordo, mas que ele e o “Mano” (“Mano do Palhaço”) usavam a propósito de tudo e de nada.
Chegou ao RAL 1, vindo do Regimento de Infantaria 10, de Aveiro, onde fizera a recruta. Os acasos da sorte trouxeram-no ao Pelotão que eu comandava, mais tarde designado por 4º. Grupo de Combate da Cart 739. Foi destinado ao armamento pesado de infantaria, mais propriamente à Secção de metralhadoras pesadas. Iniciou a sua instrução sob a orientação directa do Furriel Miliciano Carlos Ventura, especializando-se na “Breda” que montava e desmontava em tempo recorde.
A reorganização dos diversos Grupos de Combate, acontecida já com a Companhia em acção no Norte de Angola, levou à dispersão das Secções de armamento pesado. Terá sido o Furriel Ventura quem, reconhecendo as suas grandes qualidades de soldado, impediu a sua ida para outro Grupo.
Apesar da sua especialização em metralhadora pesada, o “Palhaço", como qualquer outro soldado, actuava como atirador de infantaria. E era um excelente soldado, fino, silencioso, bom andarilho, bom “pisteiro”, com grande sentido de orientação, sóbrio e, sobretudo, com um espírito de sacrifício enorme. Além disso, gostava daquela guerra, que via, como já referi, uma vez, noutro local, como um filme de “cowboys” de que se sentia protagonista. Adaptava-se, como ninguém, à dureza daquela vida, aceitando, com a filosofia do verdadeiro soldado, a fome, a sede e o cansaço.
Quando, por razões operacionais, se verificava a necessidade de deslocações motorizadas – escoltas, protecção de colunas civis, apoio logístico, etc. – é que tinha possibilidade de usar a sua arma preferida, normalmente presa a um suporte metálico de protecção montado numa das viaturas. Vivia, esses momentos, com especial satisfação, pelo gozo proporcionado pelos tiros daquela arma de excepção.
Viveu, como todos nós, cerca de um ano no Norte de Angola. No Toto, mais precisamente. Substituídos que fomos, seguiu com o 4º. Grupo de Combate para o Mussende. À cabeceira da sua cama de beliche, vi-lhe, por esta altura e pela primeira vez, uma fotografia que exibia sempre com grande orgulho: os seus Pais e o numeroso grupo de filhos “formados”, não por alturas, como na tropa, mas por idades. Ele, salvo erro, era o mais novo daqueles 18 irmãos. Tinha sobrinhos mais velhos do que ele, o que, por qualquer razão só dele conhecida, referia com enorme vaidade.
No Mussende permaneceu algum tempo – não muito – até a Companhia ser colocada como tropa à disposição do Comando do Sector Leste e deslocada para o Lucusse.
Aqui, o "Palhaço" contribuiu com os conhecimentos que possuía da sua arte civil – trolha – para a construção do quartel. Paralelamente continuou a agir como soldado que era, incluído nas missões que os comandos destinavam à sua Companhia e ao seu Grupo de Combate.
O “Palhaço” faleceu em combate no leste de Angola, disparando a MG 42, que lhe havia sido distribuída no início da operação “Luena Grande”, sobre um grupo de assalto inimigo, naquela fatídico fim do dia 18 de Outubro de 1966.
No cemitério da localidade onde nasceu e cresceu – Arcozelo, Vila Nova de Gaia - existe hoje um pequeno memorial que lembra os cinco naturais que , como ele, morreram na Guerra do Ultramar. É um dos meus habituais lugares de meditação, sempre que lá me desloco, o que, frequentemente, acontece. Toda a sua família, tanto quanto sei, emigrou, há já muito tempo, para a África do Sul e a velha casa de seus Pais deu, há muito, lugar a um prédio de andares.