segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Lembranças de Luanda!

Nos dias que antecederam a partida permanecíamos no Campo Militar do Grafanil durante a maior parte do dia. Ao fim da tarde, a maior parte dos oficiais e sargentos, apanhava um dos transportes disponíveis e deslocava-se para Luanda.

Foram quatro dias, ou melhor, quatro noites em que muitos de nós se desforraram, por antecipação, dos longos meses em que iríamos viver longe do conforto e das distracções que a civilização proporcionava.

No que me diz respeito, e ao contrário de alguns dos camaradas do meu grupo que faziam comparações com Lisboa, gostei de Luanda logo ao primeiro contacto, salvo no que respeitava à desagradável humidade, a que, de resto, nunca me habituei.

Claro que para irmos directos aos sítios certos muito contribuiu o apoio do furriel-miliciano Rodrigues, que se revelou um cicerone de primeira água.!

Dos locais que então frequentámos, quero fazer uma referência especial à Cervejaria Portugália, que era uma espécie de ponto de encontro de tudo o que era tropa em Luanda. Quer se tratasse de militares aquartelados na cidade, quer se tratasse de pessoal em gozo de férias, em trânsito, ou em consulta externa no Hospital Militar, todos passavam pela esplanada da Portugália, que ficava debaixo de três frondosas árvores, numa espécie de ilha, na baixa da cidade. Costumava mesmo dizer-se, brincando, que a Portugália era a 5ª Repartição do Quartel General (note-se que o Q.G. tinha quatro repartições).

O local era também muito frequentado por cauteleiros, cujo negócio era, principalmente, o mercado negro de câmbio de escudos por angolares. Era uma transacção boa para ambas as partes, já que nós cambiávamos os escudos a um câmbio bem mais favorável do que ao balcão dos bancos, e eles revendiam-nos com boa margem de lucro, dada a quase impossibilidade de transferir a moeda angolana para fora do território.

Luanda 1965
Largo da Cervejaria Portugália

Para jantar, íamos à Cervejaria Amazonas um pouco mais abaixo. Outros lugares muito frequentados eram também, a Cervejaria Biker, com uma boa sala de bilhares, o Café Polo Norte, o Baleizão - célebre pelos seus excelentes gelados (embora os tais lisboetas achassem que os do Santini, em Cascais, eram muito melhores) - e a Pastelaria Versalhes, que ficava em frente à Portugália, mas que era um lugar mais “chique”.
Luanda 1965
Esplanada do Baleizão

As idas ao cinema também faziam parte do programa. E nunca esqueci a surpresa que tive quando entrei pela primeira vez no cinema Miramar. Talvez não haja nenhum outro cinema em que o nome corresponda tanto à realidade. A “sala” do cinema era uma enorme esplanada, com uma pala à maneira dos estádios de futebol e com uma vista deslumbrante sobre a baía.

Havia outros cinemas, mais ou menos modernos - o Alvalade, que ficava no Bairro com o mesmo nome (onde tinham residência os endinheirados do café, entre outros), era também muito confortável. Tinha a particularidade de ter uma espécie de painéis laterais amovíveis, que abriam ou fechavam de acordo com as condições do tempo.

Podia continuar a escrever sobre os quatro dias de Luanda, mas já me alonguei e o tema deste texto é a viagem para o Norte.
Luanda 1965
Cinema Miramar

Carlos Fonseca
CArt 738

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

A Caminho do Norte - Diário de Viagem - Parte 2

Segundo Dia: Quibala-Norte - Quartéis de destino

Retomámos a viagem no dia seguinte, e o que mais me chamou a atenção foi o elevado número de sanzalas abandonadas e completamente destruídas. Numa das paragens para distender as pernas e outros alívios, abordei o assunto com um dos condutores dos camiões, afirmando, num misto de ignorância e ingenuidade, a minha revolta pela destruição "que os sacanas dos turras tinham provocado na zona, despovoando-a". Para minha surpresa, ele disse-me que a destruição era obra da Força Aérea para evitar que se tornassem abrigo do inimigo.
Chegados ao Toto, destino final da CArt 739, as outras unidades do Batalhão separaram-se. A CCS e a CArt 740, seguiram para o Vale do Loge e a Serra da Inga, e nós seguimos para Lucunga.


Quartel do Tôto

Parámos no Bembe, onde estava uma Companhia de Caçadores e poucos quilómetros depois chegávamos à Missão do Bembe, onde já não havia missionários. O edifício onde eles habitaram durante muitos anos, tinha-se transformado no quartel da Companhia de Caçadores 715, que nos tinha preparado uma inesperada, mas muito agradável recepção. À nossa espera estava uma longa mesa, posta com comida e bebidas para reconforto dos nossos estômagos, há dois dias a ração de combate.

Missão do Bembe

A forma hospitaleira como fomos recebidos, marcou-nos profundamente e, foi o princípio de uma de uma amizade que nalguns casos ainda se mantém. Por exemplo, a foto da Missão que ilustra este texto, foi-me enviada pelo antigo furriel-miliciano Carlos Cristóvão, daquela Companhia.
Duas horas depois, ao anoitecer, chegámos ao nosso destino.
Na prática o "quartel" de Lucunga era constituído por quase todas as moradias da povoação (que tinham sido abandonadas - e muitas destruídas - em Março de 1961), que se estendia por algumas centenas de metros ao longo da estrada.

À primeira impressão parecia um lugar simpático. Mas sobre isso espero poder "falar" no futuro. Afinal, só queria escrever sobre a viagem..."

Carlos Fonseca

CArt 738

sábado, 23 de Janeiro de 2010

A Caminho do Norte - Diário de Viagem - Parte 1

Primeiro Dia: Luanda - Quibala-Norte

A nossa partida de Luanda para o Norte teve lugar na manhã de 23 de Janeiro de 1965.

Sabíamos que o nosso destino - no caso da Cart 738, era Lucunga - seria, previsivelmente, menos perigoso que Zala, Nambuangongo, ou qualquer local dos Dembos, mas tinhamos a cabeça cheia de relatos feitos em Luanda por camaradas mais antigos, que nos falavam de emboscadas, minas nas estradas/“picadas”, armadilhas, etc., que diziam ser frequentes naquela zona.

Partimos - tendo como meio de transporte uma coluna de camiões de reabastecimento - com um misto de ansiedade e apreensão pelo que nos esperava. A primeira paragem teve lugar na localidade do Caxito, já a norte de Luanda, onde muitos habitantes aproveitaram para nos vender cocos, bananas e outros frutos, e que serviu para descontrair um pouco.

Já perto da hora do almoço, passávamos num local em que a estrada se “afundava” entre duas encostas densamente arborizadas, quando foi dada ordem de paragem, para fazermos um primeiro contacto com a mata angolana. Cada secção recebeu ordem de entrar em determinada zona da mata e avançar em patrulha.

Não estava prevista esta acção e o receio daquele primeiro contacto com o que julgávamos ser algo parecido com a realidade que nos esperava, assustou. O medo era tal que não consegui que a progressão se fizesse de acordo com os manuais, e o mesmo se passou com a maioria das secções. Enquanto comandante de secção devia ir no terceiro lugar da fila, mas a verdade é que não consegui que alguém avançasse à minha frente. Quando eu parava, paravam todos. Pareciam pintos à espera que a mãe galinha indicasse o caminho.

Naturalmente, a ideia da entrada na mata não passava de um exercício que não oferecia qualquer perigo, mas quem é que acreditava nisso? O cenário era um pouco assustador. Mas era só cenário.

Em muitas zonas o caminho era ladeado por árvores que desconhecíamos e que nos informaram chamar-se mangueiras, cujo fruto era a manga. Numa das paragens experimentámos colher e comer esses frutos. No que me toca, achei que a manga, com o seu paladar tão especial, devia ter feito parte do pomar do Paraíso.

Ao fim da tarde chegámos a Quibala-Norte, onde iriamos pernoitar.

Quibala-Norte: o aquartelamento

O quartel, constituído por edificações prefabricadas, de madeira, situava-se num local isolado.

Dormi, tal como aconteceria na primeira semana, em Lucunga, num desconfortável "burro" de campanha. Tratava-se de uma armação com pés em cruz, dobráveis, sendo a "cama" constituída por uma lona que se fixava à armação. Nalgumas zonas do Brasil é chamada "cama de vento". Em Portugal era muito usada nalguns dormitórios da C.P e chamavam-lhe "cama-volante".

(Continua)

Carlos Fonseca

CArt 738

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Faz hoje 45 anos!...

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Almeida, Fonseca, Babo, Miranda Dias e Mourão

Depois de nove dias de viagem, o navio Vera Cruz atracou no porto de Luanda ao princípio da manhã de 18 de Janeiro de 1965.

Depois das emoções da despedida a viagem decorreu – tanto quanto me recordo - sem episódios dignos de registo. Os oficiais e os sargentos, viajaram confortavelmente, instalados em 1ª e 2ª classes, respectivamente. Já no que respeita aos praças, as acomodações eram menos confortáveis, sobretudo para os que, não tendo lugar nos já de si apinhados camarotes de 3ª classe, se viram obrigados a dormir em beliches, instalados em tudo o que fosse espaço vago, incluindo os corredores.

Na 2ª classe, não só tínhamos boas acomodações, mas também usufruiamos de um serviço quase luxuoso. As refeições estavam ao nível de um hotel de quatro estrelas, incluindo pequeno almoço à inglesa e um lanche de se lhe tirar o chapéu.

Às cinco da tarde abria o bar, onde podíamos escolher toda a espécie de bebidas, incluindo cocktails que a maioria de nós só conhecia da leitura de romances.

Ao serão podíamos assistir, numa noite, à projecção de um filme, na seguinte, à exibição de um conjunto musical (fracote). Quer um, quer outro espectáculo tinham lugar alternadamente na 1ª e na 2ª classes.

A parte menos simpática tinha lugar a seguir ao almoço, altura em que, ao toque da sereia do navio, tinha lugar um exercício de salvamento, que terminava sempre com o pessoal a cantar a célebre “Angola é nossa” (e a maior parte dos “passageiros” pensava que Angola era mesmo nossa. Afinal era engano...).
Paquete Vera Cruz - Salão

O resto do tempo era aproveitado ao gosto de cada um. Lia-se, ouvia-se música, jogava-se (muitas vezes a “doer”). Ao fim de três ou quatro dias de viagem a temperatura subiu e a piscina começou a ser muito frequentada.

Além disso conversava-se muito, sobretudo, especulando sobre qual seria a zona de Angola que nos esperava.

Aliás, este era um tema recorrente na 2ª classe, entre os camaradas dos três batalhões que seguiam a bordo. Sabiamos que havia três destinos: Zala, o mais perigoso de todos e talvez a mais perigosa zona do Norte de Angola, Vale do Loge, e salvo erro, o terceiro era Ambriz.

Como o comandante do nosso Batalhão tinha vindo de Zala, onde era segundo comandante do Batalhão que ia ser substituido, os camaradas dos outros Batalhões achavam que seria esse o nosso destino. Em boa verdade, também nós, no BART 741, achávamos que talvez a teoria fizesse sentido e receávamos (muito) que a previsão se concretizasse.
Momentos de descontracção...

Um ou dois dias antes da chegada, ficámos a saber, com enorme alívio (mesmo não tendo qualquer informação sobre o que nos esperava nos locais de destino), que o comando do nosso Batalhão ficaria colocado no antigo colonato do Vale do Loge, com as companhias distribuídas por Lucunga (738), Toto (739) e Serra da Inga (740).

A chegada a Luanda não foi um dia particularmente feliz para a generalidade dos contingentes que iam desembarcar. Alguns - poucos - praças da minha Companhia choravam, desolados, contemplando as barrocas de terra vermelha e queixando-se igualmente do calor e da humidade que se fazia sentir. Dávamos, quase todos, um enorme “salto” no desconhecido, com pouco mais de 20 inexperientes anos.
Luanda - O porto
O estado de espírito não melhorou quando vimos o meio de transporte que nos levaria do porto de Luanda até ao quartel, no Grafanil, onde as unidades permaneceriam até à partida para o Norte. Tratava-se de um longo combóio, tendo apenas meia dúzia de carruagens de passageiros, sendo a restante composição constituida por vagões de mercadorias, fechados, com uma larga porta de cada lado, onde viajámos um pouco em condições semelhantes às do gado. O trajecto foi feito através de muceques onde a miséria era evidente, o que também não ajudou a melhorar a situação. Nestas circunstâncias, o moral não era particularmente elevado quando, chegados ao Grafanil, saltámos dos vagões para o terreno arenoso.

Depois de formados, desfilámos ao longo do quartel. Nessa manhã, a minha Companhia deve ter proporcionado ao capitão Rubi Marques, o que terá sido talvez a maior contrariedade que teve com o pessoal durante todo o ano que permaneceu connosco.

Durante o tempo de instrução no antigo RAL 1 fomos treinando, por sua iniciativa, uma espectacular forma de marchar a que ele chamava “ o passo de parada”. Exibimo-lo algumas vezes, a última das quais, durante o desfile no Cais da Rocha Conde d'Óbidos. Só que, no Grafanil, como se tivesse havido combinação, o “passo de parada” não saiu. Apesar das repetidas ordens, o pessoal andava mais do que marchava. O nosso comandante de Companhia, estava mais que descontente; estava furioso.

Mas o pior estava para vir. Não estávamos à espera que os alojamentos fossem luxuosos, mas esperávamos, talvez, ficar instalados em edificações pre-fabricadas. Porém, o que nos saiu para passarmos os cinco dias que ali ficariamos foram pequenas tendas de três panos, para alojar, cada uma, três militares e as respectivas bagagens. Aí ninguém calou o descontentamento. Cumpridor das normas, o capitão Rubi Marques avisou que todos (incluindo ele próprio) ficariam nas tendas.
Sucede que da minha Companhia fazia parte o furriel-miliciano José Rodrigues que, sendo o mais jovem dos sargentos, ia fazer a segunda comissão em Angola (por troca com um camarada), pois tinha assentado praça voluntariamente aos 18 anos. E a sua experiência foi decisiva para um pequeno grupo de que fiz parte, se “desenfiar”, evitando pernoitar nas malfadadas tendas.

Disse-nos o Rodrigues que estavam sempre a sair transportes do Grafanil para Luanda, e vice-versa. Bastaria que fossemos até à porta de armas e tomássemos lugar num desses transportes. Assim fizemos e em Luanda ficámos numa moradia, na Avenida Marechal Carmona, cuja dona ele já conhecia, e que funcionava como pensão de militares.

Nessa primeira noite, foi nosso cicerone. Deitámo-nos tarde, pedindo que nos acordassem às seis horas. Nem tomámos pequeno-almoço. Apanhámos dois táxis e seguimos para o Grafanil, onde aparentemente quem de direito não deu pela nossa falta. É claro que a nossa saída era do conhecimento de alguns. E, embora acabasse por chegar mais acima, não teve consequências.

Os camaradas que lá tinham pernoitado pouco ou nada dormiram. Os mosquitos atacaram em força, deixando as marcas das picadas na maior parte do pessoal. Dentro da minha tenda, que tinha ficado só com a bagagem, havia uma nuvem de mosquitos. Do que nos livrámos...

Nesse dia, e nos seguintes, as ordens foram alteradas. O comandante da Companhia autorizou a dormida em Luanda, excepto, naturalmente, a quem estava de serviço.

E, ao fim da tarde, lá partíamos à descoberta da cidade e à recarga das baterias para a permanência no “mato” ,que nos esperava.

Carlos Fonseca
CArt 738
Luanda - Avenida Marechal Carmona

sábado, 16 de Janeiro de 2010

Tôto - Destacamento de Intendência

No seguimento do nosso postal de 30.Nov.2009, "Escoltas", fomos, como já referimos, agradavelmente surpreendidos pelo contacto, via "mail", do ex-Alf Mil SAM, Emanuel Fronteira, emigrante no Canadá há cerca de 30 anos.

Embora não o referindo expressamente, esteve sempre presente no nosso espírito, desde que iniciámos este trabalho, a possibilidade de encontrarmos alguns camaradas que, por força de determinadas circunstâncias, não mantiveram qualquer vínculo com outros elementos do Batalhão e que, por esse facto, não puderam ainda experimentar as alegrias do reencontro na sempre agradável atmosfera das nossas confraternizações.

Embora poucos, alguns casos vão acontecendo, como o do camarada acima referido, o que, inequivocamente, nos anima a continuar o nosso propósito.

Em "mail" recebido ontem, o Emanuel lamentava, sem dúvida com alguma tristeza, não ter qualquer contacto dos seus antigos soldados, sobretudo daqueles que, com ele, serviram no Tôto. Daí a razão deste pequeno postal em que, publicando uma sua fotografia da época - recorte fotográfico de uma foto de grupo, tirada no aeródromo de manobra do Tôto - o fazemos na esperança de que, alguns deles, a possam ver. Se tal acontecer, o autor do blogue, uma vez contactado, disponibilizará o endereço electrónico do Emanuel.

VETERANO

sábado, 9 de Janeiro de 2010

Um Bom Ano Novo de 2010

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Vera Cruz

Partida

Resolvemos encimar este postal com a foto do navio que nos transportou para (e de, também) Angola: o paquete Vera Cruz. Cumpre-se hoje o 45º. aniversário da nossa partida e comemoraremos, dentro de dias, idêntico aniversário relativamente ao desembarque em Luanda. Temos preparado, para esse dia, um postal que nos foi remetido pelo camarada Carlos Fonseca, da CArt738.

Propósito

Terminado o período das festas natalícias, eis-nos regressados à nossa rotina diária. Para já, o blogue, compromisso que assumimos há um ano e que queremos manter enquanto pudermos. Ao mesmo tempo, iniciam-se as preocupações da próxima confraternização, com a selecção do local. Ainda não decidimos. Vamos falar com uns quantos camaradas, residentes por perto, e escolher, depois. Se alguém quiser mandar sugestões, que não hesite.

Emanuel Fronteira

Nos últimos dias de 2009 fomos agradavelmente surpreendidos pelo contacto de um camarada que, não sendo do nosso Bart 741, conviveu, porém, connosco no Tôto. Trata-se do ex-Alferes Emanuel Fronteira, a viver no Canadá desde 1977 e que foi comandante do Destacamento de Intendência. Publicamos, aqui, uma fotografia, que o próprio nos enviou. É o de óculos escuros, que está sentado à esquerda do Dr. Terrinha. Prometemos voltar a referi-lo neste local.

VETERANO

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

O Primeiro Natal Ultramarino

Votos de um Santo Natal

Na CArt 739 (e julgo que em todo o Bart741) predominava a gente do Norte. Minhotos, transmontanos, durienses, beirões… tudo gente de costumes enraizados, transmitidos ao longo de gerações, já que a televisão e, mais recentemente, a globalização das comunicações, ainda não abastardara a nossa cultura tradicional.

O Natal, à época, tinha um sentido que, hoje, já raramente se vai encontrando. O consumismo natalício chegou algum tempo mais tarde. As prendas, quando as havia, tinham subjacente uma ideia de utilidade e a festa propriamente dita tinha o cunho religioso do acontecimento que se comemorava. A ceia congregava a família – e quantos vinham de longe para estarem juntos… – e eram raros os locais onde se não terminava a noite sem a Missa do Galo. Era assim, então, pelo menos no Norte.

O Natal de 1965 foi, para muitos de nós, o primeiro passado longe da família. Um Natal diferente, pese embora não tivesse faltado o tradicional bacalhau cozido. Vivido entre camaradas de armas, em época de calor sufocante e com alguns receios à mistura (não fosse o inimigo aproveitar a data…). A saudade agudizava-se e, por vezes, verificava-se alguma “bebidazinha” a mais, geralmente sem consequências.

O Movimento Nacional Feminino enviou, a todos nós, um pequeno presente. Algum tempo antes, tinha passado pelo quartel uma equipa dos serviços de Informação do Exército que recolheu as mensagens destinadas às famílias dos soldados, que geralmente terminavam com o habitual “Adeus, até ao meu regresso”. Na CArt739 foi muito comentada uma de um dos nossos soldados - não nos recordamos de quem - que mandou saudades, não apenas para os seus familiares, mas também para os animais da casa, sobretudo para o seu burro!

Tivemos, porém, uma agradável surpresa. Havia, no local, uma enorme fazenda que pertencia a um tal Cid Adão, homem rico e um dos primeiros brancos – se não mesmo o primeiro – a estabelecerem-se por aquelas paragens. Por lá aparecia raramente, o que não impediu de recomendar ao seu feitor que nos fizesse chegar, se a memória me não falha, um abundante e variadíssimo cabaz de fruta que fez as delícias da tropa.

Quarenta e quatro anos depois queremos aqui deixar os nossos melhores votos, a todos quantos nos lêem, de um Santo e Feliz Natal gozado no seio amigo de suas Famílias.

VETERANO

P.S.

Daquele civil se contava uma pequena história. Um dia, em Luanda, alguém o apresentou a outra pessoa como “o Sr. Cid Adão, do Tôto”. O outro, interessado, perguntou-lhe imediatamente: Então o Sr. é que é o Cid Adão do Tôto? Ao que ele respondeu: Não, está enganado, o Tôto é que é do Cid Adão.

V.

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Saudade e Folclore

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1965
Vista do Tôto

Havia quem dissesse que os períodos mais difíceis de suportar durante uma comissão no Ultramar eram os dois ou três meses iniciais e finais. Isto, obviamente, no que respeitava às saudades de casa, da terra e dos amigos e familiares que tínhamos deixado para trás quando embarcámos.

Hoje, tantos anos passados e por aquilo de que nos lembramos, reconhecemos que, efectivamente, tinha razão quem tal afirmava. Por vezes preferia-se estar fora, no mato, porque as preocupações da actividade operacional faziam, de algum modo, esquecer as saudades daqueles que nos eram queridos, saudades que regressavam em força quando, dentro do arame farpado, nos sentíamos mais tranquilos pela segurança que, geralmente, ele proporcionava. Como era o caso do Tôto.

Na messe de oficiais prestavam serviço, como ordenanças, dois soldados. Eram ambos minhotos de gema, um de Viana do Castelo – e que por isso, cremos, lhe chamavam o “Viana” - e um outro, ali dos lados de Guimarães, Horácio de seu nome. O “Viana”, tanto quanto nos constou, faleceu muito pouco tempo após o regresso, mas o Horácio felizmente vivo, é presença assídua nos nossos convívios anuais.

Sucedia, por vezes, reunirmo-nos na varanda que encimava as escadas exteriores de acesso à messe, aproveitando o fresco da noite, daquelas esplêndidas noites africanas onde miríades de estrelas, resplandecendo como diamantes, povoavam um céu infinito. Sem darmos por isso, a conversa, por vezes, esmorecia, porque a ela se sobrepunham as vozes daqueles dois, cantando em uníssono velhas canções do nosso folclore minhoto! No silêncio da escuta, o nosso pensamento rapidamente galgava a distância que nos separava de casa, trazendo-nos à memória, pais, namorada, mulher e, no meu caso até, o filho que ainda não conhecia. E a saudade recrudescia até o coração doer…

VETERANO

PS. Não queremos encerrar o postal sem deixar aqui a letra, tanto quanto dela nos recordamos, de uma das canções que o Horácio e o “Viana” cantavam. Julgamos tratar-se de uma canção popular bastante conhecida, mas foi, pela voz daqueles camaradas, que a ouvimos pela primeira vez. É que somos um citadino que só alguns anos depois descobriu o campo e toda a beleza que ele encerra (ou encerrava, já que a construção que por lá se vê não é, propriamente, paradigma do Belo. Enfim…).

Mas aqui vai o que nos recordamos:

Era meia-noite e cantava o cuquinho./Era meia-noite, no seu pinheirinho/Era meia-noite e cantava o cuquinho,/Cucu, cucu, cucu coitadinho!

Era meia-noite e cantava o grilinho./Era meia-noite, no seu buraquinho./Era meia-noite e cantava o grilinho,/Gri-gri, gri-gri, gri-gri coitadinho!

…E de mais não nos lembramos!

V.

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

"EM NOME DA PÁTRIA"

Tive, hoje, a honra de estar presente na sessão de apresentação do livro “EM NOME DA PÁTRIA” da autoria do Tenente-Coronel Piloto Aviador João José Brandão Ferreira, que se realizou no antigo Quartel-General da Região Militar do Porto, actualmente o Comando do Pessoal do Exército.

A apresentação do livro coube ao Dr. Miguel de Lucena e Corte Real, ilustre causídico e ex-combatente em Moçambique.

EM NOME DA PÁTRIA é um livro cuja leitura vivamente recomendo.

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segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Escoltas

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1965
Quartel do Tôto

No perímetro do Tôto, para além da CArt 739, encontravam-se aquartelados, em 1965, um Pelotão de Apoio Directo (PAD), inicialmente comandado pelo Alf Braga e, posteriormente, pelo Ten Pesca e cuja missão consistia em apoiar o Subsector em tudo o que respeitava a material rolante e um Destacamento da Intendência (DI), inicialmente comandante pelo Alf Lucena e, mais tarde pelo Alf Emanuel Fronteira e que recebia, armazenava e distribuía pelas diversas Companhias os géneros alimentares, fardamento, artigos de higiene, tabaco, enfim, tudo quanto era necessário ao normal dia-a-dia da tropa.

Esta circunstância obrigava a que, de Luanda e com a uma regularidade praticamente quinzenal, partissem, com destino ao Tôto, grandes colunas de viaturas civis com os abastecimentos. Estas colunas eram escoltadas por militares das diversas unidades por onde iam passando, até chegarem ao destino. Permaneciam no Tôto o tempo necessário à descarga – geralmente um ou dois dias - e regressavam, escoltadas até Quibala, habitualmente por dois Grupos de Combate da CArt 739.

Estas operações de escolta não eram muito agradáveis de realizar. Estabeleceu-se, por isso, uma escala de escoltas independente da escala da actividade operacional propriamente dita. A protecção desta coluna, que na estrada se estendia, às vezes, por quilómetros, era uma autêntica operação de guerra, envolvendo, pelo menos, dois GC equipados com armamento pesado de infantaria, os meios-rádio possíveis, vários “Unimogs” e, pelo menos uma “GMC que, carregada de sacos de terra, seguia à frente como protecção contra minas. Fazíamos a escolta até Quibala e regressávamos quase imediatamente, tentando ainda aproveitar a luz do dia.

Apenas mais um apontamento com o seu quê de superstição: à saída dos aquartelamentos, uns quantos quilómetros percorridos, fazia-se a “experiência da Breda”. A "Breda" era uma excelente metralhadora pesada, de tiro muito preciso, embora de cadência relativamente lenta. Usávamo-la montada num suporte metálico com uma antepara em chapa de ferro bastante espessa que servia de protecção ao atirador. O municiamento era feito por meio de láminas que se colocavam lateralmente. A paragem da coluna para a experiência era “obrigatória”, mas implicava sempre uma explicação prévia aos motoristas das viaturas civis, para que não pensassem tratar-se de algum ataque inimigo.

Estrada Tôto-Quibala - 1965
Regresso da coluna de reabastecimento