


Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março



Retomámos a viagem no dia seguinte, e o que mais me chamou a atenção foi o elevado número de sanzalas abandonadas e completamente destruídas. Numa das paragens para distender as pernas e outros alívios, abordei o assunto com um dos condutores dos camiões, afirmando, num misto de ignorância e ingenuidade, a minha revolta pela destruição "que os sacanas dos turras tinham provocado na zona, despovoando-a". Para minha surpresa, ele disse-me que a destruição era obra da Força Aérea para evitar que se tornassem abrigo do inimigo.
Chegados ao Toto, destino final da CArt 739, as outras unidades do Batalhão separaram-se. A CCS e a CArt 740, seguiram para o Vale do Loge e a Serra da Inga, e nós seguimos para Lucunga.

Quartel do Tôto
Parámos no Bembe, onde estava uma Companhia de Caçadores e poucos quilómetros depois chegávamos à Missão do Bembe, onde já não havia missionários. O edifício onde eles habitaram durante muitos anos, tinha-se transformado no quartel da Companhia de Caçadores 715, que nos tinha preparado uma inesperada, mas muito agradável recepção. À nossa espera estava uma longa mesa, posta com comida e bebidas para reconforto dos nossos estômagos, há dois dias a ração de combate.

Missão do Bembe
A forma hospitaleira como fomos recebidos, marcou-nos profundamente e, foi o princípio de uma de uma amizade que nalguns casos ainda se mantém. Por exemplo, a foto da Missão que ilustra este texto, foi-me enviada pelo antigo furriel-miliciano Carlos Cristóvão, daquela Companhia.
Duas horas depois, ao anoitecer, chegámos ao nosso destino.
Na prática o "quartel" de Lucunga era constituído por quase todas as moradias da povoação (que tinham sido abandonadas - e muitas destruídas - em Março de 1961), que se estendia por algumas centenas de metros ao longo da estrada.

Carlos Fonseca
CArt 738
Partimos - tendo como meio de transporte uma coluna de camiões de reabastecimento - com um misto de ansiedade e apreensão pelo que nos esperava. A primeira paragem teve lugar na localidade do Caxito, já a norte de Luanda, onde muitos habitantes aproveitaram para nos vender cocos, bananas e outros frutos, e que serviu para descontrair um pouco.
Já perto da hora do almoço, passávamos num local em que a estrada se “afundava” entre duas encostas densamente arborizadas, quando foi dada ordem de paragem, para fazermos um primeiro contacto com a mata angolana. Cada secção recebeu ordem de entrar em determinada zona da mata e avançar em patrulha.
Não estava prevista esta acção e o receio daquele primeiro contacto com o que julgávamos ser algo parecido com a realidade que nos esperava, assustou. O medo era tal que não consegui que a progressão se fizesse de acordo com os manuais, e o mesmo se passou com a maioria das secções. Enquanto comandante de secção devia ir no terceiro lugar da fila, mas a verdade é que não consegui que alguém avançasse à minha frente. Quando eu parava, paravam todos. Pareciam pintos à espera que a mãe galinha indicasse o caminho.
Naturalmente, a ideia da entrada na mata não passava de um exercício que não oferecia qualquer perigo, mas quem é que acreditava nisso? O cenário era um pouco assustador. Mas era só cenário.
Em muitas zonas o caminho era ladeado por árvores que desconhecíamos e que nos informaram chamar-se mangueiras, cujo fruto era a manga. Numa das paragens experimentámos colher e comer esses frutos. No que me toca, achei que a manga, com o seu paladar tão especial, devia ter feito parte do pomar do Paraíso.
Ao fim da tarde chegámos a Quibala-Norte, onde iriamos pernoitar.

Quibala-Norte: o aquartelamento
O quartel, constituído por edificações prefabricadas, de madeira, situava-se num local isolado.
Dormi, tal como aconteceria na primeira semana, em Lucunga, num desconfortável "burro" de campanha. Tratava-se de uma armação com pés em cruz, dobráveis, sendo a "cama" constituída por uma lona que se fixava à armação. Nalgumas zonas do Brasil é chamada "cama de vento". Em Portugal era muito usada nalguns dormitórios da C.P e chamavam-lhe "cama-volante".
(Continua)
Carlos Fonseca
CArt 738








Vera Cruz
Partida
Resolvemos encimar este postal com a foto do navio que nos transportou para (e de, também) Angola: o paquete Vera Cruz. Cumpre-se hoje o 45º. aniversário da nossa partida e comemoraremos, dentro de dias, idêntico aniversário relativamente ao desembarque em Luanda. Temos preparado, para esse dia, um postal que nos foi remetido pelo camarada Carlos Fonseca, da CArt738.
Propósito
Terminado o período das festas natalícias, eis-nos regressados à nossa rotina diária. Para já, o blogue, compromisso que assumimos há um ano e que queremos manter enquanto pudermos. Ao mesmo tempo, iniciam-se as preocupações da próxima confraternização, com a selecção do local. Ainda não decidimos. Vamos falar com uns quantos camaradas, residentes por perto, e escolher, depois. Se alguém quiser mandar sugestões, que não hesite.
Emanuel Fronteira
Nos últimos dias de 2009 fomos agradavelmente surpreendidos pelo contacto de um camarada que, não sendo do nosso Bart 741, conviveu, porém, connosco no Tôto. Trata-se do ex-Alferes Emanuel Fronteira, a viver no Canadá desde 1977 e que foi comandante do Destacamento de Intendência. Publicamos, aqui, uma fotografia, que o próprio nos enviou. É o de óculos escuros, que está sentado à esquerda do Dr. Terrinha. Prometemos voltar a referi-lo neste local.

Na CArt 739 (e julgo que em todo o Bart741) predominava a gente do Norte. Minhotos, transmontanos, durienses, beirões… tudo gente de costumes enraizados, transmitidos ao longo de gerações, já que a televisão e, mais recentemente, a globalização das comunicações, ainda não abastardara a nossa cultura tradicional.
O Natal, à época, tinha um sentido que, hoje, já raramente se vai encontrando. O consumismo natalício chegou algum tempo mais tarde. As prendas, quando as havia, tinham subjacente uma ideia de utilidade e a festa propriamente dita tinha o cunho religioso do acontecimento que se comemorava. A ceia congregava a família – e quantos vinham de longe para estarem juntos… – e eram raros os locais onde se não terminava a noite sem a Missa do Galo. Era assim, então, pelo menos no Norte.
O Natal de 1965 foi, para muitos de nós, o primeiro passado longe da família. Um Natal diferente, pese embora não tivesse faltado o tradicional bacalhau cozido. Vivido entre camaradas de armas, em época de calor sufocante e com alguns receios à mistura (não fosse o inimigo aproveitar a data…). A saudade agudizava-se e, por vezes, verificava-se alguma “bebidazinha” a mais, geralmente sem consequências.
O Movimento Nacional Feminino enviou, a todos nós, um pequeno presente. Algum tempo antes, tinha passado pelo quartel uma equipa dos serviços de Informação do Exército que recolheu as mensagens destinadas às famílias dos soldados, que geralmente terminavam com o habitual “Adeus, até ao meu regresso”. Na CArt739 foi muito comentada uma de um dos nossos soldados - não nos recordamos de quem - que mandou saudades, não apenas para os seus familiares, mas também para os animais da casa, sobretudo para o seu burro!
Tivemos, porém, uma agradável surpresa. Havia, no local, uma enorme fazenda que pertencia a um tal Cid Adão, homem rico e um dos primeiros brancos – se não mesmo o primeiro – a estabelecerem-se por aquelas paragens. Por lá aparecia raramente, o que não impediu de recomendar ao seu feitor que nos fizesse chegar, se a memória me não falha, um abundante e variadíssimo cabaz de fruta que fez as delícias da tropa.
Quarenta e quatro anos depois queremos aqui deixar os nossos melhores votos, a todos quantos nos lêem, de um Santo e Feliz Natal gozado no seio amigo de suas Famílias.
VETERANO
Daquele civil se contava uma pequena história. Um dia, em Luanda, alguém o apresentou a outra pessoa como “o Sr. Cid Adão, do Tôto”. O outro, interessado, perguntou-lhe imediatamente: Então o Sr. é que é o Cid Adão do Tôto? Ao que ele respondeu: Não, está enganado, o Tôto é que é do Cid Adão.
V.

Havia quem dissesse que os períodos mais difíceis de suportar durante uma comissão no Ultramar eram os dois ou três meses iniciais e finais. Isto, obviamente, no que respeitava às saudades de casa, da terra e dos amigos e familiares que tínhamos deixado para trás quando embarcámos.
Hoje, tantos anos passados e por aquilo de que nos lembramos, reconhecemos que, efectivamente, tinha razão quem tal afirmava. Por vezes preferia-se estar fora, no mato, porque as preocupações da actividade operacional faziam, de algum modo, esquecer as saudades daqueles que nos eram queridos, saudades que regressavam em força quando, dentro do arame farpado, nos sentíamos mais tranquilos pela segurança que, geralmente, ele proporcionava. Como era o caso do Tôto.
Na messe de oficiais prestavam serviço, como ordenanças, dois soldados. Eram ambos minhotos de gema, um de Viana do Castelo – e que por isso, cremos, lhe chamavam o “Viana” - e um outro, ali dos lados de Guimarães, Horácio de seu nome. O “Viana”, tanto quanto nos constou, faleceu muito pouco tempo após o regresso, mas o Horácio felizmente vivo, é presença assídua nos nossos convívios anuais.
Sucedia, por vezes, reunirmo-nos na varanda que encimava as escadas exteriores de acesso à messe, aproveitando o fresco da noite, daquelas esplêndidas noites africanas onde miríades de estrelas, resplandecendo como diamantes, povoavam um céu infinito. Sem darmos por isso, a conversa, por vezes, esmorecia, porque a ela se sobrepunham as vozes daqueles dois, cantando em uníssono velhas canções do nosso folclore minhoto! No silêncio da escuta, o nosso pensamento rapidamente galgava a distância que nos separava de casa, trazendo-nos à memória, pais, namorada, mulher e, no meu caso até, o filho que ainda não conhecia. E a saudade recrudescia até o coração doer…
VETERANO
PS. Não queremos encerrar o postal sem deixar aqui a letra, tanto quanto dela nos recordamos, de uma das canções que o Horácio e o “Viana” cantavam. Julgamos tratar-se de uma canção popular bastante conhecida, mas foi, pela voz daqueles camaradas, que a ouvimos pela primeira vez. É que somos um citadino que só alguns anos depois descobriu o campo e toda a beleza que ele encerra (ou encerrava, já que a construção que por lá se vê não é, propriamente, paradigma do Belo. Enfim…).
Mas aqui vai o que nos recordamos:
Era meia-noite e cantava o cuquinho./Era meia-noite, no seu pinheirinho/Era meia-noite e cantava o cuquinho,/Cucu, cucu, cucu coitadinho!
Era meia-noite e cantava o grilinho./Era meia-noite, no seu buraquinho./Era meia-noite e cantava o grilinho,/Gri-gri, gri-gri, gri-gri coitadinho!
…E de mais não nos lembramos!
Tive, hoje, a honra de estar presente na sessão de apresentação do livro “EM NOME DA PÁTRIA” da autoria do Tenente-Coronel Piloto Aviador João José Brandão Ferreira, que se realizou no antigo Quartel-General da Região Militar do Porto, actualmente o Comando do Pessoal do Exército.
A apresentação do livro coube ao Dr. Miguel de Lucena e Corte Real, ilustre causídico e ex-combatente em Moçambique.
EM NOME DA PÁTRIA é um livro cuja leitura vivamente recomendo.


Esta circunstância obrigava a que, de Luanda e com a uma regularidade praticamente quinzenal, partissem, com destino ao Tôto, grandes colunas de viaturas civis com os abastecimentos. Estas colunas eram escoltadas por militares das diversas unidades por onde iam passando, até chegarem ao destino. Permaneciam no Tôto o tempo necessário à descarga – geralmente um ou dois dias - e regressavam, escoltadas até Quibala, habitualmente por dois Grupos de Combate da CArt 739.
Estas operações de escolta não eram muito agradáveis de realizar. Estabeleceu-se, por isso, uma escala de escoltas independente da escala da actividade operacional propriamente dita. A protecção desta coluna, que na estrada se estendia, às vezes, por quilómetros, era uma autêntica operação de guerra, envolvendo, pelo menos, dois GC equipados com armamento pesado de infantaria, os meios-rádio possíveis, vários “Unimogs” e, pelo menos uma “GMC que, carregada de sacos de terra, seguia à frente como protecção contra minas. Fazíamos a escolta até Quibala e regressávamos quase imediatamente, tentando ainda aproveitar a luz do dia.
Apenas mais um apontamento com o seu quê de superstição: à saída dos aquartelamentos, uns quantos quilómetros percorridos, fazia-se a “experiência da Breda”. A "Breda" era uma excelente metralhadora pesada, de tiro muito preciso, embora de cadência relativamente lenta. Usávamo-la montada num suporte metálico com uma antepara em chapa de ferro bastante espessa que servia de protecção ao atirador. O municiamento era feito por meio de láminas que se colocavam lateralmente. A paragem da coluna para a experiência era “obrigatória”, mas implicava sempre uma explicação prévia aos motoristas das viaturas civis, para que não pensassem tratar-se de algum ataque inimigo.
