Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Primeiro Natal Ultramarino

Votos de um Santo Natal

Na CArt 739 (e julgo que em todo o Bart741) predominava a gente do Norte. Minhotos, transmontanos, durienses, beirões… tudo gente de costumes enraizados, transmitidos ao longo de gerações, já que a televisão e, mais recentemente, a globalização das comunicações, ainda não abastardara a nossa cultura tradicional.

O Natal, à época, tinha um sentido que, hoje, já raramente se vai encontrando. O consumismo natalício chegou algum tempo mais tarde. As prendas, quando as havia, tinham subjacente uma ideia de utilidade e a festa propriamente dita tinha o cunho religioso do acontecimento que se comemorava. A ceia congregava a família – e quantos vinham de longe para estarem juntos… – e eram raros os locais onde se não terminava a noite sem a Missa do Galo. Era assim, então, pelo menos no Norte.

O Natal de 1965 foi, para muitos de nós, o primeiro passado longe da família. Um Natal diferente, pese embora não tivesse faltado o tradicional bacalhau cozido. Vivido entre camaradas de armas, em época de calor sufocante e com alguns receios à mistura (não fosse o inimigo aproveitar a data…). A saudade agudizava-se e, por vezes, verificava-se alguma “bebidazinha” a mais, geralmente sem consequências.

O Movimento Nacional Feminino enviou, a todos nós, um pequeno presente. Algum tempo antes, tinha passado pelo quartel uma equipa dos serviços de Informação do Exército que recolheu as mensagens destinadas às famílias dos soldados, que geralmente terminavam com o habitual “Adeus, até ao meu regresso”. Na CArt739 foi muito comentada uma de um dos nossos soldados - não nos recordamos de quem - que mandou saudades, não apenas para os seus familiares, mas também para os animais da casa, sobretudo para o seu burro!

Tivemos, porém, uma agradável surpresa. Havia, no local, uma enorme fazenda que pertencia a um tal Cid Adão, homem rico e um dos primeiros brancos – se não mesmo o primeiro – a estabelecerem-se por aquelas paragens. Por lá aparecia raramente, o que não impediu de recomendar ao seu feitor que nos fizesse chegar, se a memória me não falha, um abundante e variadíssimo cabaz de fruta que fez as delícias da tropa.

Quarenta e quatro anos depois queremos aqui deixar os nossos melhores votos, a todos quantos nos lêem, de um Santo e Feliz Natal gozado no seio amigo de suas Famílias.

VETERANO

P.S.

Daquele civil se contava uma pequena história. Um dia, em Luanda, alguém o apresentou a outra pessoa como “o Sr. Cid Adão, do Tôto”. O outro, interessado, perguntou-lhe imediatamente: Então o Sr. é que é o Cid Adão do Tôto? Ao que ele respondeu: Não, está enganado, o Tôto é que é do Cid Adão.

V.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Saudade e Folclore

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1965
Vista do Tôto

Havia quem dissesse que os períodos mais difíceis de suportar durante uma comissão no Ultramar eram os dois ou três meses iniciais e finais. Isto, obviamente, no que respeitava às saudades de casa, da terra e dos amigos e familiares que tínhamos deixado para trás quando embarcámos.

Hoje, tantos anos passados e por aquilo de que nos lembramos, reconhecemos que, efectivamente, tinha razão quem tal afirmava. Por vezes preferia-se estar fora, no mato, porque as preocupações da actividade operacional faziam, de algum modo, esquecer as saudades daqueles que nos eram queridos, saudades que regressavam em força quando, dentro do arame farpado, nos sentíamos mais tranquilos pela segurança que, geralmente, ele proporcionava. Como era o caso do Tôto.

Na messe de oficiais prestavam serviço, como ordenanças, dois soldados. Eram ambos minhotos de gema, um de Viana do Castelo – e que por isso, cremos, lhe chamavam o “Viana” - e um outro, ali dos lados de Guimarães, Horácio de seu nome. O “Viana”, tanto quanto nos constou, faleceu muito pouco tempo após o regresso, mas o Horácio felizmente vivo, é presença assídua nos nossos convívios anuais.

Sucedia, por vezes, reunirmo-nos na varanda que encimava as escadas exteriores de acesso à messe, aproveitando o fresco da noite, daquelas esplêndidas noites africanas onde miríades de estrelas, resplandecendo como diamantes, povoavam um céu infinito. Sem darmos por isso, a conversa, por vezes, esmorecia, porque a ela se sobrepunham as vozes daqueles dois, cantando em uníssono velhas canções do nosso folclore minhoto! No silêncio da escuta, o nosso pensamento rapidamente galgava a distância que nos separava de casa, trazendo-nos à memória, pais, namorada, mulher e, no meu caso até, o filho que ainda não conhecia. E a saudade recrudescia até o coração doer…

VETERANO

PS. Não queremos encerrar o postal sem deixar aqui a letra, tanto quanto dela nos recordamos, de uma das canções que o Horácio e o “Viana” cantavam. Julgamos tratar-se de uma canção popular bastante conhecida, mas foi, pela voz daqueles camaradas, que a ouvimos pela primeira vez. É que somos um citadino que só alguns anos depois descobriu o campo e toda a beleza que ele encerra (ou encerrava, já que a construção que por lá se vê não é, propriamente, paradigma do Belo. Enfim…).

Mas aqui vai o que nos recordamos:

Era meia-noite e cantava o cuquinho./Era meia-noite, no seu pinheirinho/Era meia-noite e cantava o cuquinho,/Cucu, cucu, cucu coitadinho!

Era meia-noite e cantava o grilinho./Era meia-noite, no seu buraquinho./Era meia-noite e cantava o grilinho,/Gri-gri, gri-gri, gri-gri coitadinho!

…E de mais não nos lembramos!

V.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

"EM NOME DA PÁTRIA"

Tive, hoje, a honra de estar presente na sessão de apresentação do livro “EM NOME DA PÁTRIA” da autoria do Tenente-Coronel Piloto Aviador João José Brandão Ferreira, que se realizou no antigo Quartel-General da Região Militar do Porto, actualmente o Comando do Pessoal do Exército.

A apresentação do livro coube ao Dr. Miguel de Lucena e Corte Real, ilustre causídico e ex-combatente em Moçambique.

EM NOME DA PÁTRIA é um livro cuja leitura vivamente recomendo.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Escoltas

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1965
Quartel do Tôto

No perímetro do Tôto, para além da CArt 739, encontravam-se aquartelados, em 1965, um Pelotão de Apoio Directo (PAD), inicialmente comandado pelo Alf Braga e, posteriormente, pelo Ten Pesca e cuja missão consistia em apoiar o Subsector em tudo o que respeitava a material rolante e um Destacamento da Intendência (DI), inicialmente comandante pelo Alf Lucena e, mais tarde pelo Alf Emanuel Fronteira e que recebia, armazenava e distribuía pelas diversas Companhias os géneros alimentares, fardamento, artigos de higiene, tabaco, enfim, tudo quanto era necessário ao normal dia-a-dia da tropa.

Esta circunstância obrigava a que, de Luanda e com a uma regularidade praticamente quinzenal, partissem, com destino ao Tôto, grandes colunas de viaturas civis com os abastecimentos. Estas colunas eram escoltadas por militares das diversas unidades por onde iam passando, até chegarem ao destino. Permaneciam no Tôto o tempo necessário à descarga – geralmente um ou dois dias - e regressavam, escoltadas até Quibala, habitualmente por dois Grupos de Combate da CArt 739.

Estas operações de escolta não eram muito agradáveis de realizar. Estabeleceu-se, por isso, uma escala de escoltas independente da escala da actividade operacional propriamente dita. A protecção desta coluna, que na estrada se estendia, às vezes, por quilómetros, era uma autêntica operação de guerra, envolvendo, pelo menos, dois GC equipados com armamento pesado de infantaria, os meios-rádio possíveis, vários “Unimogs” e, pelo menos uma “GMC que, carregada de sacos de terra, seguia à frente como protecção contra minas. Fazíamos a escolta até Quibala e regressávamos quase imediatamente, tentando ainda aproveitar a luz do dia.

Apenas mais um apontamento com o seu quê de superstição: à saída dos aquartelamentos, uns quantos quilómetros percorridos, fazia-se a “experiência da Breda”. A "Breda" era uma excelente metralhadora pesada, de tiro muito preciso, embora de cadência relativamente lenta. Usávamo-la montada num suporte metálico com uma antepara em chapa de ferro bastante espessa que servia de protecção ao atirador. O municiamento era feito por meio de láminas que se colocavam lateralmente. A paragem da coluna para a experiência era “obrigatória”, mas implicava sempre uma explicação prévia aos motoristas das viaturas civis, para que não pensassem tratar-se de algum ataque inimigo.

Estrada Tôto-Quibala - 1965
Regresso da coluna de reabastecimento

domingo, 22 de novembro de 2009

Operação Confirmação

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Algures no Norte de Angola - 1965
Pequeno grupo, do 4º. Grupo de Combate da CArt 739, com o cão de guerra Rex,
no regresso de uma operação nocturna

OPERAÇÃO CONFIRMAÇÃO

Chamou-se “Operação Confirmação” e foi planeada e executada pela CArt 739.

Aquando da chegada à Zona de Intervenção Norte (ZIN) e distribuídas que foram as diversas Companhias pelas respectivas áreas de quadrícula, a CArt 739 recebeu, por acréscimo, uma AIL, isto é, uma Área de Intervenção Livre.

As AIL eram grandes zonas ainda não batidas pela tropa de Infantaria e atribuídas à Força Aérea que, de conformidade com o seu próprio planeamento, desencadeava algumas acções de flagelação, sobretudo bombardeamentos. A partir do momento da atribuição, a Força Aérea deixava de intervir e a responsabilidade passava para a tropa que recebera a área em causa.

A “Operação Confirmação” resultou num enorme esforço para dois Grupos de Combate – julgo que, com o GC que eu comandava esteve também o 2º. GC, embora não tenha a certeza – que se mantiveram acampados em base avançada mais de um mês. Da base saíam, num ritmo muito elevado, vários pequenos grupos de militares, por vezes com o apoio de uma pequena unidade de cães de guerra que fora deslocada para o Tôto. Estes pequenos grupos nomadizavam um ou dois dias, não mais, e regressavam. Sempre que possível e se o luar permitia alguma visibilidade nocturna, operava-se de noite.

Permito-me aqui dizer que, contrariamente ao que, geralmente, se vê no cinema, a nomadização em zonas de floresta, nas noites sem Lua, é muitíssimo difícil. Nada se vê, atrapalhámo-nos uns aos outros e só por acaso se estabelece qualquer contacto com o IN, porquanto, na situação referida e noutras semelhantes, não nos conseguimos aperceber onde ele se encontra. Pelo contrário, no período entre os Quartos Crescente e Minguante, a progressão é possível, pode-se andar mantendo o silêncio, o calor não nos apoquenta e as dificuldades de visão existem em iguais circunstâncias para ambos os lados.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

In Memoriam --- 04 - Francisco da Costa Salema

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Tôto - Aeródromo de Manobra - 1965
Despedida do Cap Art Fernando Mira
(Agachados, da esquerda para a direita: Santos, Cortes, Salema, Mouga; De pé, da esquerda para a direita: Pontes, Serrador, Ventura, 1º. Sarg Ferreira, Veiga, Cap Mira, 2º. Sarg Vitorino, ?, 2º. Sarg Almeida)
Pelas razões já fartas vezes aqui apontadas conheci o Salema apenas quando cheguei ao Tôto. O Salema tinha-se juntado à CArt 739 por altura da IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional), oriundo, presumo eu, da Administração Militar, já que a sua especialidade era a de Vagomestre. E, no exercício desta função seguiu para Angola.
A verdade, porém, é que não possuía qualquer jeito para a Vagomestria. Invejava, disse-mo uma ocasião, os seus camaradas furriéis que, por força da actividade operacional, saíam para o mato, numa frequência esgotante. Por várias vezes pediu ao Comandante da CArt 739 – na altura, o Cap Art Fernando Mira, que o substituísse na função, mas este não se dispunha a ceder, talvez porque as hipóteses de escolha não sobejassem. Entretanto, era tão notório o desinteresse que o Cap Mira teve que render-se à evidência e decidiu substituir o Salema pelo João Mouga (o que se revelou, mais tarde, não ter sido uma escolha particularmente feliz: o Mouga era de Infantaria e pouco ou mesmo nada percebia do assunto) e encaminhou o Salema para o 1º. Grupo de Combate.
Foi, na actividade do seu G.C. que se confirmaram as suas grandes qualidades de militar. Dedicado, empenhado, amigo dos seus soldados, capaz, até, de dar a vida por eles, tinha a atitude do soldado que não só aceita a inevitabilidade da guerra, como entende estar a cumprir um dever patriótico. Sem jamais considerar o risco que corria e vivendo, com particular satisfação – quiçá, mesmo, alegria – as várias aventuras daquela “sua” guerra, exibia um certo tique marialva – o que se lhe perdoava por ser ribatejano de gema – usando, no cano da bota, a sua faca de mato.
Julgo que não haverá quem se não recorde – pelo menos de ouvir dizer – da celebérrima “pega” de uma pacaça, a que o obrigou um animal que investira sobre o Unimog e lhe não dera tempo a nele se refugiar.
Terminada a comissão, enveredou pela vida civil na sua Almeirim natal e, praticamente, esteve presente em todas as nossas confraternizações. Encontrámo-nos pela última vez em 2003, apresentando já os sinais da terrível doença que o consumia. O “nosso Salema”, no carinhoso dizer dos seus ex-soldados, faleceu na semana imediata, quase como se tivesse ido ao convívio para se despedir dos seus camaradas de sempre!
Extracto da O.S. nº. 205, de 22/11/1965, da CArt 739:
Louvo o Furriel Miliciano Francisco Pinto Cardoso da Costa Salema, porque, sentindo-se mal preparado e com poucas qualidades para o bom desempenho das funções da sua especialidade - Vaguemestre - mas desejando ser útil à sua Companhia, se ter oferecido para servir como Atirador, tendo-se revelado desde há cerca de oito meses em que vem desempenhando funções de Comandante de uma Secção de Atiradores, um militar extraordinariamente desembaraçado no comando de tropas, corajoso, sempre voluntário para qualquer missão, mesmo perigosa, e com notável espírito de sacrifício. Alia a estas qualidades o ser um militar muito disciplinado e de esmerada educação cívica, bom camarada, tendo, pelas suas virtudes, merecido a consideração e amizade dos seus subordinados, camaradas e superiores.
(aditado em 26 de Março de 2010)
VETERANO
P.S. – Mesmo numa razoável colecção de fotografias – como é o caso da que possuo – há sempre falhas. No caso presente, a única foto em que o Salema está presente é a do grupo que encima este postal.
PPS – Pese embora ter já pedido ajuda quanto à identificação do nosso camarada (em pé, o 2º. a contar da direita) ninguém – repito: ninguém! – me deu, até agora, qualquer informação. O que é pena!
V.


domingo, 8 de novembro de 2009

A Leste...Algo de Novo! - Parte 2

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Lucusse - Leste de Angola - 1966
Caserna do 4º. Pelotão
Medições no terreno e preparação de equipamento de apoio à construção


A CONSTRUÇÃO DO AQUARTELAMENTO

Quando a Cart 739 chegou ao Lucusse deparou-se-lhe um cenário desolador! Para além do armazém de cereais a que já fiz referência e, creio eu, uma casa onde residia o Chefe do Posto, nada mais havia.

A tropa, com o habitual e característico “desenrascanço”, instalou-se, como pôde, no armazém de cereais e em tendas improvisadas na área circundante, procurando rodear-se das pequenas “comodidades” habituais nestas circunstâncias: um cunhete de munições a servir de mesa-de-cabeceira, mais dois caixotes e aí tínhamos uma mesa ou outras peças que tais.

Entretanto, o Comando da Zona providenciou no fornecimento de um quartel “JC”. Para quem não saiba, este equipamento que, por qualquer razão que desconheço se designava “JC”, era um conjunto de peças de madeira tratada, com o qual se poderia construir uma série de edifícios com os mais variados fins: casernas, comando, messes, parque-auto, etc.. Recebeu-se, também, uma razoável quantidade de sacos de cimento que se destinavam a fazer aquilo que era designado por “solo-cimento”, isto é, uma mistura de cimento com a terra, mais ou menos arenosa, do local. Quer o material, quer o cimento eram exíguos para um quartel com um mínimo de condições. Por sorte nossa, próximo do armazém de cereais, encontravam-se guardados numa espécie de arrecadação mal amanhada, diversos materiais igualmente “JC” e, ainda, um bom número de sacos de cimento, já empedernido pelo tempo. A construção a que o material se destinava nunca se fizera e o material estaria, por lá, meio esquecido. Como é evidente, aproveitámos todo aquele material “caído do céu”, para melhorar as nossas construções.

Várias fases da Construção

As duas asnas de topo, já levantadas

Levanta-se a última asna

Está pronto o "esqueleto" da caserna

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As Promoções ou...o Carisma do Capitão Rubi Marques

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O adeus aos que partem!

Lisboa - Cais da Rocha do Conde de Óbidos
Janeiro de 1965


AS PROMOÇÔES

Ainda antes de amanhecer já vivíamos uma azáfama nervosa no quartel de Porto Brandão. Estávamos a 9 de Janeiro de 1965, um sábado em que o Sol brilhava, e dentro de poucas horas embarcaríamos no navio “Vera Cruz”, rumo a Angola.

Do Porto Brandão até ao cais da Rocha Conde de Óbidos, onde estava ancorado aquele navio, a viagem fez-se a bordo de um ferry-boat especialmente fretado para o efeito.

E se evoco hoje a data do embarque é, sobretudo, para relembrar uma breve cerimónia que teve lugar durante a curta viagem entre as duas margens do Tejo.

De acordo com a legislação então vigente, na data do embarque para as comissões de serviço no Ultramar, os aspirantes a oficiais milicianos, os cabos milicianos e alguns soldados eram promovidos a alferes, furriéis e cabos, respectivamente. A maior parte dos militares abrangidos por estas promoções limitou-se a colocar os galões ou as divisas do novo posto nas respectivas platinas nessa manhã (é certo que alguns já as haviam exibido na véspera à noite, durante a despedida de Lisboa). A excepção verificou-se com os militares da Companhia de Artilharia (CART) 738.

O capitão Rubi Marques, comandante da referida Companhia, determinara que o "cerimonial" das promoções teria lugar a bordo do ferry-boat, obedecendo a um ritual próprio.

(Permito-me abrir aqui um parêntese para tentar dar pistas para as motivações daquela determinação.

Dos quatro comandantes que a CART 738 teve não foi com o capitão Rubi Marques que tive uma relação de proximidade pessoal. Aliás, creio que ninguém na Companhia a teve; cada um sabia o seu lugar na hierarquia e lá se mantinha. Todavia, e sem prejuízo dos méritos dos comandantes que lhe sucederam, com os quais tive, à excepção do último, um excelente relacionamento, foi ele o comandante por quem tive o maior respeito e admiração, não só pela forma como ele soube organizar a Companhia, mas também pelo modo como impôs e fez cumprir regras comportamentais a todos, sem excepção. Por outro lado, ao temperar o cumprimento dessas regras com um acentuado sentido humanista, conseguiu obter uma sã convivência entre os 163 militares da unidade, sem a ocorrência de atritos relevantes.

Uma das peculiaridades do capitão Rubi Marques era a sua propensão para o cumprimento de certas formalidades - que em Lucunga incluíam um dia-a-dia com algumas normas raramente observadas noutras unidades.)

LUCUNGA

Posto este interregno, recomeço a narrativa.

Iniciou-se então a "cerimónia" das promoções com uma formatura geral da Companhia no amplo espaço do ferry-boat habitualmente reservado ao transporte de automóveis.

Perante os (sor)risos trocistas dos restantes militares do Batalhão, o capitão Rubi Marques colocou nas platinas da farda dos, até então, aspirantes a oficial os galões correspondentes ao posto de alferes; por sua vez, os novos alferes colocaram, aos cabos milicianos dos respectivos pelotões, as divisas de furriel; a estes coube a imposição das divisas aos novos primeiros-cabos.

Não nego que, na altura, sentimos algum desconforto. Não pelo "cerimonial" em si, mas sobretudo pelas piadas de que sabíamos ir ser alvo (e fomos) a seguir.

Mais tarde percebi que estes rituais, eram também uma forma de nos unir e de nos fazer sentir diferentes. E a troça e o gozo já há muito que tinham passado para trás das costas.

Quando, em Janeiro de 1966, o capitão Rubi Marques deixou o comando da Companhia, por ter sido promovido ao posto de major, coube-me comandar a secção que o escoltou até ao Aeródromo do Tôto. E aí, em plena pista, também não escapei ao ritual: mandei formar e soltar o grito que constituía a divisa da Companhia, em sua honra.

Acho que no último abraço lhe vi um brilhozinho especial nos olhos.

Carlos Fonseca

CART 738"

Capitães Mira e Rubi Marques
Os comandantes das Cart 739 e Cart 738 deixaram as companhias no mesmo dia.
Aqui, à data do embarque, no aeródromo de manobra do Tôto

domingo, 18 de outubro de 2009

Soldado Artur Dias dos Santos! PRESENTE!

Artur Dias dos Santos, o "Palhaço"

43º. Aniversário da sua morte em combate
no Leste de Angola

"Em verdade, só morremos verdadeiramente quando já ninguém nos recorda"


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Monumento fúnebre no Cemitério de Arcozelo
Homenagem aos naturais daquela localidade que morreram pela Pátria
na Guerra do Ultramar


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Leste...Algo de Novo! - Parte 1

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Coluna de viaturas do 4º. Pelotão, em deslocação para o Leste
(é a única fotografia que possuo desta deslocação)

Estrada Mussende-Nova Lisboa

Um "alto", para descanso e reabastecimento das viaturas
2º. Sargento Santa, em 1º. plano


Leste de Angola - Lucusse

Armazém de cereais, onde se instalaram o Comando da CArt 739 e os ., 2º. e 3º. Pelotões

Tenda do Comando do 4º. Pelotão

O restante pessoal alojou-se em tendas semelhantes

sábado, 10 de outubro de 2009

Uma Partida de Futebol Que Se Não Realizou...

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Gabela - Campo de Aricanga - Equipa da CArt 738

Em baixo, da esquerda para a direita: ?, 1ºCabo Resende, 1ºCabo Brandão Pacheco, ?, FurMil Vaz;
Em cima: FurMil Fonseca, Peixoto, Rebelo, AlfMil Pereira, TenCel Soares, Ten Simões da Silva, 1ºCabo Oliveira, 1ºCabo ?, Custódio

CART 739 – UMA MÁ NOTÍCIA

Os fins de semana de Maio e Junho de 1966, foram ocupados na Gabela com a realização de um torneio de futebol, com jogos disputados entre as Companhias do Batalhão. Os jogos efectuavam-se um por fim de semana - no campo da Aricanga, propriedade da ARA-Associação Recreativa do Amboim.

Aos espectadores era solicitada uma contribuição monetária, revertendo as receitas obtidas para a Casa do Soldado que, por iniciativa do Movimento Nacional Feminino, estava a ser construída no quartel, com recurso à mão de obra do pessoal da CART 738 (excepto em trabalhos que exigiam maior especialização).

Além do objectivo principal, estes encontros serviam também para uma sã confraternização dos militares que, embora pertencendo ao mesmo Batalhão, apenas tinham contactos esporádicos, atendendo às distâncias das localidades onde se encontravam instaladas as respectivas unidades.

Para um dos domingos de Junho, estava programado o encontro entre a equipa da CART 739, aquartelada no Calulo, e a da CCS, que vinha de Novo Redondo.

Lá para o meio da manhã, com a chegada das delegações visitantes, instalou-se a animação no quartel, com grupos em entusiasmadas conversas, que continuaram durante o almoço, até que, a meio da refeição, surgiu a mensagem que, de súbito, transformou o alegre convívio num triste e pesado silêncio. A delegação da CART 739 deveria regressar de imediato ao Calulo porque a Companhia tinha recebido ordem de transferência para o Leste de Angola.

Quarenta e três anos depois, ao escrever este relato, ainda sinto um arrepio na pele, como se estivesse, de novo, a viver a situação. Parecia-nos a todos – independentemente da Companhia a que pertencíamos - que estávamos a viver um pesadelo.

O almoço acabou rapidamente e os militares da CART 739, partiram de regresso à sua unidade, num ambiente de grande consternação, partilhado pelos que ficavam, sem chegarem a disputar a partida de futebol.

A fim de não defraudar os espectadores que se deslocaram ao campo, jogou em sua substituição uma equipa mais ou menos improvisada (e desmotivada) da CART 738.

Este foi um dos episódios da minha comissão de serviço em Angola que me marcou mais negativamente. E, até hoje, não consigo compreender a razão da escolha daquela Companhia, que já tinha mais de um ano de comissão no Norte, onde, de resto, tinha sido a única unidade do Batalhão a sofrer um morto em combate.

Infelizmente tal como no Norte de Angola, também no Leste aquela unidade voltaria a ser flagelada pela morte de um dos seus melhores: o Artur Santos (Palhaço), a quem o criador deste blogue já aqui homenageou num texto comovedor.

Homenagem a que me associo hoje, com um sentimento de saudade e de respeito.

Carlos Fonseca

Cart 738

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tôto - Ainda a Despedida do Cap Art Fernando Mira

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Tôto - 1965
O Cap Art Fernando Mira passa revista ao 4º G.C.

As fotografias deste postal referem-se, ainda, à despedida do Cap Fernando Mira, que foi o primeiro Comandante da C.Art 739. Como já contei anteriormente, tendo sido promovido a Major, foi colocado em Nova Lisboa, e substituído pelo Cap Inf Ramiro M Nascimento.

O Cap Mira não quis partir sem distinguir alguns militares que com ele serviram no Tôto. Não dispensou, por esse motivo, uma formatura geral – se bem me lembro na véspera da sua partida – durante a qual procedeu à entrega de louvores a diversos militares que, no entender dos respectivos superiores mereciam tal distinção.

O autor deste blogue foi um dos distinguidos. Afirmo-o aqui com muito orgulho, porque penso que o mereci. Tal-qualmente os outros camaradas.



Tôto - 1965
Após a formatura, com alguns elementos do 4º. G.C.

Todavia, o meu louvor teve uma particularidade que não resisto a referir. Por força da minha actividade como bancário na vida civil, era um bom dactilógrafo. Conhecedor do facto, o Cap Mira pediu-me que dactilografasse os louvores à medida que os ia ditando – assim, ninguém ficaria a saber o nome dos distinguidos que era, quase, um “segredo de estado”. Foi um serão não previsto, por sinal trabalhoso e de alguma maneira, aborrecido. Não foi com muita satisfação que nos deslocámos para a Secretaria, para este trabalho – o capitão aborrecido por se ir embora e eu aborrecido pelo “frete” imprevisto. A má disposição mútua gerou um pequeno desentendimento que, por sua vez, teve o condão de alterar o texto do meu louvor – em vez do habitual “oficial de sólida educação cívica e militar”, passei a ser “oficial de razoável educação cívica e de sólida formação militar”. Obviamente nada que me fizesse diferente daquilo que eu fora e continuaria a ser pela vida fora.

Muitos anos mais tarde, numa das nossas confraternizações anuais, referi o facto ao Cap (actualmente Coronel reformado) Mira e rimo-nos da questiúncula. Já se não se recordava do assunto, o que é compreensível. E se refiro, aqui a questão é, apenas, por mera curiosidade, pois a elevadíssima consideração e particular estima que tive e tenho pelo Cap Mira em nada se alterou.

Tôto - 1965
Último aceno


VETERANO

domingo, 20 de setembro de 2009

Tôto - Despedida do Cap Art Fernando Mira

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Tôto - 1965
Cap Fernando Mira e os Oficiais da CArt 739

Alf Silva Pereira, Alf António Augusto, Cap Fernando Mira, Alf Med Dr. António Terrinha e Alf EduardoPalaio
Não está presente o Alf Guilherme Barreira, eventualmente em férias na Metrópole



Como já escrevi, por mais do que uma vez, não cheguei ao Tôto em conjunto com a Companhia. Não me é possível, portanto, referir a maneira como a população nativa recebeu a tropa. A CArt 739 foi render, naquela localidade, uma Companhia de Infantaria que cumprira já o seu tempo na ZIN (Zona de Intervenção Norte) e era provável que os habitantes do Tôto olhassem para a nova tropa com os mesmos olhos com que viam aquela que partia.

Fosse como fosse, a verdade é que, muito rapidamente, a tropa ganhou a simpatia da população. Por um lado, pelo comportamento correctíssimo – não tenho lembrança de qualquer incidente – dos militares. Por outro lado, pela maneira como foi desenvolvido todo um programa de apoio social, junto das populações. Prestava-se assistência médica e medicamentosa, fornecia-se alguma alimentação propositadamente preparada para além das necessidades dos soldados, pagava-se, de forma pronta e exacta os géneros comprados, distribuíram-se áreas de terreno para cultivo, prestando-se apoio na área agrícola e, finalmente, levou-se a cabo a construção de uma nova sanzala. A duas pessoas se deve tudo isto: Ao Cap Art Fernando Mira, Comandante da Companhia, como primeiro responsável, e ao Alf Mil Inf Eduardo Palaio, pelo empenho e dedicação, enquanto responsável directo pela Acção Psico-Social.

Não se estranhará, portanto, que, quando o Cap Mira, promovido a Major e, por esse motivo, colocado em Nova Lisboa, se viu obrigado a deixar o Tôto, tenha sido alvo de manifestações de apreço e de agradecimento espontâneo, de que as fotografias que acompanham esta nota são elucidativo testemunho. Praticamente toda a população do Tôto se deslocou ao Aeródromo de Manobra para se despedir, muitos levando-lhe os mais variados objectos – desde o frango ao leitão, que ele, obviamente, não pôde levar – como agradecimento por tudo quanto havia feito por eles.

Algumas mulheres da Sanzala fizeram questão de posar com o Cap Mira e insistem em que o Alf Palaio também fique na fotografia!!

Já no Aeródromo de Manobra do Tôto, rodeado de populares, um pouco antes de embarcar

VETERANO

domingo, 30 de agosto de 2009

O Batalhão - Álbum de Fotos - C.Art 739

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Cap Art Fernando José de Almeida Mira
Alf Mil Med António Francisco Marques Terrinha

Alf Mil Inf Guilherme Silvério Barreira
Alf Mil Inf Eduardo Augusto Rodrigues Palaio

Alf Mil Inf António Alves Augusto
Alf Mil Inf Joaquim Manuel da Silva Pereira

sábado, 22 de agosto de 2009

In Memoriam --- 03 - Segundo Sargento Fernando Canhão Santa

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Algures no Norte de Angola - 1965
4º. G.C. da C.Art 739 - Secção Santa
1º.Cabo Manuel Pereira,o"Bigodes", Leite, "Maçarico", Al Mil Inf Silva Pereira, Almeida, Teixeira,o "Arouca" e 2º.Sarg Art Fernando Santa


O Santa foi um dos Sargentos que foi encaminhado para o meu 4º. Pelotão, também chamado Pelotão de Acompanhamento, na altura da mobilização do B.Art 741. Militar de profissão, um pouco mais velho do que nós, já com família constituída, via-se, agora, na contingência de se adaptar a uma nova formação militar, por força das características da Guerra do Ultramar.
Os pelotões de acompanhamento das companhias tinham por missão, entre outras, a instrução de armamento pesado (metralhadora pesada, morteiro de 60 e de 80 e lança-granadas foguete, vulgarmente conhecido por “bazooka”) sem prejuízo, evidentemente, do normal treino de infantaria.
O Santa era, como disse, militar de carreira, na altura Segundo Sargento e pertencia à Arma de Artilharia. Aproveitando os seus conhecimentos, atribuí-lhe o comando da Secção de Morteiros, comando esse que ele desempenhou de modo empenhado e altamente eficaz.
Já em Angola, continuou a fazer parte do, agora, designado 4º. Grupo de Combate e, apesar das dificuldades que deveria ter – como disse atrás era uns anos mais velho e, também, um pouco mais gordo – nunca se furtou ao cumprimento do seu dever e foi sempre exemplo a ser seguido. Os seus soldados estimavam-no particularmente e ele retribuía a estima de uma maneira quase paternal.
Dos vários episódios de que me lembro recordarei este, paradigmático da consideração que os soldados lhe votavam. Normalmente, quando um G.C. patrulhava determinada área (na época utilizava-se o termo “nomadizar”) a operação durava, normalmente, vários dias. Quando, à noite, nos preparávamos para dormir, aproveitando o cimo de um pequeno monte com bom campo de tiro, as três Secções e o Comando colocavam-se nos vértices de um dispositivo em quadrado. Os vértices ficavam relativamente afastados uns dos outros, tornando-se necessárias quatro sentinelas, uma por Secção. Todos faziam a sua hora, tirada à sorte. E quando digo todos, eu próprio e também os Sargentos, estávamos incluídos. A determinada altura, apercebi-me de que os soldados do Santa o não acordavam para o seu turno, mas, obviamente, fiz vista grossa. Era já qualquer coisa mais do que a (in)disciplina militar. Falava ali mais alto, a consideração e a estima que todos aqueles homens tinham por ele.
Quando regressámos, o Santa permaneceu ainda um mês em Angola, para o espólio do Batalhão. Apenas o vi uma única vez mais, mas a história desse encontro merece ser contada. Aconteceu no RAP 2 (Regimento de Artilharia Pesada 2) na Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia. O Martins, amigo comum e antigo Furriel da Companhia, contactou-me, um dia, informando-me de que o Santa se encontrava mobilizado por aquele Regimento. Como trabalhava na “baixa” do Porto, chegadas as seis horas da tarde, atravessei a Ponte de D. Luis e dirigi-me ao Quartel. À Porta de Armas disse ao que vinha e uma praça acompanhou-me até às instalações da Companhia, cujos soldados, naquele momento, se encontravam em formatura. À sua frente arengava o Santa, já Primeiro-Sargento. Alertado para a minha presença, interrompeu imediatamente o discurso, quase correu ao meu encontro e abraçou-me emocionadíssimo, repetindo, perante o pasmo daquela centena de homens: Oh meu rico alferes! Oh meu rico alferes! Entregou o comando a um subalterno, e conduziu-me à messe onde cavaqueámos até às tantas.
O Santa faleceu em 2001. Soube-o, apenas, aquando da preparação da confraternização de 2003 por um telefonema da emocionada viúva, solicitando o fim do envio da habitual carta-convite.

Mussende - 1966
Os Sargentos do 4º. G.C. da C.Art 739 e uma visita

Fur Mil Inf João Mouga, Fur Mil Inf Carlos Ventura, Fur Mil Inf Trindade (do 3º. G.C.) e o 2º. Sarg Art Fernando Santa