Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Norte - Nomadização na AIL - Água e Sede


Troço de floresta, junto a um curso de água
Como já tenho referido noutras oportunidades, cheguei ao Tôto em Março de 1965, cerca de dois meses após a chegada da minha CArt 739. Uma das consequências deste atraso foi o facto de não ter feito sobreposição com a tropa que lá rendemos.
Era chamado de "sobreposição" o curto espaço de tempo que demorava a rendição de uma unidade militar por outra, durante o qual, se entregava à recém-chegada diverso material - armamento pesado, viaturas, equipamento sanitário, e de alojamento, etc. - e, em teoria, se procuraria transmitir a experiência adquirida de modo a evitar a repetição de alguns erros, nomeadamente, aqueles mais funestos. Efectuavam-se algumas operações ao nível de dois Pelotões, um "velho" e outro "maçarico".  
Rio Kuango - Enchendo cantis
Da Esq para Dir: SoldAt Varandas, 1º.CabMecArmLig "o Braga", SoldAt Freitas(enchendo o cantil), SoldAt Mendes "o Queijo", FurMilInf Mouga, 1º.CabApMet "?", SoldAt Horta, SoldAt Teixeira "o Arouca", SoldApMet Manuel M Santos "o Bombeiro", o autor do blogue e SoldAt Leite.  
Chegado, como disse, mais tarde, não passei por esta fase e, tanto quanto eu sei, o meu próprio Pelotão, em virtude da minha ausência, não acompanhou, também, essa actividade, sendo, antes, encarregado de tarefas menos operacionais, digamos assim, tais como a recolha da água e da lenha. Com a minha chegada, e integrando quase imediatamente a escala de operações, tive que aprender, por minha conta, não podendo, sequer, contar com grande experiência pela parte dos meus comandados.
Noutros postais venho já referindo essa progressiva aquisição de conhecimentos. Um, dos mais importantes, era, inequivocamente, a obtenção da percepção de existência de água corrente capaz de ser bebida, num terreno completamente desconhecido como era a AIL(1) que acabáramos de receber. Com o tempo, acabei por constatar que nos vales florestados existia quase sempre um curso de água, mais ou menos abundante, embora, às vezes, pudesse não passar de um charco que nos obrigava ao ritual das pastilhas e da espera. Deste modo, sempre que nomadizávamos, saíamos, volta e meia, do trilho que percorríamos e descíamos ao vale mais próximo em busca do precioso líquido. Raras vez me enganei.
Rio Kuango - Descanso junto ao curso de água
2º.SargArt Fernando Santa e o autor do blogue. Não identifico o militar que está de costas.
Mas, uma vez enganei-me mesmo e, chegados ao fundo do vale nada encontrámos. Voltámos ao trilho, começando já a sentir as dificuldades da sêde, e dirigímo-nos para um outro vale. E, como se aproximava a noite, ordenei à Secção que seguia à frente que apressasse o passo de maneira a chegarmos, com luz diurna bastante, àquele destino. Atingimos o cimo da colina já próximo do lusco-fusco. O pessoal estava sedento, valendo, aos mais aflitos, o enfermeiro Manuel que era o único com um bom cantil de água(2), Uma das Secções nem sequer parou, limitando-se a recolher os cantis de toda a gente e a seguir, encosta abaixo, a toda a brida, enquanto as restantes montavam o "quadrado"(3) que adoptara como forma de bivacar em pontos altos.
Foi com grande ansiedade que aguardámos o regresso dos camaradas da água. Aquele tempo de espera pareceu-nos uma eternidade! A páginas tantas, já noite feita, ouvimos o barulho característico dos passos que só podiam ser da Secção a regressar, logo renascendo toda a vivacidade daquela tropa até então entorpecida pelo cansaço e pela sêde.
Rio Kuango - FurMilInf João Mouga
Foi, porém, muito grande a desilusão! Comunicou-me o comandante da Secção que não existia água naquele vale! Num mesmo dia, enganára-me duas vezes relativamente ao mesmo assunto!
Perante a resposta, tivemos que nos submeter a uma noite de sêde verdadeiramente horrivel - um dos que se descontrolou foi, precisamente, o comandante da Secção que tinha partido em busca da água - contando, apenas com o cantil do Manuel que, quase à força, pouco mais permitia do que molhar os lábios.
Ainda antes da aurora acordei toda a gente - poucos tinham sido os que dormiram, com a boca seca e a língua meio-inchada - de modo a arrancar mal houvesse alguma visibilidade. Qualquer coisa me dizia que deveria haver água naquele local e ordenei a descida pelo caminho aberto pela Secção que se deslocara no dia anterior. Qual não foi a nossa surpresa quanto, bem lá no funfo, deparámos com um pequeno curso de água que corria, quase diria alegre e cristalino, depois de se ter despenhado de uma pequena cascata. 
Depois de saciada a sede e enchidos os cantis, não me furtei a dizer ao comandante da Secção tudo o que pensava da sua atitude de renúncia na procura da tão necessária água. Tudo levava a crer ter desistido ainda a meio da descida. Pela primeira vez - e julgo que pela última - dei uma descompostura a um graduado na frente do pessoal, mas não pude resistir. Não estou arrependido e hoje, fá-lo-ia de novo.   
VETERANO

(1) Área de Intervenção Livre.
(2) Constava que o Manuel aguentava muito bem a sede por ter sido pastor na vida civil. Desde que regressámos, nunca mais soube dele.
(3) Uma Secção e Comando, em cada "canto" de um quadrado imaginário.

NOTAS: As fotos que ilustram este postal não estão relacionadas com a situação descrita. Por sinal, estão datadas: dias 17 e 18 de Agosto de 1965.

VALE A PENA LER O COMENTÁRIO REMETIDO PELO CAMARADA SÉRGIO O. SÁ. (aditado às 23H35 de 15.01.2012)

6 comentários:

Sérgio O. Sá disse...

Recordar tais situações é sempre importante, tanto para os mais velhos que tiveram a sorte de não ir parar às ex-nossas Áfricas como combatentes,como para a gente nova que não faz ideia do que por lá passaram as nossas tropas. É que nem só as minas e as emboscadas eram razão para a constante aflição que se vivia. O facto de se estar em cumprimento de um dever (legítimo ou não, não importa aqui questionar), e por isso sujeito aos mais diversos tipos de ocorrências era, em si mesmo, penoso.
Os problemas decorrentes da falta de água não eram raros. A tropa da C.C. 1463, de que fiz parte, aquartelada em Quibala Norte, também os enfrentou. E de uma vez foi mesmo um caso sério.
Estávamos em Agosto. Embora o clima dessa época do ano tendesse a ser mais fresco, aquele dia esquentou mesmo. A malta serpenteava por trilhos e encostas de outeiros, a sul da mata Sanga, em coordenadas que nos distanciavam das ribeiras de Anguila, Womboro, Luaia e Santa que bem conhecía. Nos cantis, nem gota, já. Os graduados de carreira, já calejados, e os milicianos, com mais capacidade de discernimento do que a "soldadesca", sabendo do que poderiam ter de enfrentar, haviam doseado melhor o consumo de líquidos. Mesmo assim não escaparam às dificuldades.
A tarde ia a meio. Os olhares de toda a gente esticavam-se até onde podiam, tentando enxergar vestígios oasianos, sendo enganados mais de uma vez. Nem uma árvore a oferecer sombra de ilusão. O receio dos mais conscientes do perigo que corriam começava a fazer sentido. A situação tornava-se cada vez mais insuportável para alguns camaradas. Os sinais de desfalecimento começavam a surgir, para pouco depois dois ou três deles atingirem o limite... Tiveram de ser transportados, como foi possível, pelos colegas mais resistentes, enquanto perdiam as últimas humidades através da baba que pingava de suas bocas. O cenário era assustador. O desgaste físico e psicológico era visível en todos os rostos.
Finalmente encontrou-se água, ou melhor,vestígios dela, em pequenos lençóis com 2 ou 3 cm de profundidade. Toda a gente se dirigiu para lá, mas as primeiras recolhas foram para os camaradas quase mortos, a dois dos quais foi necessário abrir a boca, à força, e introduzir um pau entre os maxilares para que fosse possível fazer escorrer para lá a água-quase-lama que lhes salvou a vida.
Depois de tão assustadora ocorrência, eu, que era o cabo enfermeiro, passei a transportar no meu saco da logística (a bolsa de socorrista era outra das minhas cargas)duas ou três garrafas Nocal cheias de água que não mostrava a ninguém para evitar cobiças. Uma reserva para tentar evitar que aquelas situações viessem a repetir-se.
Algo idêntico relativamente a embalagens de plasma já eu fazia antes, carregando no mesmo saco duas ou três embalagens a mais do que o habitual, para poder atender quem, por infelicidade, viesse a precisar da sua transfusão.
Tudo isso a sobrecarregar ainda mais as minhas já de si frágeis costas, acabando por me abalar a saúde e empurrando-me para o Hospital Militar de Luanda, onde estive internado 39 dias.
Nem só as minas e as emboscadas faziam estragos. Há muitos ex-combatentes que não foram feridos no corpo, mas ficaram com a alma despedaçada.

VETERANO disse...

Caro Sérgio O. Sá:

Agradeço o seu excelente comentário que deixa transparecer, ainda, uma enorme carga emocional, apesar de tantos anos decorridos. Sentimo-nos quase a viver a situação descrita!

Como muito bem diz, muitos combatentes ficaram com a alma despedaçada.

Um grande e solidário abraço
VETERANO

Anónimo disse...

Caro Veterano,

Quer o seu texto, quer o comentário do Sérgio, descrevem com impressionante realismo a autêntica tortura que constituía a falta de água durante as operações, quase sempre sob um sol inclemente e com as parganas do capim a infiltraram-se na pele, onde se colavam por acção do suor abundante.

Como muito bem realça o Sérgio, não era apenas o temor das emboscadas, das minas ou das armadilhas, que nos apoquentavam; eram as carências de toda a ordem, que começavam muitas vezes pelas deficientes condições de alojamento e alimentação (e o Sérgio, que esteve na Quibala-Norte, sentiu isso na pele, de certeza), passavam pelas incertezas do dia-a-dia, e terminavam no mau estado do material que nos era fornecido.

Quanto ao seu comandante de secção que borregou a meio do caminho quando ia buscar água (e cujo nome o Veterano deixou misericordiosamente escondido no teclado), no fundo não passava de mais uma vítima, que nunca devia ter sido apurado para todo o serviço. Possivelmente, poderia ter sido mais útil noutras funções longe das operações – e, de preferência, também longe de África.

O meu agradecimento aos dois. Ao Veterano por mais este revelador episódio. Ao Sérgio pela sua achega, que é um depoimento que veio valorizar o que já era excelente.

Um abraço para os dois.

Carlos Fonseca

VETERANO disse...

Caro Carlos Fonseca:

O meu muito obrigado pelas amáveis palavras na apreciação deste trabalho e que, sem falsa modéstia, não mereço.

Um grande abraço e até muito breve, em Fátima.

VETERANO

Anónimo disse...

Caro autor do blogue. Só para dizer que contribui para mais uma presença na v/ confraternizaçao de 2012. Ainda não falei c/ o colega em causa, mas decerto que ele gostou de reencontrar os ex-colegas, que já não via há 45 anos. Oxalá continuem a reencontrar-se anualmente e c/ saúde. Fernando Fernandes

VETERANO disse...

Caro Fernando Fernandes

Grato pelo seu Comentário. Poderá indicar-me o colega a quem se refere?

VETERANO