Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.


quarta-feira, 31 de março de 2010

In Memoriam --- 06 - Fernando Babo


Dois camaradas, dois bons amigos

Fernando Babo e Carlos Fonseca

"O criador deste blogue comunicou-me há quatro dias que o meu antigo camarada Babo falecera em Setembro de 2009, conforme informação de sua filha Sandra.
Não o sabia doente e a informação teve o efeito de um inesperado murro no estômago. Decidi, então, alinhavar estas linhas evocativas da nossa vivência conjunta em Angola, e pedir o habitual e generoso acolhimento do “Veterano”.
Conheci o Fernando Babo – Fernando Pinto da Rocha Babo, de seu nome completo – quando, em Setembro de 1964, me apresentei no RAL 1, para integrar o BART 741, em formação.
Acabámos por ficar na mesma Companhia (a CArt 738) e fomos cimentando uma camaradagem ao longo do tempo que acabou por nos tornar amigos. De resto, não era difícil ser amigo do Babo. Creio que não havia um único militar da Companhia que não sentisse simpatia por aquele furriel-miliciano equilibrado e sensato.
A estas qualidades acresciam uma esmerada educação e uma apurada sensibilidade. Vou referir duas “histórias”a título de exemplo.
É do conhecimento geral que nos quartéis era normal o uso de uma linguagem que não primava pela elegância, sendo vulgar o uso do palavrão. A excepção na nossa Companhia era o Babo. Quando achava que alguma brincadeira estava a passar das marcas, utilizava uma expressão que nunca mais esqueci: olhava para o “abusador” e dizia-lhe com a sua pronúncia muito característica: “ Vai morder o S. João na pila!”. Note-se que não estou a adoçar a frase, usando um termo diferente; era mesmo assim, com delicadeza, que se expressava.
A sensibilidade manifestou-se, por exemplo, na comemoração do seu primeiro aniversário, em Lucunga.
Cada oficial e cada sargento tinha criado o hábito de, no dia do aniversário, oferecer um jantar com ementa melhorada – normalmente frango de churrasco - a todos os outros oficiais e sargentos.
Era uma ocasião em que o comandante da Companhia, capitão Rubi Marques, quebrava a rigidez do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) e, excepcionalmente, autorizava o convívio entre aquelas duas classes, honrando-nos também com a sua presença. Habitualmente, cabia-lhe a tarefa de, em nome de todos, fazer um pequeno discurso de parabéns, que também fez nesse dia.
Depois, foi a vez de o Babo tomar a palavra para agradecer. Ao referir o significado que aquela reunião tinha para ele, frisou que, para todos os efeitos, naquele dia nós éramos a família que substituía a família verdadeira, forçadamente ausente, acentuando que, dadas as circunstâncias, o cap. Rubi Marques era uma espécie de segundo pai.
Foi então que, comovido, o nosso comandante – com fama (e proveito) de militar puro e duro – mostrou a sua faceta mais humanista. Comovido pela sensibilidade natural que o Fernando Babo pusera no discurso que acabava de ouvir, e para não chorar diante de todos nós, levantou-se inopinadamente, abandonou a sala, saltou para uma bicicleta que estava encostada à parede e, a pedalar vigorosamente, saiu do quartel – e da protecção do arame farpado - pela estrada (picada) fora, perante a surpresa de todos.
Acabámos por ir buscar uma viatura e recolhê-lo, por uma questão de segurança.
Era assim o efeito que a delicadeza tocante do Babo produzia nos outros.
Convivi com ele quase diariamente de Setembro de 1964 até Fevereiro de 1966, altura em que o BART 741 foi transferido para o Quanza-Sul. A CArt 738 ficou aquartelada na Gabela, mas o 4º pelotão, a que pertencia a secção que o Babo comandava, foi colocada em Porto Amboim.
Nesse último ano de comissão, apenas convivíamos algumas horas, quando lhe calhava comandar a “coluna” que vinha à Gabela. A excepção foi um mês em que, por troca com o furriel Miranda Dias, estive em Porto Amboim. Voltámos a ter muitas horas de conversa, normalmente sentados em frente ao mar. Era então que falávamos dos dias que custavam a passar e, já casado, ele se queixava das saudades da sua Fernanda.
Terminada a comissão, não voltou connosco. A chamada de familiares, foi para Moçambique com a esposa que, entretanto, se lhe tinha juntado em Luanda.
Embora tivéssemos falado algumas vezes ao telefone, só voltamos a encontrar-nos em Fafe, em 1994, no decorrer de um almoço com outros ex-militares da Cart 738, onde compareceu acompanhado pela esposa.
Esta é a minha homenagem a um amigo. A um Homem bom.


Confraternização de elementos da CCaç 715 (aquartelada na Missão, do Bembe) e da CArt 738
Fernando Babo, ao fundo, com uma garrafa na mão
Carlos Fonseca
CArt 738
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sexta-feira, 26 de março de 2010

Ainda a Operação Helitransportada. A descrição

Há quase um ano, em Abril de 2009, publicámos aqui a fotografia de uma operação helitransportada de que participou o 4º. Grupo de Combate, algures, no Norte de Angola.

Um dos nossos camaradas da escolta de viaturas tirou-a, a nosso pedido.

Muito recentemente, quando vasculhávamos os nossos arquivos, encontrámos umas quantas fotocópias que, há bastantes anos, nos foram remetidas pelo nosso querido amigo, o ex-Furriel Salema. Era o seu contributo para um livro, a escrever-se um dia, com a história da CArt 739, livro que nem iniciado foi e que este modesto blogue procura substituir.

Dentre as referidas fotocópias encontrámos umas quantas que foram extraídas do livro “Nas Três Frentes Durante Três Meses”, da autoria do jornalista do “Diário de Notícias” Martinho Simões. Relata, o autor, uma operação helitransportada, a que assistiu na companhia do, então, comandante-chefe das Forças Armadas em Angola, general Andrade e Silva.

Damos a palavra ao jornalista.

“As forças de assalto actuaram em perfeita segurança, beneficiando da acção do dispositivo da quadrícula, que organizara a contenção: um anel destinado a impedir a fuga dos terroristas; outro para evitar o seu reforço.

Viu, também, o jornalista a extraordinária eficácia dos helicópteros – instrumentos indispensáveis para este tipo de luta. A surpresa, a rapidez de colocação das tropas, a frescura dos combatentes são elementos essenciais para se alcançar o êxito, quando as dificuldades do terreno e as distâncias favorecem o inimigo. Eles são, na verdade, fundamentais para a obtenção de uma surpresa sem a qual esse êxito é muito aleatório e difícil de conseguir.

  • Chegada à base temporária

Muito cedo, um «Nord» descolou da Base Aérea de Luanda, rumo ao Norte.

A bordo, o general Andrade e Silva, os generais Soares Pereira e Almeida Viana, os brigadeiros José Vitoriano e Reis; o tenente-coronel Rangel de Lima; e o jornalista.

Algures, no Norte, o bimotor aterrou. Na placa de estacionamento, os helicópteros aguardavam.

Imediatamente, sem perda de um segundo, o general Andrade e Silva inteirou-se do modo como se iniciara a operação, para verificar se a execução estava de acordo com o planeamento antecipadamente aprovado.

Segundo o jornalista Martinho Simões, estão presentes, à direita, os generais Andrade e Silva, Soares Pereira e Almeida Viana. Também presentes os brigadeiros Vitoriano e Reis. Os oficiais do BART 741 estão, de frente, vendo-se: o Comandante, Ten-Cel Cabrita Gil estendendo a mão sobre as cartas (um caracteristico gesto seu), logo atrás encontra-se o 2º. Comandante, o Major José Soares e, ao fundo, de óculos, o Cap Fernando Mira, comandante da CArt 739.

Os helicópteros rolaram para a pista e subiram na vertical.

Por dois deles, visando razões de segurança, se distribuíram os oficiais generais. Acompanhei o comandante-chefe.

A rasar o solo, confundindo-se com a vegetação e os tons cinzento-acastanhados da superfície, os aparelhos dissimulavam-se através das linhas dos vales. Depois, flectiram, bruscamente, para a esquerda.

Poucos minutos volvidos, a base temporária estava a nossos pés, as viaturas alinhadas e as forças preparadas para a acção.

Poisámos.

  • O ataque principia

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As pás dos helicópteros giravam, na iminência da descolagem.

As equipas de combate correram para os aparelhos, vultos mal delineados na sombria agitação dos asfixiantes turbilhões de terra e plantas, que confundiam os contornos das coisas.

A primeira onda de ataque perdeu-se no horizonte. Ao ruído dos motores sucedeu a reconfortante acalmia do silêncio da espera.

Por escassos minutos, todavia, Os helicópteros regressavam e tornavam a partir. E outra e outra vez, até que, na base temporária, apenas ficassem as viaturas e os soldados que as guardavam.

  • Na «zona de morte»

Como os combatentes, também nós voávamos ao encontro do inimigo.

Entrámos na «zona de morte» e o general Andrade e Silva mandou que a altitude fosse diminuída para menos de vinte metros: queria que o jornalista se apercebesse, com nitidez, da acção, que se desenrolava lá em baixo.

Distingui os homens da primeira arrancada estendidos no solo, ao abrigo de pedras ou de simples arbustos, protegendo os camaradas que chegavam.

Os helicópteros nem tocavam no terreno. Vinham de súbito e os atacantes saltavam, de três ou quatro metros. Corriam agachados e tomavam posições.

Do ponto de desembarque, a manobra desenvolvia-se como uma estrela que vai alargando as pontas. Os soldados exploravam o terreno e, cuidadosamente, progrediam em pequenos lanços.

Saltando sobre o objectivo, na chamada «zona de morte»

A azáfama da guerra estava perante mim. Uma azáfama perfeitamente ordenada e controlada, cada oficial ou soldado consciente da sua missão, os mínimos gestos produto de um longo treino, qualquer movimento resultante da reflexão e do estudo.

A Arte de Combater apresentava-se na sua mais pura expressão e o quadro revestia-se de uma terrível beleza.

Circulámos demoradamente, antes de nos afastarmos em direcção às outras áreas da operação.

O planeamento cumpria-se em todos os pormenores. Não havia uma falha, uma hesitação. Os homens, as armas e as máquinas faziam um todo homogéneo, que significava, para o inimigo, a derrota inevitável."

(Com a devida vénia)

quinta-feira, 11 de março de 2010

CONFRATERNIZAÇÃO 2010 - A Juventude dos Indefectíveis...

CArt 738
CArt 739
CArt 740
CCS
Fotografias cedidas por Foto Arestal - Sever do Vouga

PS
Poderá perguntar-se o que motiva tanta gente a reunir-se 43 anos depois! Só quem lá combateu é capaz de responder!
Mas, quem lá não esteve, veja aqui a última parte do filme K-19 e, talvez, possa compreender!
V.
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segunda-feira, 8 de março de 2010

CONFRATERNIZAÇÃO 2010

À chegada...

Anteontem, Sábado dia 6, reuniram-se num restaurante de Couto de Esteves – uma Freguesia do Concelho de Sever do Vouga – 97 ex-combatentes do Batalhão de Artilharia 741, a que se juntaram mais dois indefectíveis do PCAÇ 967. Se considerarmos, como é dever fazer, os familiares que os acompanharam, ascendeu a 196 o número dos adultos presentes.

Alguns camaradas, com cuja presença contávamos, não puderam comparecer. Nuns casos, razões de saúde própria ou de familiares próximos, noutros, em virtude da distância a percorrer ser já excessiva, tendo sobretudo em conta a idade que, todos nós, vamos tendo e, noutros casos ainda, devido à previsão de mau tempo que, pelo menos localmente, se concretizou em frio, vento forte e alguma chuva, como foi o caso do Cel Morna – um dos ex-comandantes da CArt 739 - que viajaria da sua Madeira natal e que se viu obrigado a desistir da passagem que tinha já adquirido.

A confraternização iniciou-se às 11 horas com a Missa “In Memoriam”, rezada pelo Pároco da localidade, o Pe António Cabeço, que soube muito bem interpretar o sentido da celebração, traduzindo-o numa participada homilia.

Seguiram-se o repasto, as fotografias individuais e de grupo, o “bailarico” muito animado, o lanche para confortar os estômagos durante a viagem de regresso e, por fim, a distribuição do bolo comemorativo, acompanhado de bom espumante.

Aproveitámos os momentos finais do convívio, para transmitir algumas notícias – sobretudo os cumprimentos de muitos camaradas ausentes, mas presentes em espírito – e, também, para nos recolhermos num momento de silêncio pelos camaradas falecidos. A finalizar, cantaram-se os “Parabéns” pelo 43º. aniversário do nosso regresso.

A reunião foi-se desfazendo a pouco e pouco, com promessas mútuas de reencontro, daqui por um ano!

O almoço

Uma curiosa composição fotográfica da CArt 740, da autoria do Sargento Peniche

O baile...

Ouvindo as notícias...

Com dois camaradas em fase de convalescença de doença grave, mas que, mesmo assim, quiseram estar presentes

Despedidas...

VETERANO

PS - As fotos foram, gentilmente, cedidas por um familiar, não fazendo, pois, parte da reportagem fotográfica.
V.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Lucunga - A Água e a Lenha - Recordações para o dia da Confraternização

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Lucunga - 1965
A Equipa da Lenha
Em Lucunga, todos os dias havia uma secção encarregada do fornecimento de água e lenha.

As moradias da localidade, abandonadas pelos seus proprietários depois dos massacres de Março de 1961, constituíam os nossos alojamentos. Isto é, em vez de uma caserna, e de messes de oficiais e de sargentos, havia um conjunto de casas que funcionavam como pequenas casernas, alojando uma secção cada, e duas moradias mais espaçosas, onde se instalou a maioria dos sargentos. Os comandantes de grupo de combate e o alferes-médico, instalaram-se num edifício mais espaçoso, que ficou a funcionar, numa parte como messe de oficias, e noutra como sala de jantar dos sargentos.

Todas estas casas tinham (ou foram instalados mais tarde) depósitos de água no telhado, que tinham que ser enchidos – pelo menos parcialmente – todos os dias.

Além destes, havia ainda a cozinha do rancho geral, bem como o posto médico, que tinham primazia no fornecimento.

A lenha era necessária para a confecção das refeições.

A água era recolhida num riacho que passava a cerca de 5 quilómetros da povoação. Em cada “viagem” enchíamos 8 tambores de 200 litros, cada.

Num dia bom podíamos fazer seis ”viagens”, mas a maior parte das vezes não se faziam mais de cinco.

Alternando com o transporte de água, era preciso também, como acima referi, trazer lenha para a cozinha.

Encontrávamos a lenha ao longo da estrada, ora no sentido Lucunga-Bembe, ora no sentido Lucunga-Damba. A estrada estava ladeada por árvores, cujas folhas constituíam um petisco para as manadas de elefantes que existiam na zona. Para as comerem partiam os ramos com a tromba, deixando-os, depois, caídos no chão, onde os apanhávamos, normalmente, já secos. Apenas tínhamos o trabalho de os cortar para caberem no atrelado.


Lucunga - 1965

Equipa da Água

Habitualmente, duas viagens eram suficientes, mas sendo a distância a percorrer variável, isso condicionava o número de viagens para o riacho. Por isso, havia ocasiões, raras, em que não conseguíamos fornecer água a todas as casas, o que não era muito grave, porque raramente o depósito ficava vazio.

Porém, isso não evitava o descontentamento dos desfavorecidos, que tinham que a racionar, ou que contar com a compreensão dos vizinhos e ir tomar duche nas casas ao lado.

Não havendo - à excepção do posto médico (onde nos abastecíamos de água para beber, depois de filtrada), da cozinha do rancho geral e da cozinha das messes - uma ordem de prioridade no fornecimento, cada comandante de secção distribuía a água discricionariamente. E (não vale a pena vir agora dourar a pílula) a primeira casa a ser fornecida era aquela onde morava o comandante da secção; a seguir, as dos elementos do seu grupo de combate. Depois, a messe de oficiais e a outra casa dos sargentos. A partir daí, dependia muito das simpatias de cada um.

A primeira vez que a minha secção foi encarregada destas tarefas, o meu receio de que fossemos alvos de uma emboscada era grande. Inexperientes, o inimigo podia aproveitar-se da situação. Então, montei a segurança de um e do outro lado do riacho, mantendo-me sempre alerta.

Meses mais tarde, estando de folga, íamos, quatro ou cinco, com a secção encarregada do fornecimento de água, ficando, de forma imprevidente, a nadar até eles voltarem, para regressarmos depois.

No nosso caso, nunca tivemos problemas, mas este tipo de situações resultou mal noutros locais.

Lucunga - 1965
O Banho Arriscado da Equipa da Água

Carlos Fonseca
CArt 738

domingo, 21 de fevereiro de 2010

CONFRATERNIZAÇÃO 2010

BART 741

ALMOÇO-CONVÍVIO

Caro amigo:

No próximo dia 6 de Março (Sábado), pelas 13 horas, realizar-se-á, como vem sendo habitual todos os anos, mais um almoço-convívio, desta vez o 24 º., em comemoração do 43 º. aniversário do regresso do BATALHAO 741.

LOCAL:

RESTAURANTE "JÚNIOR 2"

Couto de Esteves - Sever do Vouga

(Ver mapa no verso. Vindo da A1, entrar na A25 no sentido de Viseu e sair no nó de Talhadas / Sever. Continuar até ao rio e virar à direita, após uma ponte, junto ao posto de gasolina da Galp, para Couto de Esteves)


MISSA: Por intenção dos nossos camaradas já falecidos, será celebrada missa, pelas 11 horas, na Igreja local, muito perto do restaurante.

MÚSICA AO VIVO PARA DANÇAR, A partir das 15 horas.

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Toto - 1965
O Quartel (Vista da Messe)

(Fotografia cedida pelo ex-Alferes Emanuel Fonteira)

JORNAL DO BART 741

EDITORIAL

Comemoramos este ano, o 43 º. aniversário do nosso regresso, realizando, pela 24 ª. vez em um almoço-convívio.

Queremos prestar reconhecimento público aos camaradas que, mais de perto, têm colaborado connosco: o Martins, o Pinto, o Oliveira e o Almeida (mais a D. Piedade). Ao Alexandre (CCS) e Esposa), e ao Saraiva (738), a quem devemos preciosas dicas que muito nos têm ajudado a tomar algumas decisões. A todos eles, o nosso muito obrigado.

Numa rápida análise aos últimos convívios, constatámos a ausência constante de camaradas, apesar de sempre lhe termos enviado a nossa carta-convite. Com muita pena, vemo-nos forçados, a partir do próximo ano, a deixar de remeter a quem já não comparece desde 2006.

CONFRATERNIZAÇÃO

A ORGANIZAÇÃO optou, este ano, por um novo local para a realização do nosso evento.

Pessoa amiga gabou-nos a beleza da Rota do Rio Vouga e teceu louvores à gastronomia da região. Não resistimos ao entusiasmo da descrição e decidimo-nos pela realização do convívio no magnífico ambiente da Serra do Arestal.

Todos os anos nos debatemos com o dilema que é o local onde realizar uma confraternização. No Norte? Ou mais próximo de Lisboa? . À medida que os anos vão passando, as distâncias alongam-se, cerceando vontades, pese embora o prazer do reencontro com os camaradas. Vamos, portanto, usando uma estratégia de alternância e, assim, em 2011, iremos, então mais para o Sul.

O NOSSO COMANDANTE

EM DEZEMBRO passado soubemos que, devido a lamentável acidente (uma queda), o Coronel José Francisco Soares, foi internado no Hospital Militar com traumatismo craniano. É do conhecimento geral a especial consideração e estima que temos pelo nosso ex-Comandante que, sempre que pôde, honrou com sua presença as nossas Confraternizações.

Soubemos, entretanto, que já regressou a casa, prevendo-se, porém, uma longa e difícil convalescença.

Em nome do BART 741, aqui lhe desejamos rápidas melhoras.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lembranças de Luanda!

Nos dias que antecederam a partida permanecíamos no Campo Militar do Grafanil durante a maior parte do dia. Ao fim da tarde, a maior parte dos oficiais e sargentos, apanhava um dos transportes disponíveis e deslocava-se para Luanda.

Foram quatro dias, ou melhor, quatro noites em que muitos de nós se desforraram, por antecipação, dos longos meses em que iríamos viver longe do conforto e das distracções que a civilização proporcionava.

No que me diz respeito, e ao contrário de alguns dos camaradas do meu grupo que faziam comparações com Lisboa, gostei de Luanda logo ao primeiro contacto, salvo no que respeitava à desagradável humidade, a que, de resto, nunca me habituei.

Claro que para irmos directos aos sítios certos muito contribuiu o apoio do furriel-miliciano Rodrigues, que se revelou um cicerone de primeira água.!

Dos locais que então frequentámos, quero fazer uma referência especial à Cervejaria Portugália, que era uma espécie de ponto de encontro de tudo o que era tropa em Luanda. Quer se tratasse de militares aquartelados na cidade, quer se tratasse de pessoal em gozo de férias, em trânsito, ou em consulta externa no Hospital Militar, todos passavam pela esplanada da Portugália, que ficava debaixo de três frondosas árvores, numa espécie de ilha, na baixa da cidade. Costumava mesmo dizer-se, brincando, que a Portugália era a 5ª Repartição do Quartel General (note-se que o Q.G. tinha quatro repartições).

O local era também muito frequentado por cauteleiros, cujo negócio era, principalmente, o mercado negro de câmbio de escudos por angolares. Era uma transacção boa para ambas as partes, já que nós cambiávamos os escudos a um câmbio bem mais favorável do que ao balcão dos bancos, e eles revendiam-nos com boa margem de lucro, dada a quase impossibilidade de transferir a moeda angolana para fora do território.

Luanda 1965
Largo da Cervejaria Portugália

Para jantar, íamos à Cervejaria Amazonas um pouco mais abaixo. Outros lugares muito frequentados eram também, a Cervejaria Biker, com uma boa sala de bilhares, o Café Polo Norte, o Baleizão - célebre pelos seus excelentes gelados (embora os tais lisboetas achassem que os do Santini, em Cascais, eram muito melhores) - e a Pastelaria Versalhes, que ficava em frente à Portugália, mas que era um lugar mais “chique”.
Luanda 1965
Esplanada do Baleizão

As idas ao cinema também faziam parte do programa. E nunca esqueci a surpresa que tive quando entrei pela primeira vez no cinema Miramar. Talvez não haja nenhum outro cinema em que o nome corresponda tanto à realidade. A “sala” do cinema era uma enorme esplanada, com uma pala à maneira dos estádios de futebol e com uma vista deslumbrante sobre a baía.

Havia outros cinemas, mais ou menos modernos - o Alvalade, que ficava no Bairro com o mesmo nome (onde tinham residência os endinheirados do café, entre outros), era também muito confortável. Tinha a particularidade de ter uma espécie de painéis laterais amovíveis, que abriam ou fechavam de acordo com as condições do tempo.

Podia continuar a escrever sobre os quatro dias de Luanda, mas já me alonguei e o tema deste texto é a viagem para o Norte.
Luanda 1965
Cinema Miramar

Carlos Fonseca
CArt 738

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Caminho do Norte - Diário de Viagem - Parte 2

Segundo Dia: Quibala-Norte - Quartéis de destino

Retomámos a viagem no dia seguinte, e o que mais me chamou a atenção foi o elevado número de sanzalas abandonadas e completamente destruídas. Numa das paragens para distender as pernas e outros alívios, abordei o assunto com um dos condutores dos camiões, afirmando, num misto de ignorância e ingenuidade, a minha revolta pela destruição "que os sacanas dos turras tinham provocado na zona, despovoando-a". Para minha surpresa, ele disse-me que a destruição era obra da Força Aérea para evitar que se tornassem abrigo do inimigo.
Chegados ao Toto, destino final da CArt 739, as outras unidades do Batalhão separaram-se. A CCS e a CArt 740, seguiram para o Vale do Loge e a Serra da Inga, e nós seguimos para Lucunga.


Quartel do Tôto

Parámos no Bembe, onde estava uma Companhia de Caçadores e poucos quilómetros depois chegávamos à Missão do Bembe, onde já não havia missionários. O edifício onde eles habitaram durante muitos anos, tinha-se transformado no quartel da Companhia de Caçadores 715, que nos tinha preparado uma inesperada, mas muito agradável recepção. À nossa espera estava uma longa mesa, posta com comida e bebidas para reconforto dos nossos estômagos, há dois dias a ração de combate.

Missão do Bembe

A forma hospitaleira como fomos recebidos, marcou-nos profundamente e, foi o princípio de uma de uma amizade que nalguns casos ainda se mantém. Por exemplo, a foto da Missão que ilustra este texto, foi-me enviada pelo antigo furriel-miliciano Carlos Cristóvão, daquela Companhia.
Duas horas depois, ao anoitecer, chegámos ao nosso destino.
Na prática o "quartel" de Lucunga era constituído por quase todas as moradias da povoação (que tinham sido abandonadas - e muitas destruídas - em Março de 1961), que se estendia por algumas centenas de metros ao longo da estrada.

À primeira impressão parecia um lugar simpático. Mas sobre isso espero poder "falar" no futuro. Afinal, só queria escrever sobre a viagem..."

Carlos Fonseca

CArt 738

sábado, 23 de janeiro de 2010

A Caminho do Norte - Diário de Viagem - Parte 1

Primeiro Dia: Luanda - Quibala-Norte

A nossa partida de Luanda para o Norte teve lugar na manhã de 23 de Janeiro de 1965.

Sabíamos que o nosso destino - no caso da Cart 738, era Lucunga - seria, previsivelmente, menos perigoso que Zala, Nambuangongo, ou qualquer local dos Dembos, mas tinhamos a cabeça cheia de relatos feitos em Luanda por camaradas mais antigos, que nos falavam de emboscadas, minas nas estradas/“picadas”, armadilhas, etc., que diziam ser frequentes naquela zona.

Partimos - tendo como meio de transporte uma coluna de camiões de reabastecimento - com um misto de ansiedade e apreensão pelo que nos esperava. A primeira paragem teve lugar na localidade do Caxito, já a norte de Luanda, onde muitos habitantes aproveitaram para nos vender cocos, bananas e outros frutos, e que serviu para descontrair um pouco.

Já perto da hora do almoço, passávamos num local em que a estrada se “afundava” entre duas encostas densamente arborizadas, quando foi dada ordem de paragem, para fazermos um primeiro contacto com a mata angolana. Cada secção recebeu ordem de entrar em determinada zona da mata e avançar em patrulha.

Não estava prevista esta acção e o receio daquele primeiro contacto com o que julgávamos ser algo parecido com a realidade que nos esperava, assustou. O medo era tal que não consegui que a progressão se fizesse de acordo com os manuais, e o mesmo se passou com a maioria das secções. Enquanto comandante de secção devia ir no terceiro lugar da fila, mas a verdade é que não consegui que alguém avançasse à minha frente. Quando eu parava, paravam todos. Pareciam pintos à espera que a mãe galinha indicasse o caminho.

Naturalmente, a ideia da entrada na mata não passava de um exercício que não oferecia qualquer perigo, mas quem é que acreditava nisso? O cenário era um pouco assustador. Mas era só cenário.

Em muitas zonas o caminho era ladeado por árvores que desconhecíamos e que nos informaram chamar-se mangueiras, cujo fruto era a manga. Numa das paragens experimentámos colher e comer esses frutos. No que me toca, achei que a manga, com o seu paladar tão especial, devia ter feito parte do pomar do Paraíso.

Ao fim da tarde chegámos a Quibala-Norte, onde iriamos pernoitar.

Quibala-Norte: o aquartelamento

O quartel, constituído por edificações prefabricadas, de madeira, situava-se num local isolado.

Dormi, tal como aconteceria na primeira semana, em Lucunga, num desconfortável "burro" de campanha. Tratava-se de uma armação com pés em cruz, dobráveis, sendo a "cama" constituída por uma lona que se fixava à armação. Nalgumas zonas do Brasil é chamada "cama de vento". Em Portugal era muito usada nalguns dormitórios da C.P e chamavam-lhe "cama-volante".

(Continua)

Carlos Fonseca

CArt 738

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Faz hoje 45 anos!...


Almeida, Fonseca, Babo, Miranda Dias e Mourão

Depois de nove dias de viagem, o navio Vera Cruz atracou no porto de Luanda ao princípio da manhã de 18 de Janeiro de 1965.

Depois das emoções da despedida a viagem decorreu – tanto quanto me recordo - sem episódios dignos de registo. Os oficiais e os sargentos, viajaram confortavelmente, instalados em 1ª e 2ª classes, respectivamente. Já no que respeita aos praças, as acomodações eram menos confortáveis, sobretudo para os que, não tendo lugar nos já de si apinhados camarotes de 3ª classe, se viram obrigados a dormir em beliches, instalados em tudo o que fosse espaço vago, incluindo os corredores.

Na 2ª classe, não só tínhamos boas acomodações, mas também usufruiamos de um serviço quase luxuoso. As refeições estavam ao nível de um hotel de quatro estrelas, incluindo pequeno almoço à inglesa e um lanche de se lhe tirar o chapéu.

Às cinco da tarde abria o bar, onde podíamos escolher toda a espécie de bebidas, incluindo cocktails que a maioria de nós só conhecia da leitura de romances.

Ao serão podíamos assistir, numa noite, à projecção de um filme, na seguinte, à exibição de um conjunto musical (fracote). Quer um, quer outro espectáculo tinham lugar alternadamente na 1ª e na 2ª classes.

A parte menos simpática tinha lugar a seguir ao almoço, altura em que, ao toque da sereia do navio, tinha lugar um exercício de salvamento, que terminava sempre com o pessoal a cantar a célebre “Angola é nossa” (e a maior parte dos “passageiros” pensava que Angola era mesmo nossa. Afinal era engano...).
Paquete Vera Cruz - Salão

O resto do tempo era aproveitado ao gosto de cada um. Lia-se, ouvia-se música, jogava-se (muitas vezes a “doer”). Ao fim de três ou quatro dias de viagem a temperatura subiu e a piscina começou a ser muito frequentada.

Além disso conversava-se muito, sobretudo, especulando sobre qual seria a zona de Angola que nos esperava.

Aliás, este era um tema recorrente na 2ª classe, entre os camaradas dos três batalhões que seguiam a bordo. Sabiamos que havia três destinos: Zala, o mais perigoso de todos e talvez a mais perigosa zona do Norte de Angola, Vale do Loge, e salvo erro, o terceiro era Ambriz.

Como o comandante do nosso Batalhão tinha vindo de Zala, onde era segundo comandante do Batalhão que ia ser substituido, os camaradas dos outros Batalhões achavam que seria esse o nosso destino. Em boa verdade, também nós, no BART 741, achávamos que talvez a teoria fizesse sentido e receávamos (muito) que a previsão se concretizasse.
Momentos de descontracção...

Um ou dois dias antes da chegada, ficámos a saber, com enorme alívio (mesmo não tendo qualquer informação sobre o que nos esperava nos locais de destino), que o comando do nosso Batalhão ficaria colocado no antigo colonato do Vale do Loge, com as companhias distribuídas por Lucunga (738), Toto (739) e Serra da Inga (740).

A chegada a Luanda não foi um dia particularmente feliz para a generalidade dos contingentes que iam desembarcar. Alguns - poucos - praças da minha Companhia choravam, desolados, contemplando as barrocas de terra vermelha e queixando-se igualmente do calor e da humidade que se fazia sentir. Dávamos, quase todos, um enorme “salto” no desconhecido, com pouco mais de 20 inexperientes anos.
Luanda - O porto
O estado de espírito não melhorou quando vimos o meio de transporte que nos levaria do porto de Luanda até ao quartel, no Grafanil, onde as unidades permaneceriam até à partida para o Norte. Tratava-se de um longo combóio, tendo apenas meia dúzia de carruagens de passageiros, sendo a restante composição constituida por vagões de mercadorias, fechados, com uma larga porta de cada lado, onde viajámos um pouco em condições semelhantes às do gado. O trajecto foi feito através de muceques onde a miséria era evidente, o que também não ajudou a melhorar a situação. Nestas circunstâncias, o moral não era particularmente elevado quando, chegados ao Grafanil, saltámos dos vagões para o terreno arenoso.

Depois de formados, desfilámos ao longo do quartel. Nessa manhã, a minha Companhia deve ter proporcionado ao capitão Rubi Marques, o que terá sido talvez a maior contrariedade que teve com o pessoal durante todo o ano que permaneceu connosco.

Durante o tempo de instrução no antigo RAL 1 fomos treinando, por sua iniciativa, uma espectacular forma de marchar a que ele chamava “ o passo de parada”. Exibimo-lo algumas vezes, a última das quais, durante o desfile no Cais da Rocha Conde d'Óbidos. Só que, no Grafanil, como se tivesse havido combinação, o “passo de parada” não saiu. Apesar das repetidas ordens, o pessoal andava mais do que marchava. O nosso comandante de Companhia, estava mais que descontente; estava furioso.

Mas o pior estava para vir. Não estávamos à espera que os alojamentos fossem luxuosos, mas esperávamos, talvez, ficar instalados em edificações pre-fabricadas. Porém, o que nos saiu para passarmos os cinco dias que ali ficariamos foram pequenas tendas de três panos, para alojar, cada uma, três militares e as respectivas bagagens. Aí ninguém calou o descontentamento. Cumpridor das normas, o capitão Rubi Marques avisou que todos (incluindo ele próprio) ficariam nas tendas.
Sucede que da minha Companhia fazia parte o furriel-miliciano José Rodrigues que, sendo o mais jovem dos sargentos, ia fazer a segunda comissão em Angola (por troca com um camarada), pois tinha assentado praça voluntariamente aos 18 anos. E a sua experiência foi decisiva para um pequeno grupo de que fiz parte, se “desenfiar”, evitando pernoitar nas malfadadas tendas.

Disse-nos o Rodrigues que estavam sempre a sair transportes do Grafanil para Luanda, e vice-versa. Bastaria que fossemos até à porta de armas e tomássemos lugar num desses transportes. Assim fizemos e em Luanda ficámos numa moradia, na Avenida Marechal Carmona, cuja dona ele já conhecia, e que funcionava como pensão de militares.

Nessa primeira noite, foi nosso cicerone. Deitámo-nos tarde, pedindo que nos acordassem às seis horas. Nem tomámos pequeno-almoço. Apanhámos dois táxis e seguimos para o Grafanil, onde aparentemente quem de direito não deu pela nossa falta. É claro que a nossa saída era do conhecimento de alguns. E, embora acabasse por chegar mais acima, não teve consequências.

Os camaradas que lá tinham pernoitado pouco ou nada dormiram. Os mosquitos atacaram em força, deixando as marcas das picadas na maior parte do pessoal. Dentro da minha tenda, que tinha ficado só com a bagagem, havia uma nuvem de mosquitos. Do que nos livrámos...

Nesse dia, e nos seguintes, as ordens foram alteradas. O comandante da Companhia autorizou a dormida em Luanda, excepto, naturalmente, a quem estava de serviço.

E, ao fim da tarde, lá partíamos à descoberta da cidade e à recarga das baterias para a permanência no “mato” ,que nos esperava.

Carlos Fonseca
CArt 738
Luanda - Avenida Marechal Carmona

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