Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tôto - A Nova Sanzala !

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Tôto
A Nova Sanzala

A ideia foi do Cap Art. Fernando Mira, o primeiro dos quatro Comandantes de Companhia que teve a C.Art 739. Na altura da decisão não me encontrava presente (como já disse, noutro postal, fiquei retido, na Metrópole, por motivo de doença grave) e quando me juntei à Companhia vim a saber que, ao Alf Mil Inf. Eduardo Palaio fora atribuída a tarefa de dirigir a construção de uma nova sanzala, uma espécie de bairro social, que permitiria uma substancial melhoria da qualidade de vida da população residente.

A ideia tinha alguma complexidade. Não se pretendia oferecer as casas gratuitamente. Entendia-se necessário que, quem viesse a recebê-las, as obtivesse com algum esforço. Falou-se, tanto quanto sei, com o chefe da aldeia, gerou-se algum entusiasmo e iniciaram-se os trabalhos.

O financiamento da acção foi obtido através da criação de uma enorme “lavra”. Na base do pequeno monte onde se previa levantar o novo aldeamento, corria um riacho, nas margens do qual, em terreno muitíssimo fértil, se procedeu, sob a orientação de alguns soldados, aos trabalhos de sementeira e plantação de “frescos” destinados, sobretudo ao consumo do quartel. O terreno foi dividido em talhões que foram atribuídos a todos quantos se mostraram interessados nas futuras habitações. Os “frescos” excedentes do consumo próprio, eram vendidos ao exército, que os pagava a preços correntes, daí resultando as verbas necessárias à aquisição da madeira para janelas e portas, de vidros, de chapa ondulada para a cobertura e demais materiais impossíveis de obter localmente. As paredes eram de adobe que os habitantes se ocupavam em fabricar. Todo o restante trabalho era feito por soldados, cujas profissões civis estavam ligadas à área da construção, e que eram dispensados do serviço operacional. A Companhia fez deslocar a Carmona, alguns carpinteiros para os trabalhos da sua arte.

Entretanto o Cap Art. Fernando Mira foi promovido a Major e transferido para outra Unidade (a despedida que a população lhe fez foi comovente. Referirei o assunto noutra oportunidade). Foi substituído pelo Cap Inf. Ramiro M. Nascimento que se entusiasmou com o projecto e lhe deu novo impulso. Pouco tempo depois era inaugurada, com pompa e circunstância – esteve presente o Ten Cel. Cabrita Gil, Comandante do Batalhão e foi benzida pelo Capelão da Força Aérea que, habitualmente, lá vinha rezar a missa dominical e de cujo nome me não recordo - a nova sanzala do Tôto.
O Ten Cel Cabrita Gil, discursando...
Ao lado: Alf Mil Inf. Eduardo Palaio e Cap Inf. Ramiro M Nascimento
O Alf Mil Inf. Eduardo Palaio, discursando...
Do lado direito, de branco, o Capelão da Força Aérea que procedeu à cerimónia da benção
VETERANO

sexta-feira, 31 de julho de 2009

C.Art 739 - Uma emboscada

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Emboscada

Algures no Norte de Angola - 1965

Tanto quanto me lembro, eram três as principais operações de contra-guerrilha usadas, habitualmente, pela tropa de Infantaria. Eram a emboscada – que consistia numa espera, em terreno favorável –, o golpe-de-mão – uma acção, tão surpreendente quanto possível, sobre um aquartelamento – e a batida – que envolvia um número elevado de efectivos, já que se pretendia criar um “corredor”, ladeado de tropa e batido por uma força, num movimento de êmbolo.

Esta última era pouco usada, pelo menos no meu tempo, devido aos muitos efectivos de que necessitava. O golpe-de-mão era a mais frequente.

Uma emboscada era um aborrecimento! Uma “seca”, como agora se diz. De facto, e em virtude da escassez de informações, sucedia permanecermos alguns dias, no mesmo local, em silêncio, sem fumar, e muitas vezes sem qualquer resultado. Por isso, começou a ser frequente levarem-se livros e revistas para melhor se passar o tempo quando se não estava de atalaia.

Esta fotografia é de um desses momentos, não de repouso, mas de cansativa espera!

VETERANO

C.Art 739 - Oficiais e Sargentos da C.Art 739

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(Ramos, Ventura, Cortes, Augusto, Tito Bouças, Barreira, Pontes, ??, e Catuna)

Leste de Angola - Luso - 1966

Não me recordo muito bem do momento desta fotografia. Inicialmente, pensei tratar-se de uma foto tirada no Lucusse, mas, reparando melhor na moradia que se vê atrás, inclino-me mais para a Cidade do Luso.

Embora aquartelada no Lucusse, a C.Art 739 fazia deslocar, com frequência, alguns Grupos de Combate ao Luso, onde ficavam às ordens do Estado-Maior da ZIL (Zona de Intervenção Leste). No intervalo das operações, os Grupos procuravam repousar, já que as acções eram muito frequentes. Sem querer ser peremptório, a fotografia será de uma dessas ocasiões de descontracção.

Aos ombros do Cap Tito Bouças (actualmente General. A última vez que tive o gosto de o rever, foi, salvo erro, no Porto, quando comandava a Região Militar) está o “Atraso de Vida”, de quem já não tenho esperança de notícias.


VETERANO

P.S. Por mais que me esforce, não me recordo do nome do segundo camarada a contar da direita. Se alguém me puder ajudar...fico, desde já, reconhecido.

V.


terça-feira, 7 de julho de 2009

O "Atraso de Vida"


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O Mussende, nos dias em que lá não parava a carreira de Nova Lisboa, era uma pasmaceira! Executados os diversos serviços – lenha, água, limpezas, etc. – normalmente acabados ainda antes do almoço, o calor abrasador da tarde convidava ao descanso nas tarimbas, ou a uma cerveja fresca no café do Leitão, porque pouco mais se poderia por lá fazer. Quando havia viaturas em condições, saía um jeep em patrulha, pelos arredores.

O Mussende era uma pequena localidade num cruzamento de estradas. Há muito tempo já, que por lá se haviam estabelecido “comerciantes do mato” (julgo que era este o nome que se lhes dava) cuja actividade consistia na compra, ou melhor, na troca, já que se não negociava a dinheiro, dos produtos indígenas por panos e outro tipos de mercadorias que os locais apreciavam.

Numa dessas tardes de modorra, ao chegar ao quartel, alguém me disse – se bem me lembro, foi o “Porto” - para ir ver uma “prenda” que por lá aparecera. Tratava-se de um pequenito mulato, magríssimo, que, segundo me contaram, havia sido encaminhado para o quartel pelos habitantes de uma sanzala onde havia sido abandonado pelos pais – um “bóer” e uma indígena – antes de partirem para Luanda.

Toda a tropa o rodeava e puseram-se a insistir comigo para que o recolhêssemos. Ordenei que, para já, lhe dessem alguma comida, visto aparentar fome. Assim fizeram e ele não se fez rogado. Após comer, deitou-se a dormir e para ali ficou mais de um dia, qual jibóia, a digerir o alimento.

Decidiu-se, democraticamente, que a criança ficaria ao nosso cuidado, desde que alguém se encarregasse, efectivamente, de velar por ele. Logo se ofereceu o “Japonês” e o pequenito passou a viver no nosso quartel. Via muito mal e, por essa razão, caía com frequência. Melhorou bastante com a alimentação que passou a ter, mas, em contrapartida, fartou-se de aprender “linguagem de caserna” que usava com a maior das inocências.

Como ninguém sabia o nome dele, alcunharam-no de “Atraso de Vida”.

Quando nos deslocámos para o Leste, acompanhou-nos, como se, sua família, fôssemos. Ficou recolhido na Casa do Gaiato de Benguela aquando do regresso da Companhia à Metrópole, em 1967. Se ainda for vivo, terá hoje, à volta de 50 anos e eu, confesso com alguma comoção, que gostava muito de saber do que foi feito dele!

VETERANO

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Destacamento do Cubal - 4º. Pelotão da C.Art 739

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Entre vários convidados, a Esposa, D. Ester, os filhos e o Chefe Amaro

No início de 1967 o meu Pelotão (4º. Pelotão da CArt 739) foi destacado para o Cubal. Esta localidade era considerada o “Entroncamento” de Angola. Grandes oficinas serviam o Caminho de Ferro de Benguela, o que significava uma numerosa população de ferroviários e um número igual de comerciantes, prestadores de serviços diversos, PSP, bancos, etc.. Havia, tanto quanto me lembro, alguma (sã) rivalidade entre as duas comunidades, rivalidade que se revelava, entre outras coisas, na existência de dois clubes – o Clube dos Ferroviários e o Clube da Vila. Pelo Carnaval, ambos organizaram bailes e festas, às quais, fui assistindo, alternadamente, com a maior satisfação.

De várias pessoas me recordo, mas – perdoem-me os outros, se alguma vez me lerem – gostaria de, aqui, referir duas: o Chefe Amaro, da P.S.P. e o Padre Zé.

O Chefe Amaro tinha uma preocupação constante que era a segurança da “sua” localidade. Logo ao primeiro contacto solicitou-me que estudássemos um plano de defesa que integraria os efectivos militares, a Polícia e, até, a segurança privada das instituições bancárias lá existentes.

Dizia o Chefe Amaro, aliás com muita justeza, que era nossa obrigação, nas circunstâncias, assegurarmos, sobretudo, o descanso das pessoas. De dia, dizia ele, com maior ou menor dificuldade todos se defenderão, mas, à noite, têm que confiar em quem lhes vela o sono. Instituímos um programa de patrulhamento nocturno diário, e procedemos a ensaios de defesa dos locais considerados vitais.

O Padre Zé era a melhor pessoa do mundo. Assim pensavam os cubalenses e eu acabei por concordar com eles. Era uma pessoa amabilíssima, grande conversador, alegre e bem disposto, tanto quanto me recordo. Colocou, espontaneamente, à minha disposição, o seu carro particular para que o usasse nas alturas em que o meu jeep (o único que o Pelotão tinha) saía em patrulha. Volta e meia levava a amabilidade ao ponto de me oferecer um cálice de um excelente vinho de missa, doce como o mel, que recebia em garrafões, vindo da Metrópole.

Gostaria de deixar, aqui registadas, algumas lembranças do pouco tempo que passei no Cubal: o combate a um incêndio que se desenvolveu numa casa do quarteirão ferroviário, onde os meus soldados se comportaram de forma admirável, por todos louvada, a feira periódica, onde, pela primeira vez, vi nativos bosquímanos, com o seu curioso idioma e cujas mulheres vestiam, apenas, uma pequena “saia” feita de capim, a festa de anos do filho do Chefe Amaro – a que pertence a foto que acompanha este texto – e, por fim, um jantar de aniversário de um comerciante local, interrompido pela chegada da tropa do Regimento de Infantaria de Nova Lisboa que nos substituiu.

O Chefe Amaro faleceu, poucos anos mais tarde, num acidente em Luanda, aquando de um circuito automóvel. O Padre Zé faleceu em 2005 em Barroselas, freguesia de que foi pároco depois de ter regressado em 1975.

Vieram-me à memória estas lembranças ao receber uma circular-convite para o 22º. Encontro que os Cubalenses vão realizar, no Parque do Luso, no próximo dia 5 de Julho. Infelizmente, por razões várias, não poderei estar presente.

domingo, 14 de junho de 2009

O Batalhão - Álbum de Fotos - C.Art 740

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Cap Art João Manuel de Faria Martins Amaro

Alf Mil Inf Jorge da Silva Gaspar
Alf Mil Inf Francisco António Rodrigues

Alf Mil Inf Luis Augusto Queirós Magalhães de Carvalho
Alf Mil Inf António Maria Amaro

terça-feira, 2 de junho de 2009

Dr. António Terrinha - Dois Episódios

Episódio nº 1

No decorrer de um jogo de futebol que, como acontecia quase todas as tardes, teve lugar em Lucunga, num dos últimos dias de Julho de 1965, fui rasteirado e caí violentamente sobre o meu braço direito.

Queixando-me de fortes dores, desloquei-me ao posto médico, onde o Dr. Salazar Leite, me examinou o pulso, onde a dor era maior, tendo concluído que não havia fractura, mas apenas uma contusão, que seria debelada rapidamente.

Todavia, a dor persistia e eu não conseguia fazer qualquer esforço com a mão direita. O Dr. Leite insistia que não havia fractura, e parecia que estávamos num impasse. A situação estava a complicar-se, porque – eu sabia como “funcionavam” as coisas nestas circunstâncias – não tardariam as insinuações de que estaria a “baldar-me” a ir para o mato.

Entretanto, no princípio de Agosto – creio que no domingo, 8 – deslocou-se a Lucunga uma delegação da CART 739, para uma jornada de confraternização. Como era hábito, houve futebol, de manhã, seguido de farto almoço (cozido à portuguesa, nas messes).

Ora, da comitiva fazia parte o Dr. António Terrinha, que a pedido do Dr. Leite, viu o meu pulso. E, à segunda apalpadela, declarou que eu tinha uma fractura, e que, na sua opinião, deveria seguir para o Hospital Militar de Luanda para tratamento.

Assim se fez, e a radiografia feita no Hospital confirmou o diagnóstico de fractura, tendo acabado por ficar em Luanda quase cinco semanas em tratamento.

Por vezes, ainda me questiono sobre o que teria acontecido se não fosse a providencial visita do pessoal da 739.


Episódio nº 2

Tenho ainda outra estória em que fui interveniente, e na qual o Dr. Terrinha teve, de novo, um papel relevante.

Em Agosto de 1966, já colocado na Gabela, fui a uma consulta de Oftalmologia, a Luanda.

Da Gabela para Luanda consegui boleia, evitando assim ter de fazer a desconfortável viagem no machimbombo da carreira, que levava o dia inteiro para fazer o percurso.

Porém, apesar de todas as diligências nos poisos habituais, não consegui encontrar quem fosse para os lados da Gabela ou, ao menos, quem me desse boleia até à Quibala. Daí para a Gabela já era mais fácil.

Desanimado perante o cenário de um dia inteiro de incómoda viagem, entrei na Cervejaria Amazonas para ao menos me reconfortar com um lauto jantar. Aí sentado a uma mesa encontrava -se o Dr. António Terrinha, com a esposa e filhos (que, se a memória não me atraiçoa , eram dois). A seu convite tomei lugar à mesa e falei-lhe na minha “desdita”.

Não me recordo, naturalmente, dos termos exactos. Mas, mais palavra, menos palavra, o que ele me respondeu, foi:

  • Ó Fonseca, eu vou amanhã para o Calulo onde, como sabe, está um pelotão da 738. Logo, você vai comigo e, para todos os efeitos, está apresentado na sua unidade. O Casimiro (era o alferes comandante do pelotão) manda um rádio para a Gabela a dar conta da sua apresentação. E depois, como todas as semanas há viaturas a a circular uma ou duas vezes entre a Gabela e o Calulo, você em menos de dois dias está na Gabela.

Aquilo não me pareceu muito regular (ainda por cima o comandante de companhia era o Cap. Carvalho, que não morria de amores por mim), mas eu não queria mesmo ir no machimbombo, e não foi muito difícil deixar-me convencer. E lá fui no dia seguinte para o Calulo, que não conhecia.

E tudo bateu certo. As coisa passaram-se exactamente como o Dr. Terrinha previra. E ainda não foi desta que senti o peso do RDM.

Ao contar estes dois episódios presto também a minha homenagem a um homem bom e generoso. Um ser humano com qualidades que o distinguiam entre os seus pares.

Carlos Fonseca

CArt 738

domingo, 31 de maio de 2009

Dr. ANTÓNIO TERRINHA - Uma Pequena Nota, ainda...

UM PARTEIRO CHAMADO ANTÓNIO

A Companhia era disciplinada e experiente. Gente valente. O médico, o “Toino”, como carinhosamente o tratavam, era um dos pólos do ambiente sadio que reinava entre o pessoal e, entre este e a sanzala, grande parte gente deslocada das zonas afectadas pela acção terrorista. “Machambas” cultivadas, orientadas pelos soldados, e um bairro social de duas dezenas de casas estava pronto a ser entregue aos novos donos.

A popularidade e o respeito pelo “Toino”, a sua competência e jovialidade, travesso e contestatário, “D. Juan” assumido, levar-me-iam a baptizá-lo de “Tonecas”. Não fardava lá muito bem, preferindo as sandálias, calças camufladas, “quico” às três pancadas e uma inseparável garrafa de “cuca” na mão, nas horas de maior calor!

Não saía para o mato: “Capitão, conte comigo, para tudo, dentro do arame farpado. Fora, não; além de tudo, morro de medo! Fique descansado que o “Pastilhas”, furriel Veiga, e os cabos enfermeiros foram por mim preparados para actuarem no caso de feridos”.

Irreverente, espírito aberto, confessou-me que era “do contra”, participara das manifestações estudantis e estivera detido em Oeiras, na Polícia Móvel. Na unidade mobilizadora, mais tarde o tristemente célebre RALIS, conhecera o pessoal da Companhia. Contrariado e embora não concordasse com a guerra, achou que o seu lugar era junto “desta malta”! Não desertou, como o fizeram vários “heróis” de hoje: “Antes de ser do contra, sou médico. Fechei o consultório e abandonei os meus trabalhos de investigação em Benfica. Agrada-me a camaradagem e o espírito de solidariedade. O meu lugar, agora, é aqui. Julgo que tenho feito um trabalho positivo no tratamento e na acção psico-social junto dos nativos. Sou médico em África”.

Era ver, diariamente, a bicha de africanos no Posto de Socorros. Até a Helena, a “Pacaça”, a “amiga” dos militares, se apresentava semanalmente à inspecção: “A Helena é do Estado e não pode pregar doença”, dizia ela.

Acabado o rancho, noite escura e chuvosa, a rádio dava ruídos à mistura com notas de música. Televisão não havia. Conversávamos, enquanto outros jogavam e discutiam. A figura do “Cifra” assumira à porta, como tantas vezes acontecia. Nunca eram boas novas. Uma mensagem, vinda da Companhia do Lucunga, com o médico ausente, o furriel enfermeiro pedia instruções do que fazer a uma mulher em trabalho de parto há três dias, já com sinais de coma e de que, “só agora, a “Mulher-Grande” dera conhecimento”.

Passei o papel ao “Tonecas”. Leu-o, mudou de côr, levantou-se e, compenetrado, disse: “Capitão, preciso de escolta. Há duas vidas em perigo”. O sentido do dever e ajuda ao próximo venciam o medo físico.

Pouco depois roncavam os “Unimogs” e o Silva Pereira, comandante do Grupo de Combate de escolta, pedia-me licença para arrancar. No jeep sanitário o Terrinha (era este o seu nome) e o cabo enfermeiro Vicente com a mochila dos primeiros socorros faziam-se à “picada”. Uma viagem de 100 km., a mata densa, negra, encharcada e perigosa…Pela manhã do dia seguinte, regressavam, enlameados, mais barbudos, mas todos sorridentes. Salvaram-se duas vidas e o bebé iria chamar-se António, em homenagem ao parteiro!

Cel. R. Morna do Nascimento

«A foto foi tirada no Lucunga, após a deslocação aqui relatada. Para ampliar, clique na imagem»

Publicado por VETERANO, com a devida autorização do autor do texto


sábado, 30 de maio de 2009

In Memoriam --- 02 - Dr. António Terrinha

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O Dr. António Terrinha com a equipa de futebol do 4º. Grupo de Combate
1ª fila: o "Braga" e o "Maçarico"
2ª. Fila: o Dr. Terrinha, o "Palhaço", o Leite, o Dias e o "Mano"

Em meados de Março de 1965 aterrei, no Aeródromo de Manobra do Toto no fim de uma acidentada viagem – que incluiu dois regressos às pistas de Luanda e uma alteração de rota – Maquela do Zombo antes do Toto. Doença grave retivera-me na Metrópole. O Batalhão embarcara, entretanto e era agora a altura do reencontro ao fim de mais de dois meses passados no hospital. Um jeep esperava para me levar ao quartel, a antiga pousada da localidade, quartel que encontrei sem oficiais operacionais, pois o Capitão Mira, o Palaio e o Augusto andavam em operações e o Barreira encontrava-se no Hospital Militar de Luanda por ter sido ferido em combate. Quem comandava a pequena guarnição restante era, nem mais nem menos, o Dr. António Terrinha, que compensava a sua inabilidade militar com as elevadas qualidades de Homem e de Médico que possuía
Com o à-vontade que o caracterizava, exigiu, logo ali, que deixasse o “sr. doutor” e o tratasse por “tu”, tal como se tivéssemos sido condiscípulos na instrução primária. Era um caso raro de empatia, gerando imediata amizade. Um pouco mais velho do que nós, já casado e pai de família, com uma experiência de vida que, pelo menos eu, ainda não tinha nem imaginava vir a ter tão cedo. Eram circunstâncias que pesavam no respeito e na enorme consideração que todos tínhamos por ele.
De alguns episódios me recordo. Religiosamente, salvo erro às quartas-feiras, ele próprio colocava no nosso prato o comprimido do anti-palúdico (camoprima?), o que, todavia, não impedia que tivéssemos, por vezes, violentos ataques de paludismo; da preocupação com que viveu um episódio de doença do “Palhaço”; da cura da bebedeira do “Bombeiro”; da insistência no treino dos enfermeiros e na adequação do saco de socorros – material do tempo da II Guerra - às características daquela que, então vivíamos; e da preocupação de ensinar, tudo quanto podia, ao Furriel Enfermeiro Veiga, o “Pastilhas”.
Uns meses mais tarde, encontrava-me eu colocado no Mussende e tive de deslocar-me à Companhia, no Calulo. Já nas proximidades desta localidade, ao atravessar uma pequena povoação, dei com um jeep lá parado. Tinham ali levado o Terrinha para consultas. Fez-me uma recepção calorosíssima e convidou-me para almoçar em casa dele – a sua Esposa juntara-se-lhe, já que o Calulo, onde se encontrava então, era zona perfeitamente pacificada. Não resisto a contar que a senhora ficou um pouco atrapalhada sem saber o que me oferecer para almoço, e, com certo constrangimento, acabou por confessar que só tinha, naquele momento, possibilidade de cozer bacalhau. Eu, que já não via bacalhau há não sei quanto tempo, achei, evidentemente, a proposta agradabilíssima. Disse-me ela depois, nunca ter visto ninguém comer, com tanto agrado, um simples prato de bacalhau cozido com batatas.
Quando a CArt se deslocou para o Leste, o Dr. Terrinha, não nos acompanhou. Reencontrámo-lo, mais tarde, na hora do regresso. Chegados à Metrópole, demorei a voltar a vê-lo. Foi só cerca de 1978, se a memória me não atraiçoa, quando, propositadamente, me desloquei a Lisboa para uma consulta sobre dois dos meus filhos. Dedicava-se, então, à investigação na área da hepatite e chegou mesmo a fazer um programa de televisão, de cujo nome me não recordo. Vi-o, algumas poucas vezes mais, em algumas confraternizações do BArt, e a sua presença era sempre motivo de alegria e de muita satisfação. Faleceu, vítima de doença prolongada, salvo erro em 1993, deixando, em todos nós, uma saudade imensa.
VETERANO

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Batalhão - Álbum de Fotos - C.Art 738

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Cap Art Rubi José Alfredo Mourão Marques
Alf Mil Med Pedro Manuel Monteiro Salazar Leite

Alf Mil Inf José Fernando Figueiredo Pereira
Alf Mil Inf Francisco Cabral da Silva Morgado

Alf Mil Inf Victor Manuel Melancia Casimiro
Alf Mil Inf Sebastião José Terra Fagundes