Teve, por Unidade mobilizadora, o Regimento de Artilharia Ligeira 1, de Lisboa. Constituído por três Companhias operacionais e uma de comando e serviços - C.ART 738, C.ART 739, C.ART 740 e CCS - desembarcou em Luanda no dia 18 de Janeiro de 1965. Regressou à Metrópole em 1967, aportando ao cais da Rocha do Conde de Óbidos a 9 de Março.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

In Memoriam --- 08 - Carlos Alberto Couto Ramos


O Ramos era Furriel do 3º. Grupo de Combate, mas participou de algumas operações em que o 4º. Grupo esteve envolvido. A foto deste postal é, exactamente, de uma dessas ocasiões.
A determinada altura da nossa estadia no Norte, o meu Furriel Carlos Ventura atravessou um período de doença relativamente prolongado. Definhou a olhos vistos e mal se aguentava em pé. Tudo, cremos, fruto do excessivo trabalho a que o Grupo vinha sendo sujeito. O Ventura, não aguentou e foi, física e psicologicamente, abaixo.
Não sendo razoável a realização de operações militares com apenas um Sargento, pois, entretanto, já dispensara um outro, o Cap Art Fernando Mira entendeu transferir para o meu GC o Carlos Ramos, por algum tempo e na expectativa da recuperação do Ventura.
Não foi, pois, uma colaboração prolongada, mas foi uma colaboração leal, e eficaz. O Ramos comandava bem e ganhou rapidamente o respeito e a estima da sua (nova) Secção, o que, naquelas condições, é extremamente importante. Regressou, algum tempo depois, à sua anterior situação e nela permaneceu até ao fim da comissão.
Foi, porém, mais no Porto e após o regresso, que mantivemos contactos mais frequentes e se estreitou a amizade. O Ramos, que era professor, enquanto não foi novamente colocado, trabalhou como instrutor de condução, numa escola da “baixa” do Porto. Ele próprio me contactou, pois sabia do meu local de trabalho, passando a encontrarmo-nos, com frequência, nos cafés da “baixa”. Quando iniciei a organização de convívios, ele foi um dos primeiros aderentes e deles sempre participou até ao dia em que foi colocado no Algarve, deixando-me, aquando da despedida, uma morada de Tavira.
Nunca mais nos encontrámos e, há já alguns anos, recebi, devolvida, a carta-convite para uma das confraternizações, com a indicação do seu falecimento. Repeti, apesar de tudo, o envio da carta no ano seguinte, mas a informação, para tristeza nossa, foi a mesma.
VETERANO

sábado, 22 de maio de 2010

E, Para Tudo, Há Sempre Uma Primeira Vez...

No dia imediatamente a seguir à minha chegada (tardia) ao Tôto foi recebido um rádio proveniente dos Grupos de Combate que andavam em operações na AIL recentemente atribuída à CArt 739. Os Grupos encontravam-se sob o comando do próprio Cap Art Fernando Mira o qual ordenava que lhe fosse levado, para além de outro, diverso material para a construção de jangadas.

Estava-se em plena Estação das Chuvas. Por aquelas paragens e por essa altura do ano, sucedia um fenómeno a que não estávamos habituados: o dia apresentava-se com o céu limpo e a temperatura, logo pela manhã, atingia valores muito elevados. De repente, sensivelmente à mesma hora, em cada dia, começava a ventar, o céu, em poucos minutos cobria-se de nuvens negras e desencadeava-se uma furiosíssima tempestade. A chuva era torrencial, as faíscas caíam por todo o lado e os cursos de água aumentavam assustadoramente de volume. Talvez nem uma hora depois, tudo voltava a serenar, desapareciam as nuvens do céu, o sol brilhava de novo e o calor explodia. A humidade era elevadíssima e era um martírio caminhar no meio daquele capim, cujo tamanho escondia perfeitamente uma pessoa em pé. No dia seguinte, repetia-se o fenómeno.

Os rios e riachos, por pequenos que fossem, normalmente transbordavam e se, porventura, nos descuidássemos, corria-se o risco de nos desorientarmos. O terreno depois da tempestade já não era o mesmo de antes dela. Havia água por todo o lado e a progressão ficava muito dificultada.

No cumprimento da ordem recebida mandei preparar as viaturas e carregá-las com o material pedido. O meu pessoal foi equipar-se e, após recebermos as rações de combate que se previa serem necessárias, seguimos para o local referido no rádio.

Não ia muito confiante e julgo que o meu pessoal também não. Era a primeira vez que operava naquelas condições, desconhecia qual a actividade do inimigo na zona e receava, sobretudo, que, em caso de necessidade, não fosse capaz de comandar convenientemente. Por muito treino que tenhamos, é a acção que nos ensina os procedimentos, através dos erros que vamos cometendo. Só que, aqui, os erros podiam pagar-se com a vida…

Fase inicial dos trabalhos!
Reconhece-se o Furriel Ventura, com a sua jóia mais preciosa: o rádio!!!

Os condutores já conheciam o caminho, pois eram os mesmo que tinham levado os Grupos em operações ao ponto de largada. Era menos uma preocupação até porque não existiam quaisquer cartas militares, utilizando-se, apenas fotografias aéreas demasiado imprecisas e vagas. Só a sucessão dos patrulhamentos nos foi permitindo, a pouco e pouco, ir conhecendo a área de acção. Ao fim de uns meses já não queria saber das fotografias aéreas para nada!

A determinada altura do percurso era necessário atravessar um riacho com um “pontão” que não passava de dois ou três pequenos troncos de árvores pousados numa e noutra margem. As chuvas, todavia, haviam levado tudo e, embora o riacho não fosse fundo naquele ponto, corria-se o risco de se não conseguir passar. Os condutores, mais experientes do que eu, sugeriram-me que se ganhasse velocidade na descida antes do rio, de maneira a que as viaturas passassem para o outro lado e depois se veria.

Concordei. Convém, todavia, dizer que a coluna era composta por jipões do tempo da segunda guerra, mais prontos para a sucata do que para o que deles se exigia, e que só andavam em virtude do “desenrascanço” característico da tropa. Ora sucedeu que, com mais ou menos sorte, o primeiro e o segundo lá passaram para o outro lado, mas o terceiro, com o salto sofrido na tentativa de atravessar o curso de água, avariou ali mesmo e já não saiu do riacho.

O mecânico, que acompanhava sempre as colunas motorizadas, começou imediatamente a trabalhar, enquanto o Sol ia descendo para o ocaso. As noites caiem depressa nos trópicos e, em pouco tempo era noite cerrada e, para o especialista continuar a tarefa foi necessário acender as luzes de uma das viaturas, de modo a iluminar o jipão avariado. Era uma situação extremamente vulnerável e, consciente disso mesmo, ordenei o reforço das sentinelas ao longo da picada, de um e do outro lado do riacho.

Horas depois, sem resolver o problema do jipão, decidi deixar o caso para o dia seguinte, tratámos de mastigar qualquer coisa e deitámo-nos para dormir.

Metade do trabalho, praticamente já feito!

Às tantas da noite um restolho fora do normal chamou a atenção de uma sentinela que, temerosa e pouco experiente (se alguém me disser que nunca teve medo…eu não acredito!), não esteve com meias medidas e disparou uma rajada de FN para o local, Toda a gente acordou e se precipitou para a água do riacho como de uma trincheira se tratasse.

Não houve mais ruído e, amanhecendo entretanto, como nada de especial detectássemos, concluímos ter sido um qualquer animal em busca de água que se assustou com a nossa presença.

Decidido a continuar a qualquer preço, mandei afastar o jipão do caminho, à força de braço e de guincho, e fiz passar, pelo lado, o jipão do guincho, com o qual mandei guindar as viaturas. Mais nenhuma avariou, Quanto àquele, não me recordo se o problema foi resolvido ou se foi a reboque.

Entrando em contacto com as forças em operações, incorporámo-nos nelas, mas, em breve, todos regressaram devido às condições do terreno e à ausência de forças inimigas.

A cereja no cimo do bolo foi o “puxão de orelhas” dado pelo Cap Art Fernando Mira que não aceitou o facto de eu ter “intervalado” a progressão da coluna. No dizer dele, um militar só pára depois de ter cumprido a missão. Nunca antes!

Aprendi a lição e, jurei a mim mesmo, tornar-me no melhor subalterno da CArt. Obviamente, não consegui, mas, pelo menos, tentei!

A segunda missão de que participei foi a reconstrução deste mesmo pontão. Mal chegados ao quartel, foi isso mesmo que me tocou em sorte! As fotos que acompanham este postal são, exactamente, dessa altura.

Pausa para a "latinha de conserva"!
Em primeiro plano, o Agostinho.

O "pontão" quase pronto!
A equipa de sentinela também quis aparecer na fotografia!
Reconhecem-se: o "Mano", o "Queijo", o Cerqueira, o Furriel Ventura, o Leite e o Horta!
Não identifico ou não me recordo do nome dos restantes.

VETERANO

domingo, 16 de maio de 2010

Mussende Revisitado - Parte 2

Festas em Honra de Santo António
A Procissão

Início da Procissão, após a saída da Igreja

Podem ver-se o "Mano"(atrás do civil de chapeu na mão) e o Martins, este logo atrás do Sacerdote

Ainda o Martins e o Manuel Sabido (vestido à civil e logo atrás do sacristão à esquerda, na foto)

Logo após a publicação do postal "Mussende Revisitado - Parte 1" o autor do blogue foi contactado por correio electrónico por parte de um antigo Administrador do Mussende, o Sr. Francisco Nunes da Fonseca, que teve a amabilidade de referir alguns factos relativos à localidade e que, com a devida vénia, me permito transcrever:

Cheguei ao Mussende em Fevereiro de 1971, era administrador de posto e logo criei uma boa relação com toda a gente e para citar dir-lhe-ei alguns nomes o António Leitão ( está numa das fotos, já falecido), o José Bicho, o Costa (está na foto ao lado do furriel João Mouga, na festa de Santo António), o Coelho ( a casa comercial á frente da paragem do autocarro - a firma de camionagem era Evipal) e o José Bento que veio a ser meu sogro, tinha casa na saída da vila para Andulo / Silva Porto. Ele era extremamente careca; havia os Barreiros, eram três irmãos, o Nascimento Cipriano, etc.

Da familia Leitão disseram-me há dias que estariam lá dois filhos.

O vosso quartel deixou mais tarde de sê-lo e tornou-se agência bancária do Totta Standard de Angola.

*********
Continuarei a manter correspondência com a assiduidade possível. Mas, para já, publico algumas fotos da procissão em honra de Santo António e fico na esperança de que o novo Amigo, Sr. Fonseca, possa identificar mais alguns civis, pois, com muita pena, não guardo lembrança de nome nenhum.

VETERANO

sexta-feira, 14 de maio de 2010

PAPA BENTO XVI

Como Católico tradicionalista não podia, no dia em que Bento XVI, o Papa da Matriz Cristã da Europa, deixou a minha cidade do Porto de regresso a Roma, referir, aqui, estas suas palavras: "Hoje, participando na edificação da Comunidade Europeia, levai o contributo da vossa identidade cultural e religiosa".

VETERANO

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O "Reintegrado" do Lucunga

Em meados de Abril de 1965, apresentou-se no posto administrativo de Lucunga um jovem negro que afirmava ser natural daquela localidade. Segundo ele, teria fugido com os pais para Kinshasa em consequência dos massacres de Março de 1961. Resolvera regressar e, sendo cidadão português nascido em Angola, pretendia integrar-se na sociedade angolana.

Enquanto decorriam as necessárias formalidades, ficou alojado nas instalações do posto administrativo, tendo-se tornado uma espécie de hóspede de todos nós. Circulava livremente pela povoação, falava sobre a vida que levava em Kinshasa, tomava parte activa nos nossos jogos de futebol, e ia bebendo as cervejas que um ou outro lhe pagava na cantina.

Deste modo, levávamos à prática a política de Acção Psico-Social, tão cara às autoridades nacionais e, muito particularmente, ao nosso comandante de Batalhão.

De vez em quando, tinham lugar no edifício do posto renhidos jogos de cartas, durante os quais se bebia brandy (já então o Constantino era famoso) e cerveja, conforme os gostos.

No dia 12 de Maio, decorria um desses jogos. Além dos jogadores havia, como de costume, alguns assistentes. Um desses assistentes era o jovem negro recém-apresentado que, não poupando na bebida, começou a apresentar uma loquacidade que surpreendeu os presentes, que lhe foram puxando pela língua, com a ajuda do álcool que ia bebendo.

E qual não é o espanto de todos quando ele começa a dizer que conhecia todos os cantos do “quartel”; sabia onde eram os alojamentos de todos os militares, fossem oficiais, sargentos ou praças e conhecia todas as rotinas da Companhia; finalmente, acabou por dizer que tinha ido a Lucunga para espiar e que tinha chegado a hora de se ir embora.

Dito isto, saiu disparado porta fora em direcção ao campo de futebol e à saída poente da localidade.

De todos os presentes, apenas o comerciante Santos estava armado. Saiu atrás dele, tirou a pistola do coldre e fez dois disparos. Ao segundo disparo o fugitivo parou, no meio do campo, com as mãos no ar.

Conduzido à sala de comando, onde foi sujeito a longo e insistente interrogatório, pouco revelou. Confirmou que tinha sido mandado pela FNLA para recolher informações, e adiantou que fugira porque tinha à sua espera no hospital (situado a algumas dezenas de metros da povoação e parcialmente em ruínas) um grupo da FNLA para o escoltar de volta a Kinshasa, onde apresentaria o seu relatório.

Alguns dias depois, a Rádio Brazzaville confirmaria a estada dos FNLA's no hospital e aproveitaria para fazer a habitual propaganda, acusando-nos de termos praticado as maiores diabruras durante o interrogatório.

Algum tempo depois, já quase recuperado do susto que apanhou ao sentir as balas da pistola do Santos a assobiarem junto à cabeça, foi entregue ao comando do Batalhão, no Vale do Loge.

Meses mais tarde, militares da Companhia que se deslocaram a Carmona, em serviço, encontraram-no. Parece que tinha sido mesmo recuperado e era contínuo na Repartição de Finanças.

Parecia muito contente. Mas estaria mesmo recuperado?

Carlos Fonseca

CArt 738

sexta-feira, 30 de abril de 2010

REGIMENTO DE INFANTARIA 8 - Braga - (Interregno - o Bart 741 continua em Maio)

Em recente arrumação de uma gaveta, dei com as fotografias que publico neste postal. Datam de Abril de 1964, isto é, de há 46 anos! Retratam, em duas ocasiões diferentes embora próximas, alguns oficiais do, então, Regimento de Infantaria 8, em Braga, onde fui colocado findo que foi o meu Curso de Oficiais Milicianos.

Em pé, da esquerda para a direita: AspOfMilMédico (cujo nome não recordo), AspOfMil(Ferraz, salvo erro), AspOfMilAdMil Pinto (que foi meu condiscípulo, e, mais tarde, colega bancário), o autor do blogue, Major Magalhães, Director de Instrução, já falecido, que, algumas vezes, ainda tive o gosto de rever, no Porto, AspOfMilInf Melo, AspOfMilCav(cujo nome também me não recordo), AspOfMilInf Almeida e Silva, AspOfMilInf Torres e AspOfMilInf Góis (que voltei a ver uma única vez, já em Angola, no Regimento de Infantaria de Luanda.
Sentados, da esquerda para a direita: AspOfMilInf Aparício e AspOfMilInf Neves da Silva.

Não resisti à tentação de as publicar e, disso, quero pedir desculpa a quantos me honram visitando este blogue, já que nada têm a ver com o BArt741. Alguma vaidade, confesso, esteve na origem da decisão. Mas foi sobretudo, o orgulho! O orgulho de ter feito parte deste grupo de jovens oficiais, cujo entusiasmo pela vida que iniciavam ainda hoje me comove! Orgulho da farda que envergávamos e de tudo quanto ela, para nós, representava!

AspOfMilInf Neves da Silva, AspOfMilInf Almeida e Silva, AspOfMilAdMil Pinto, AspOfMilInf Torres, AspOfMilInf Aparício, AspOfMilCav (??) e o autor do blogue.

VETERANO

sexta-feira, 23 de abril de 2010

In Memoriam --- 07 - Ten.Cel. Mário Martins Cabrita Gil

Conheci o Comandante do nosso BART 741 já em Angola.
O avião que me levou ao Tôto sofrera vários atrasos durante o percurso e só lá aterrou ao fim da tarde. Todos os oficiais se encontravam em operações, com excepção do Alferes-Médico Dr. Terrinha, que comandava o quartel. E, logo no dia seguinte, eu próprio saí para prestar apoio aos pelotões em operações. Somente após o regresso foi possível deslocar-me ao Vale do Loje para me apresentar, de conformidade com os Regulamentos Militares. E foi essa a primeira vez que o vi.
De várias situações vividas com a presença do Cel. Cabrita Gil me lembro eu e, com certeza, terei, mais tarde ou mais cedo, oportunidade de as contar. Mas, desta vez, trata-se de deixar aqui uma referência mais pessoal e, por isso, solicitei do meu Estimado Amigo TenCel. Nuno Anselmo, que o conheceu bem, as palavras que se justificam para este postal "In Memoriam".


Conheci o Tenente-coronel Cabrita Gil, na Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas em OUTUBRO de 1962, quando após ter terminado o Curso na Academia Militar, nos apresentamos na Escola Pratica para efectuarmos o respectivo tirocínio.
Estávamos (eu e os restantes 21 elementos do curso), já bastante fartos de sermos alunos e o que queríamos era finalmente iniciar a carreira militar que tínhamos escolhido.
Mas faltava aquela etapa que ainda tínhamos que cumprir….
Durante a Academia Militar ensinaram-nos a Comandar quase todos os tipos de Unidades, mas esqueceram-se de nos ensinar a Comandar Soldados….
O então Major de Artilharia Cabrita Gil, foi o meu Director de Instrução, durante o tirocínio e como tal o responsável pela nossa preparação prática como futuros Oficiais de Artilharia.
Por um lado sabíamos que iríamos para o Ultramar logo que terminado o curso, possivelmente como Infantaria, mas durante o tirocínio, mantivemos a preparação como futuros Oficiais de Artilharia.
Não estarei a mentir, se disser, que dei muitos mais tiros de artilharia durante o tirocínio, do que de espingarda, pistola ou pistola-metralhadora.
Como vivíamos todos no quartel foi possível aperceber, pela convivência, que o Major Cabrita Gil era um profissional dedicado e extremamente preocupado com as suas funções.
Apesar da preocupação principal ser a formação técnica de Artilharia, foi lá que pela primeira vez me colocaram em frente a um pelotão de soldados para dar instrução de ordem unida (ainda me lembro e muito bem dessa hora e das bocas dos soldados desse pelotão …) e foi lá que igualmente aprendi a transmitir aos outros os conhecimentos indispensáveis para a sobrevivência no campo de batalha. Até então limitara-me a aprender. Ensinar é um pouco mais difícil.
O Director de Instrução era presença constante nas nossas instruções, nas salas de aula ou no campo, sinal de que se encontrava totalmente empenhado no cumprimento da sua missão.
Estávamos em 1962 e um Major Director de Instrução era um senhor e os Aspirantes tirocinantes estavam ali para aprender e mais nada, pois a guerra esperava-os em breve….
Portanto, o nosso relacionamento só deu para constatar o profissionalismo e o grande empenho que dedicava no cumprimento das suas funções.
A parte do tirocínio em Vendas Novas terminou em ABRIL de 1963, depois fomos para o CIAAC completar a formação artilheira em Antiaérea e Costa. Nessa altura perdi o contacto com o Major Cabrita Gil, que recomeçou alguns dias antes de embarcarmos para Angola em 9JAN1965 (sujeito a confirmação pois julgo que embora não tenha estado presente durante a formação do BART 741, por ser 2º Comandante dum B.ART que estava em Zala / Angola, terá aparecido no RALIS para embarcar connosco).

O Ten Coronel Cabrita Gil desde o início do seu contacto pessoal com o Bart 741, sempre enalteceu os seus militares especialmente os seus capitães. Embora não tivesse acompanhado em pessoa a preparação do Batalhão (era 2º CMDT do BART que estava em Zala em Angola), acompanhou, dentro das possibilidades de contacto existentes em Portugal naquela época (OUT 1964), a instrução, a preparação e a preocupação que os oficiais do Comando do Batalhão e das Companhias, incluindo a CCS, iam desenvolvendo na formação do BART 741.
Quando iniciou o Comando do Batalhão, consciente do nível de preparação do seu pessoal e tendo uma experiência de um ano como 2º Comandante de um BART cujo comando era em Zala uma das localidades mais perigosas na altura em Angola, começou logo a congeminar a melhor maneira de o SEU BATALHÃO cumprir a Missão.
No Colonato do Vale do Loge onde se encontrava sediado o Comando do Batalhão, apenas se encontrava a CCS (Companhia de Comando e Serviços) e os 2 Pelotões de Reforço ao BART 741 (Pel. Morteiros 897 – Alf Mil Sá e o Pel. Caçadores 967 – Alf. Mil Navega.
Na CCS existiam apenas 2 Pelotões operacionais – o Pel.Rec.Informações e o Pel Sapadores.
Sendo eu, Alferes Anselmo, o Comandante do PEL.REC.INF, Oficial do Quadro Permanente e que após ter sido mobilizado para Angola tinha sido nomeado para frequentar o Curso de Operações Especiais, curso que completei, naturalmente fui muito bem aproveitado, bem como todo o pessoal do PEL.REC., pelo Comandante de Batalhão, para cumprir todas as missões na Zona de Acção da CCS, em especial ao longo do muito sinuoso Rio Loge e do não menos famoso Monte CAU, que percorremos a pé a todo o seu cumprimento e largura, para além das que isoladamente ou com outros Pelotões cumprimos na zona de acção do SUBSECTOR 1.

Sempre que o Comando do Batalhão conseguia o apoio da Força Aérea para efectuar reconhecimentos aéreos, o T.Cor Cabrita Gil logo que pressentia a vinda dos meios aéreos pegava no Jeep que se encontrava junto ao Comando e dirigia-se para a pista existente e lá ia sozinho ou acompanhado (pelo menos uma vez fui com ele) fazer o reconhecimento aéreo.
Aliás, sempre que possível, ele acompanhava as operações a nível companhia ou por ele directamente determinadas recorrendo aos meios aéreos disponíveis, preocupando-se muito com a evolução das mesmas.
Foi aliás numa dessas operações, onde o PEL.REC. tomou parte que, durante quase um dia inteiro passou por cima do Pelotão pedindo-nos informações e a nossa localização.
A sua insistência em saber onde se encontrava o PEL.REC. levou-o, uma das vezes a achar estranho que a nossa localização fosse, passadas 2 ou 3 horas, muito próxima da anterior e a criticar o comportamento do Pelotão. Como nos encontrávamos no Monte CAU cuja orografia é por mais conhecida como muito irregular, eu pessoalmente e via rádio convidei-o a que na nossa próxima saída, ele nos acompanhasse no terreno para se aperceber como o mesmo era irregular.
Não me disse mais nada durante essa operação e passadas uma ou duas semanas, cerca das 4 horas da manhã, mandou-me chamar para irmos, o meu Pelotão e ele, para Nova Caipemba, onde se encontrava a 7ª Companhia de Caçadores da Guarnição Normal do R. Infantaria de Nova Lisboa que estava de Reforço ao SUBSECTOR 1, cujo Comandante era o Cmdt do BART 741.
Inicialmente julgava que ele iria connosco até Nova Caipemba para dar instruções ao Cmdt da Companhia – Cap. Martinho, sobre a operação que queria que fosse realizada.
Mas não, ele ia disposto a ir com o pessoal para o mato para saber como era efectivamente o terreno.
Iríamos para a Serra da Cananga, cuja orografia era em tudo semelhante ao Monte CAU. Fez o seu plano de operações e quis abordar a Cananga pela contra encosta. O Cap. Martinho informou-o que não seria boa ideia pois seríamos logo avistados assim que saíssemos das viaturas, pois até ao início da subida teríamos de andar bastante a pé e a ser observados. Manteve a dele e logo que se iniciou a subida ouviram-se os tais tiros de aviso. Começou a subida, muito difícil. A idade e possivelmente a pouca preparação física, comparada com a do pessoal do PEL.REC., do Cmdt da 7ª Comp. e seu PEL., fez com só conseguíssemos chegar ao cimo no fim da tarde após termos sofrido uma emboscada com um ferido grave no Pel da 7ª Companhia. A chuva diluviana que se abateu sobre nós, a dificuldade de naquelas condições voltarmos para trás ou seguirmos em frente e por ser ainda impossível fazer a evacuação aérea dado o local e a hora, obrigou-nos a pernoitar ali mesmo.
Dadas as dificuldades encontradas e o facto de termos de evacuar o ferido a missão foi abortada e regressámos a Nova Caipemba, no dia seguinte.
Quis ver no terreno o nosso trabalho e nunca mais achou estranho lá no alto a nossa velocidade no terreno.

Sabíamos perfeitamente no Comando do Batalhão, que passava muitas noites na Sala de Operações a trabalhar e possivelmente a congeminar operações e mantinha uma preocupação constante em que o SEU BATALHÃO cumprisse na íntegra a MISSÃO.
Nem sempre aceitava as propostas ou comentários às suas ideias ou decisões. Gostava primeiro de verificar no local e pessoalmente e só em caso de falha é que aceitava outras ideias ou sugestões.
Outra situação que mostrava alguma dificuldade em aceitar sugestões, de quem conhecia o terreno melhor do que ele, foi a seguinte.
Na estrada do Colonato para o Toto apareceu pregado num pau um documento em que alguns elementos da população que viviam isolados no Monte Cau, manifestavam a intenção de se entregarem. Pediam que os fossem buscar a um local que indicavam e que se possível, os ajudassem a transportar alguns bens que possuíam.
Aquele documento foi levado ao conhecimento do Quartel-general da Região Militar de Angola em Luanda, que manifestou muito interesse em que viessem de lá, do QG, alguns Oficiais para colaborar na operação da entrega dos elementos da população.
Claro que o PEL.REC. foi nomeado para a operação. Qual não foi o meu espanto quando verifiquei que, da operação iriam fazer parte todos os Oficiais que vinham do QG, (julgo que também estava o Comandante do BCAÇ 503- T.Cor Infª Ilharco), o T.Cor Cabrita Gil e não me lembro se também estaria o Oficial de Operações do BART741, Cap. Carvalho Pires.
O PEL.REC. iria limitar-se a fazer a escolta ao pessoal e a ficar junto às viaturas a aguardar que os elementos da população se entregassem ao pessoal que os iria buscar e regressassem às viaturas.
A população que se queria entregar vivia na encosta do Monte CAU virada ao Colonato e a abordagem iria ser feita na contra encosta do Monte CAU saindo as viaturas da estrada do TOTO para o SONGO e dirigindo-se para a base do Monte.
Tentei convencer o Comandante e os restantes Oficiais que com tal aparato ninguém se entregaria e que seria muito difícil ou mesmo impossível as populações atravessarem o Monte Cau com os seus haveres e entregarem-se.
Mantiveram a sua ideia e claro está que ninguém se entregou.
Passados dias voltou a aparecer outro documento no mesmo local dizendo que mantinham a vontade de se entregarem, mas que os fossem buscar com menos aparato.
Desta vez fui ouvido e lá foi o PEL.REC. cumprir mais esta missão.
Quando cheguei ao local, fui logo reconhecido pela população e alguns elementos mostraram-me que sabiam perfeitamente quem eu era e quando o PEL.REC. saía pois a saída do Colonato em direcção ao Monte CAU era perfeitamente detectada.
Quão vulneráveis nós éramos…….

Como características marcantes da personalidade do Tenente Coronel Mário Martins Cabrita Gil, direi que era um Comandante:
· Amigo e extremamente preocupado com TODO O SEU PESSOAL, sabendo chamar à atenção quando necessário, mas que elogiava, enaltecia e defendia insistentemente quando era preciso.
· Que exigia de si próprio mais do aos outros e que acima de tudo estava disposto a tudo fazer para cumprir a Missão que lhe fora confiada, no Comando do BART 741
Carnaxide 10MARÇO2010
Nuno Guilherme Catarino Anselmo
Alf Artª / PEL.REC / CCS / B.ART 741
TEN/CAP ARTº / C.ART 740 / B.ART 741

domingo, 11 de abril de 2010

Mussende Revisitado - Parte 1

Após um ano de acção no Norte de Angola, o Batalhão de Artilharia 741 foi deslocado para a Zona Centro. Coube à CArt 739, na altura sob o comando do Cap Inf Ramiro Morna do Nascimento, ocupar o aquartelamento do Calulo, tendo, no próprio dia da chegada, deslocado um Pelotão (4º. Pelotão, comandado pelo autor do blogue) para o Mussende.

O Quartel

O Mussende era uma pequena localidade num cruzamento de estradas, a principal das quais ligava Nova Lisboa (actual Huambo) a Malange. Ao longo dos tempos, a tropa que por lá passara, adaptara a quartel uma casa civil, sem proceder a grandes modificações, salvo a construção, no logradouro, de um coberto de chapa zincada para uma meia dúzia de mesas e que servia de refeitório. Ao longo desse espaço corria um pequeno regato (que desaguava num rio próximo) cuja água se usava na lavagem da roupa e em limpezas gerais. Para beber e cozinhar, o recurso era o atrelado-tanque, que saía com a frequência que se justificava, intervalando com as necessidades de recolha de lenha. O problema maior era a ausência de electricidade que nos obrigava a utilizar uns quantos “petromax” espalhados pelas divisões do “quartel”.

Em dia de carreira

Procurou-se gozar o repouso que se julgava merecido. Para além das obrigações – água e lenha, deslocações para reabastecimento e um patrulhamento diário num itinerário previamente escolhido na enorme área atribuída – jogava-se à bola, passeava-se, bebiam-se umas cervejas no café do Leitão (onde se jogava às “damas” e ao “gamão”) ou no do Escudeiro As obras que se executavam eram, apenas, as imprescindíveis à conservação do quartel. E, sempre que possível, saí-se para caçar, melhorando-se desta maneira a qualidade da alimentação.

Salvo erro, duas vezes por semana, a localidade animava-se com a paragem das camionetas de carreira. Os viajantes saíam para desentorpecer as penas e refrescarem-se nos cafés já referidos, aliás, os únicos existentes. Era uma das possibilidades de negócio dos comerciantes locais, que nos outros dias, pouco mais faziam do que trocar – era mesmo isso, trocar – fazendas e utensílios variados importados da Metrópole, pelos produtos locais que a população lhes levava.

No café do Leitão
Furriel Mouga, Furriel Ventura e Sargento Santa
Por detrás do balcão, o proprietário

Os padeiros
"Bombeiro" e Albino
Os nossos cozinheiros
Pois claro! Dávamo-nos a estes luxos!!!

Um jeep em patrulhamento
O "Compadre" repõe a água no radiador. Ao fundo, o Martins está na conversa.
Festas em honra de Santo António, orago do Mussende
O Furriel João Mouga, em primeiro plano, ao lado o civil Costa e, à sua esquerda, mas um pouco atrás, o "Maçarico" (à civil)

O 4º. Pelotão da CArt 739 passou, aqui, cerca de 4 meses, pois, em Junho, recebeu ordem de se juntar à sua Companhia – em deslocação para Nova Lisboa – a fim de, naquela cidade, embarcar nos Caminhos de Ferro de Benguela, com destino ao Lucusse, no Leste angolano.

VETERANO


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quarta-feira, 31 de março de 2010

In Memoriam --- 06 - Fernando Babo


Dois camaradas, dois bons amigos

Fernando Babo e Carlos Fonseca

"O criador deste blogue comunicou-me há quatro dias que o meu antigo camarada Babo falecera em Setembro de 2009, conforme informação de sua filha Sandra.
Não o sabia doente e a informação teve o efeito de um inesperado murro no estômago. Decidi, então, alinhavar estas linhas evocativas da nossa vivência conjunta em Angola, e pedir o habitual e generoso acolhimento do “Veterano”.
Conheci o Fernando Babo – Fernando Pinto da Rocha Babo, de seu nome completo – quando, em Setembro de 1964, me apresentei no RAL 1, para integrar o BART 741, em formação.
Acabámos por ficar na mesma Companhia (a CArt 738) e fomos cimentando uma camaradagem ao longo do tempo que acabou por nos tornar amigos. De resto, não era difícil ser amigo do Babo. Creio que não havia um único militar da Companhia que não sentisse simpatia por aquele furriel-miliciano equilibrado e sensato.
A estas qualidades acresciam uma esmerada educação e uma apurada sensibilidade. Vou referir duas “histórias”a título de exemplo.
É do conhecimento geral que nos quartéis era normal o uso de uma linguagem que não primava pela elegância, sendo vulgar o uso do palavrão. A excepção na nossa Companhia era o Babo. Quando achava que alguma brincadeira estava a passar das marcas, utilizava uma expressão que nunca mais esqueci: olhava para o “abusador” e dizia-lhe com a sua pronúncia muito característica: “ Vai morder o S. João na pila!”. Note-se que não estou a adoçar a frase, usando um termo diferente; era mesmo assim, com delicadeza, que se expressava.
A sensibilidade manifestou-se, por exemplo, na comemoração do seu primeiro aniversário, em Lucunga.
Cada oficial e cada sargento tinha criado o hábito de, no dia do aniversário, oferecer um jantar com ementa melhorada – normalmente frango de churrasco - a todos os outros oficiais e sargentos.
Era uma ocasião em que o comandante da Companhia, capitão Rubi Marques, quebrava a rigidez do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) e, excepcionalmente, autorizava o convívio entre aquelas duas classes, honrando-nos também com a sua presença. Habitualmente, cabia-lhe a tarefa de, em nome de todos, fazer um pequeno discurso de parabéns, que também fez nesse dia.
Depois, foi a vez de o Babo tomar a palavra para agradecer. Ao referir o significado que aquela reunião tinha para ele, frisou que, para todos os efeitos, naquele dia nós éramos a família que substituía a família verdadeira, forçadamente ausente, acentuando que, dadas as circunstâncias, o cap. Rubi Marques era uma espécie de segundo pai.
Foi então que, comovido, o nosso comandante – com fama (e proveito) de militar puro e duro – mostrou a sua faceta mais humanista. Comovido pela sensibilidade natural que o Fernando Babo pusera no discurso que acabava de ouvir, e para não chorar diante de todos nós, levantou-se inopinadamente, abandonou a sala, saltou para uma bicicleta que estava encostada à parede e, a pedalar vigorosamente, saiu do quartel – e da protecção do arame farpado - pela estrada (picada) fora, perante a surpresa de todos.
Acabámos por ir buscar uma viatura e recolhê-lo, por uma questão de segurança.
Era assim o efeito que a delicadeza tocante do Babo produzia nos outros.
Convivi com ele quase diariamente de Setembro de 1964 até Fevereiro de 1966, altura em que o BART 741 foi transferido para o Quanza-Sul. A CArt 738 ficou aquartelada na Gabela, mas o 4º pelotão, a que pertencia a secção que o Babo comandava, foi colocada em Porto Amboim.
Nesse último ano de comissão, apenas convivíamos algumas horas, quando lhe calhava comandar a “coluna” que vinha à Gabela. A excepção foi um mês em que, por troca com o furriel Miranda Dias, estive em Porto Amboim. Voltámos a ter muitas horas de conversa, normalmente sentados em frente ao mar. Era então que falávamos dos dias que custavam a passar e, já casado, ele se queixava das saudades da sua Fernanda.
Terminada a comissão, não voltou connosco. A chamada de familiares, foi para Moçambique com a esposa que, entretanto, se lhe tinha juntado em Luanda.
Embora tivéssemos falado algumas vezes ao telefone, só voltamos a encontrar-nos em Fafe, em 1994, no decorrer de um almoço com outros ex-militares da Cart 738, onde compareceu acompanhado pela esposa.
Esta é a minha homenagem a um amigo. A um Homem bom.


Confraternização de elementos da CCaç 715 (aquartelada na Missão, do Bembe) e da CArt 738
Fernando Babo, ao fundo, com uma garrafa na mão
Carlos Fonseca
CArt 738
«clique nas fotos, para ampliar»

sexta-feira, 26 de março de 2010

Ainda a Operação Helitransportada. A descrição

Há quase um ano, em Abril de 2009, publicámos aqui a fotografia de uma operação helitransportada de que participou o 4º. Grupo de Combate, algures, no Norte de Angola.

Um dos nossos camaradas da escolta de viaturas tirou-a, a nosso pedido.

Muito recentemente, quando vasculhávamos os nossos arquivos, encontrámos umas quantas fotocópias que, há bastantes anos, nos foram remetidas pelo nosso querido amigo, o ex-Furriel Salema. Era o seu contributo para um livro, a escrever-se um dia, com a história da CArt 739, livro que nem iniciado foi e que este modesto blogue procura substituir.

Dentre as referidas fotocópias encontrámos umas quantas que foram extraídas do livro “Nas Três Frentes Durante Três Meses”, da autoria do jornalista do “Diário de Notícias” Martinho Simões. Relata, o autor, uma operação helitransportada, a que assistiu na companhia do, então, comandante-chefe das Forças Armadas em Angola, general Andrade e Silva.

Damos a palavra ao jornalista.

“As forças de assalto actuaram em perfeita segurança, beneficiando da acção do dispositivo da quadrícula, que organizara a contenção: um anel destinado a impedir a fuga dos terroristas; outro para evitar o seu reforço.

Viu, também, o jornalista a extraordinária eficácia dos helicópteros – instrumentos indispensáveis para este tipo de luta. A surpresa, a rapidez de colocação das tropas, a frescura dos combatentes são elementos essenciais para se alcançar o êxito, quando as dificuldades do terreno e as distâncias favorecem o inimigo. Eles são, na verdade, fundamentais para a obtenção de uma surpresa sem a qual esse êxito é muito aleatório e difícil de conseguir.

  • Chegada à base temporária

Muito cedo, um «Nord» descolou da Base Aérea de Luanda, rumo ao Norte.

A bordo, o general Andrade e Silva, os generais Soares Pereira e Almeida Viana, os brigadeiros José Vitoriano e Reis; o tenente-coronel Rangel de Lima; e o jornalista.

Algures, no Norte, o bimotor aterrou. Na placa de estacionamento, os helicópteros aguardavam.

Imediatamente, sem perda de um segundo, o general Andrade e Silva inteirou-se do modo como se iniciara a operação, para verificar se a execução estava de acordo com o planeamento antecipadamente aprovado.

Segundo o jornalista Martinho Simões, estão presentes, à direita, os generais Andrade e Silva, Soares Pereira e Almeida Viana. Também presentes os brigadeiros Vitoriano e Reis. Os oficiais do BART 741 estão, de frente, vendo-se: o Comandante, Ten-Cel Cabrita Gil estendendo a mão sobre as cartas (um caracteristico gesto seu), logo atrás encontra-se o 2º. Comandante, o Major José Soares e, ao fundo, de óculos, o Cap Fernando Mira, comandante da CArt 739.

Os helicópteros rolaram para a pista e subiram na vertical.

Por dois deles, visando razões de segurança, se distribuíram os oficiais generais. Acompanhei o comandante-chefe.

A rasar o solo, confundindo-se com a vegetação e os tons cinzento-acastanhados da superfície, os aparelhos dissimulavam-se através das linhas dos vales. Depois, flectiram, bruscamente, para a esquerda.

Poucos minutos volvidos, a base temporária estava a nossos pés, as viaturas alinhadas e as forças preparadas para a acção.

Poisámos.

  • O ataque principia

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As pás dos helicópteros giravam, na iminência da descolagem.

As equipas de combate correram para os aparelhos, vultos mal delineados na sombria agitação dos asfixiantes turbilhões de terra e plantas, que confundiam os contornos das coisas.

A primeira onda de ataque perdeu-se no horizonte. Ao ruído dos motores sucedeu a reconfortante acalmia do silêncio da espera.

Por escassos minutos, todavia, Os helicópteros regressavam e tornavam a partir. E outra e outra vez, até que, na base temporária, apenas ficassem as viaturas e os soldados que as guardavam.

  • Na «zona de morte»

Como os combatentes, também nós voávamos ao encontro do inimigo.

Entrámos na «zona de morte» e o general Andrade e Silva mandou que a altitude fosse diminuída para menos de vinte metros: queria que o jornalista se apercebesse, com nitidez, da acção, que se desenrolava lá em baixo.

Distingui os homens da primeira arrancada estendidos no solo, ao abrigo de pedras ou de simples arbustos, protegendo os camaradas que chegavam.

Os helicópteros nem tocavam no terreno. Vinham de súbito e os atacantes saltavam, de três ou quatro metros. Corriam agachados e tomavam posições.

Do ponto de desembarque, a manobra desenvolvia-se como uma estrela que vai alargando as pontas. Os soldados exploravam o terreno e, cuidadosamente, progrediam em pequenos lanços.

Saltando sobre o objectivo, na chamada «zona de morte»

A azáfama da guerra estava perante mim. Uma azáfama perfeitamente ordenada e controlada, cada oficial ou soldado consciente da sua missão, os mínimos gestos produto de um longo treino, qualquer movimento resultante da reflexão e do estudo.

A Arte de Combater apresentava-se na sua mais pura expressão e o quadro revestia-se de uma terrível beleza.

Circulámos demoradamente, antes de nos afastarmos em direcção às outras áreas da operação.

O planeamento cumpria-se em todos os pormenores. Não havia uma falha, uma hesitação. Os homens, as armas e as máquinas faziam um todo homogéneo, que significava, para o inimigo, a derrota inevitável."

(Com a devida vénia)